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Entrevista com Pedro Ayres de Magalhães

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Sonhava desde os dezoito anos em conseguir um grupo de música portuguesa com projeção internacional – e conseguiu-o. Pedro Ayres de Magalhães, iniciador e mentor do grupo Madredeus, conseguiu a proeza de manter um projeto musical vivo e com qualidade ao longo de 25 anos. Com voz grave, bem colocada, e um discurso pausado, é fácil perceber que respira a sensibilidade acumulada de quem já viu muito e tem muitas histórias para contar. Pedro Ayres de Magalhães falou-nos do sucesso dos Madredeus, da projeção alcançada com Wim Wenders, do trabalho com Teresa Salgueiro, da nova vocalista Beatriz Nunes e da tournée mundial que agora começa. Em Berlim, o concerto é a 16 de outubro, orgulhosamente apresentado pelo Magazine Berlinda.

 

BERLINDA: De onde surgiu o nome Madredeus?

 

PEDRO AYRES DE MAGALHÃES: Madredeus é o nome de um bairro de Lisboa, entre o terreiro do Paço e a Expo, onde o grupo passou a maior parte do tempo inicial. Nós ensaiávamos no teatro Ibérico, antiga Igreja do Convento de São Francisco. A companhia do Teatro Ibérico emprestava-nos a sala, que é uma igreja barroca. Naquele tempo, 86, 87, foi importante para nós termos estado ali. Ensaiávamos um ano, depois da companhia ter acabado as suas sessões. Começávamos a ensaiar às onze horas, meia noite. E foi assim que fizemos o primeiro álbum, e como o grupo ainda não tinha nome chamamos-lhe “Os dias da Madredeus”.  E o nome ficou. É um nome que se percebe à distância que é português; é uma palavra que encerra duas palavras muito importantes da nossa cultura: madre (nome de freira, ou da mãe de deus) e deus, a palavra mais abstrata da cultura ocidental. É uma maneira de assumir um certo substrato filosófico e humanístico, que está presente no nosso grupo.

 

 

B: Como se explica o sucesso que os Madredeus têm no estrangeiro?

 

PAM: Os Madredeus nasceram há 25 anos. Já nessa altura era muito diferente da dos outros grupos. Nós, o Rodrigo [Leão] e eu, trabalhávamos com outros grupos, os Heróis do Mar e os Sétima Legião,  que tinham muito sucesso nos anos 80. Mas queríamos fazer um grupo particular, mais simples, onde a poesia fosse um elemento mais importante. Queríamos menos distração com os instrumentos que tocam muito forte, como a bateria e a guitarra elétrica, e que a poesia se insinuasse mais, a voz e a palavra em português. Depois de muitos anos a fazer concertos e viagens com os Heróis do Mar, vi que era possível criar um grupo musical em português desde que houvesse um substrato cultural importante na temática do grupo, e claro está, que fosse uma proposta musical interessante. O campo musical nos anos 80 estava aberto ao mundo inteiro, pelo menos foi o que me pareceu. Então, quis fazer um grupo português que pudesse ser interessante para os outros países, para que os outros ouvissem a nossa língua e se familiarizassem com a nossa cultura e o nosso lugar do mundo, sem ser através do fado. Eu não pertenço ao fado, o fado é uma cultura musical que é bastante vincada em certas pessoas, bairros e meios, mas é uma cultura que eu não tinha. E conseguimos juntar um grupo de jovens que se interessou muito pela música, pela encenação, pelos concertos que fazíamos, com muito gosto e muita alegria. A Teresa [Salgueiro] era uma pessoa que gostava muito de cantar, que se entusiasmou muito com o grupo, bem como o Francisco [Ribeiro], o Rodrigo [Leão] e o Gabriel [Gomes]. Os nossos concertos eram diferentes de tudo o que se fazia em Portugal. Tivemos sempre a ideia de que se o grupo se conseguisse profissionalizar, isto é, se as pessoas se pudessem dedicar o mais possível ao grupo, nós poderíamos aceitar convites do estrangeiro, porque era um projeto musical invulgar e com muita qualidade. Quando os convites começaram, nós abraçamos isso com muito entusiasmo. Mas não foi nada fácil preparar as viagens, pôr as pessoas um mês fora de casa, tudo eram dificuldades. Apesar disso conseguimos dedicar-nos a essas viagens, e a tudo o que elas implicavam – trabalhar muito em estúdio, estar disponível para muito mais do que tocar, dar entrevistas etc. Nós dedicamo-nos a isso com muita militância. E assim, pouco depois de termos começado, os Madredeus eram um grupo que quando convidado, aparecia. Isso é uma grande razão para ter feito o seu prestígio internacional. Nós estávamos concentrados em organizar a agenda e não falhar a ninguém, em montar os nossos concertos exatamente como nós queríamos, em colaboração com as pessoas que nos convidavam. As pessoas habituaram-se a terem um bom espetáculo na sua cidade, na sua sala, e era um momento de entretenimento invulgar, para já porque era em português e ninguém conhecia a língua.

 

Houve durante algum tempo uma confusão entre o que era os Madredeus e o Fado – muitas vezes fomos apresentados como os representantes do país do fado, porque é uma palavra muito conhecida de Portugal. Mas nós conseguimos através dessas viagens manter a criatividade, renovar o nosso repertório e quando voltávamos às cidades nunca voltávamos coma mesma música. Por outro lado, conseguimos do ponto de vista organizativo manter o grupo sempre em grande forma, gerir as questões pessoais, aceitar as entradas e as saídas – o grupo mudou de formação várias vezes – e no entanto manter o nível artístico, que foi sempre melhorando, na minha opinião. Tudo isso contribuiu muito para a nossa aceitação no estrangeiro.

 

B:  Na Alemanha alcançaram uma enorme projeção graças ao filme “Lisbon Story” de Wim Wenders. Houve ou haverá mais colaborações com a Alemanha?

 

PAM: Não foi só na Alemanha. Se houve coisa importante e que escapou ao nosso controlo foi essa participação no filme do Wim Wenders. Aconteceu por acaso, não estava nos nossos planos. Recebemos um convite para ir jantar em Lisboa com o Wim Wenders, que queria fazer um filme sobre Lisboa, mas ainda não sabia muito bem o quê. Ele tinha ouvido falar em nós, ouvia a nossa música. Nós por acaso não estávamos em pico de atividade de concertos, porque tínhamos acabado de preparar um repertório completamente novo para ser lançado na Europa inteira. Estávamos no Natal de 1993. O grupo estava em grande forma, a formação já era diferente da original, e eu disse-lhe que se quisesse podia usar a nossa música antiga à vontade, mas se tivesse a possibilidade de vir ao nosso estúdio poderia ver que o grupo estava muito melhor do que no início, que tínhamos um repertório fabuloso que estamos a preparar para gravar e que gostaríamos de colocar no filme. Ele foi ao estúdio e foi tudo muito natural. Gostou da música, gostou da Teresa, as músicas eram muitas – nós estávamos muito aflitos com irmos editar pela primeira vez um disco em 12 países ao mesmo tempo – e decidimos dividir o repertório: metade foi para o o nosso disco que se chamou “O espírito da paz”, e metade foi para o Lisbon Story, que era o filme que ele iria fazer mas ainda ninguém sabia o que é que era. E mais tarde, ele pensou em convidar-nos para sermos os atores do filme, como membros dos Madredeus, e aparecermos a tocar aquelas músicas totalmente inéditas. Para nós foi um projeto gratuito, porque não entrámos no orçamento do filme e fizémo-lo só por boa vontade. Mas o que é certo é que esse filme foi muito importante para o lançamento do nosso disco “O espírito da paz”, que saiu em 1994. A notícia da nossa participação no filme do Wim Wenders, que só saiu em 1995, criou muita expectativa em muitos países com a Itália, Alemanha, Holanda, Bélgica, França, Suíça... Foi um filme muito popular que esteve muitos dias em sala, e que mostrou o grupo como se fosse uma revelação. Para nós foi um enorme abrir de portas, foi uma aceitação mundial. O realizador tinha muito prestígio, o facto de sermos apresentados como a nova banda sonora do novo filme do Wim Wenders criou imensa atenção sobre nós, e posso-lhe garantir que foi esse filme que nos deu imensa notoriedade no Brasil, no México, na Colômbia, Argentina, toda a América Latina... reuniam-se multidões para nos ver tocar – éramos um grupo que inicialmente tocava só para 500 pessoas,  e depois do filme chegámos a fazer concertos com 100 mil pessoas no México e no Brasil. Na Europa, a popularidade também se alastrou: as nossas tournées em Espanha ou em Itália passaram de cinco a dez concertos para vinte ou trinta. Foi muito importante, não só como divulgação dos Madredeus, mas também penso que deve ter sido o objeto cultural com mais notoriedade alguma vez filmado em Lisboa, sobre a cidade. Foi realmente fantástico, e um grande empurrão para a nossa carreira.

 

B: Depois de tantos anos de sucessos, e de uma enorme carreira carreira internacional, o que ainda o motiva e inspira para continuar a fazer música?

 

PAM: Eu tenho  a perfeita noção de que sou um afortunado em relação à realização do meu projeto. Isso implicou muito trabalho, muita fidelidade ao projeto, e muita disponibilidade para aceitar todos os convites, todas as aventuras. Tive de condicionar a minha vida pessoal ao projeto, ao resultado que queria ter. Isso criou em mim um estado de espírito de grande gratidão – eu sou uma pessoa muita grata, muito satisfeita com a oportunidade que tive de viajar pelo mundo inteiro com a minha música, de tocar com a minha guitarra. Mas na vida não se faz nada sozinho. O nosso grupo teve muitas fases em que a organização foi muito importante: a parte contratual, as entradas e saídas de membros... se o grupo não estivesse organizado, não tinha sobrevivido a tantas crises. Eu era uma pessoa que estava já há dez, doze anos a trabalhar diariamente para conseguir fazer uma música, reunir um grupo de pessoas, criar uma dinâmica organizacional que permitisse a um grupo português viajar no mundo com uma música original. Esse era o meu plano desde os 18 anos. Quando aos 28, 29 isso começou a acontecer, fiquei muito entusiasmado, iluminado com essa atividade. Fiquei muito preso aos sucessos dos Madredeus e vivi-os como se fossem realmente a minha vida. Estou muito grato por tudo. Em 2004 inclusive eu propus ao grupo que fizéssemos uma tournée só para agradecer às pessoas, aos países que tínhamos visitado. Essa fase de agradecer, já passou. O “Amor infinito” foi uma tournée que fizemos só com esse propósito.

 

Quando a Teresa e o José Peixoto, dois membros que estiveram mais de dez anos conosco, decidiram sair, eu fiquei em casa a perguntar-me: o que vou fazer agora? O Carlos Maria [Trindade] e eu, que éramos os que ficámos da formação original, sabíamos que, seja o que for que fizéssemos, teríamos de trabalhar muito porque o nosso instrumento tinha-se desfeito. Eu decidi investir o dinheiro da reforma em construir um grupo novo, em construir um futuro para os Madredeus. Se não tivéssemos continuado as atividades desde 2007, facilmente teríamos caído no esquecimento. Em vez disso, procuramos músicos e escrevemos três álbuns originais, que foram os álbuns da Banda Cósmica. Esse grupo [a Banda Cósmica] durou dois anos. Agora criamos um novo grupo para o trabalho “Essência”, em que num primeiro momento tocamos novos arranjos da música dos Madredeus. Estamos a preparar um álbum de originais com esta formação, com os violinos e com a Beatriz. Sabemos então que não estamos a continuar o grupo que a maioria das pessoas conhece, mas sim a continuar a música. A música não são pessoas, é música, qualquer pessoa a pode interpretar. Nós ficamos muito conhecidos com uma certa formação, com a Teresa Salgueiro, mas ela trabalhava para a divulgação de um repertório, e esse repertório, que hoje em dia conta com cerca de 180 canções, é um tesouro. É uma música que não deve cair no esquecimento. É isto que me motiva, e  eu vou dedicar o resto da minha vida, até ao fim dos meus dias, a escrever mais música da mesma família.

 

B: Cinco anos depois da saída da Teresa Salgueiro, a banda está em grande forma. Como está a ser o trabalho com a nova cantora, Beatriz Nunes?

 

PAM: É fantástico. Ela é uma jovem artista muito bem preparada. Há 30 anos não havia pessoas tão bem preparadas em Portugal. Isso deve-se ao empenho e às conquistas da educação artística nestas últimas décadas. Fizemos audições, e tivemos duas cantoras fantásticas na Banda Cósmica, que eram a Mariana Abrunheira e a Rita Oliveira. Mas esse grupo era como uma companhia de teatro: muito caro de manter. Tivemos uma jornada de um ano e dezoito meses de trabalho, gravámos três álbuns, fizemos trinta concertos, mas depois o grupo teve que acabar porque a crise, a míngua de iniciativas na indústria do entretenimento e o próprio tamanho do grupo – dezasseis pessoas – fizeram com que acabasse. Foi uma iniciativa de grande fantasia da nossa parte, e ainda bem que a tivemos. Mas não era um grupo para manter por muitos anos. Agora fizemos audições para o novo projeto, e tivemos a grata surpresa de conhecer a Beatriz. Numa manhã de domingo, no Teatro S. Carlos, conhecemos esta jovem cantora que aos 22 anos já tinha o curso de Belas-Artes, o curso de canto do Conservatório Nacional e estava no 2º ano do curso superior de Jazz da Escola Superior de Música – com 22 anos! É uma pessoa fantástica, para ela o nosso repertório não tem espinhas nenhumas. Nós demos-lhe as partituras das músicas que tínhamos trabalhado com o quinteto e passados poucos dias ela já estava pronta para gravar. Ela nunca tinha estado em estúdio, mas como tinha uma formação artística tão boa não estranhou nada, pudemos progredir nessa parte importante do trabalho dos Madredeus que é a das gravações, e de facto até à data o grupo já viajou bastante com o “Essência”, ela gosta muito de viajar, tudo tem sido uma maravilha – oxalá nunca termine!

 

B: O álbum “Essência” consiste em arranjos de temas clássicos. Quer isto dizer que o público pode alegrar-se de ouvir temas emblemáticos como “O Pastor” e “O Navio”?

 

PAM: Sim. O disco ainda não foi editado na Alemanha, mas penso que sê-lo-á em breve. O álbum tem 13 canções, mas o concerto é muito maior. Vão poder ouvir sim, os arranjos foram feitos pelo Jorge Varrecoso, da Orquestra Sinfónica Portuguesa. Vamos tocar “O Pastor”, “A Vaca de Fogo”, “Vem”, etc. Mas como eu dizia há pouco, os Madredeus não são uma banda de singles; este concerto é mais um esforço para divulgar canções pouco conhecidas. Há canções que em Portugal são muito conhecidas, mas que no resto do mundo não o são, e vice-versa. Quando o grupo se apresenta no estrangeiro, traz uma sonoridade nova, um repertório novo, e as pessoas que vão ao concerto podem sempre contar com uma certa surpresa. Uma das características do grupo é conseguir, com os mesmos instrumentos, e sem explosões nem efeitos especiais, criar ambientes musicais muito diferentes. E esse elemento surpresa vai permanecer nesta tournée que vamos fazer na Alemanha. Nós fizemos uma seleção de canções dos 25 anos de carreira, as pessoas vão ouvir canções que conhecem dos discos, e outras que nem sequer sabiam que existiam. Este concerto é, como dizem os franceses, “à decouvrir”.

 

 

Entrevista: Inês Thomas Almeida, com a ajuda de questões colocadas pelos leitores do magazine Berlinda

 

 

  

 
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