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"A arte tem de ser provocadora" - entrevista a Johnny Hooker 

John Donovan, mais conhecido como Johnny Hooker, é um cantor, compositor, ator e cineasta nascido em Recife, Brasil. Seus shows têm alto teor performático e discurso subversivo que desafiam as expressões brasileiras e de gênero.

Sobre a estreia em Berlim, Johnny Hooker diz: “Estou ultra entusiasmado por conhecer Berlim e por conhecer um pouco da Alemanha. Sinto que Berlim esteve sempre na minha imaginação.” Não é de estranhar: afinal, uma das suas referências musicais é David Bowie. “É como se eu conhecesse Berlim através da música de David Bowie, da sua Berlin Trilogy. Só ouvi coisas incríveis sobre Berlim, acerca da arte, da música, que é uma cidade progressista, cheia de arte e liberdade, de pessoas que querem repensar o futuro de forma positiva para todos”, conta.

Johnny Hooker apresenta-se pela primeira vez na capital alemã, no Festsaal Kreuzberg, dia 13 de Setembro às 20h. No line-up estão ainda Gloria Viagra, a mais famosa drag queen de Berlim e um personagem essencial da festa e da cena cultural da cidade, e a Dj Grace Kelly, residente em Berlim desde 1996 e uma habitué das agitadas noites da cidade.

O evento é produzido pela BOSSA FM e apoiado pelo coletivo “¡Mash-Up! - Multigender / Multiworld”, um dos coletivos mais expressivos da cena queer berlinense.


Entrevista com Johnny Hooker por Lukasz Tomaszewski, para a Cosmo Radio, gentilmente cedida à BOSSA FM e a Berlinda. 

Por favor se apresente para o público: Quem é você? De onde vem? Como é a sua música?

Olá, eu sou Johnny Hooker e nasci em Pernambuco, no nordeste do Brasil. A minha música é uma mistura de ritmos latino-americanos com ritmos brasileiros e um pouco de rock and roll também. A cidade onde eu nasci, Recife, tem muitas expressões culturais e musicais únicas  - tais como maracatu, frevo ou brega - e a minha música tem muito desses ritmos também. A minha performance é inspirada em figuras de Glam Rock como Marc Bolan e David Bowie. E também em estrelas pop como Madonna ou Prince. É uma performance Gender-bender. Eu costumo descrever Johnny Hooker como a persona em que eu me transformo no palco. É uma mulher furiosa presa dentro de um corpo masculino e com olhos em lágrimas.

Você poderia descrever a sua música: as tuas misturas de ritmos locais como o Samba, Brega, Frevo, Guitarrada e Axé?

No meu primeiro disco, eu uso mais ritmos locais, de Recife e Pernambuco, sons nordestinos. O meu segundo álbum é mais uma mistura de sons brasileiros de norte a sul do país. Quando eu escrevi o meu primeiro álbum eu vivia em Recife, então ele reflete mais do espírito da cidade. No segundo álbum, eu já havia saído em tour pelo Brasil com o primeiro álbum, então já inclui mais sonoridades e ritmos com os quais tomei contacto. Para mim, o Brasil tem tantas expressões musicais únicas e nós não as valorizamos tanto como deveríamos. Nos fizeram acreditar que a boa música - ou a música sofisticada - é a música americana, ou a música europeia. O meu trabalho é orientado no sentido de valorizar essas expressões musicais, para ver o quanto a nossa cultura tem de único e valorizar a nossa identidade enquanto povo e país.

Vamos falar de suas letras. Enquanto cantor e autor Queer, você desafia as expressões de gênero e brasileiras, além da a típica relação masculino-feminino. Foi fácil começar este tipo de trabalho? Qual é a reação do público?

Para mim, como artista gay e homem, e tendo sido influenciado por artistas como David Bowie, Madonna Prince ou Caetano Veloso, que são provocadores, Gender Bender Artists, seria impossível para mim não trazer esta questão do gênero para as minhas performances e  os imprimir nas letras, videoclips e nos meus shows … Estas questões aparecem de forma muito natural na minha arte e na minha música e são parte da minha identidade. É impossível separar as duas coisas. Seria impossível para mim fazer arte sem falar de género e sexualidade e sem ser provocador acerca destes temas, porque isso é parte da minha vida quotidiana. Infelizmente vivemos numa sociedade ultra-conservadora aqui no Brasil. Temos uma ascensão de políticos da extrema direita e estamos muito atrasados no que toca a discussões sobre o tema LGBTQI. Por isso, ser uma espécie de voz para a comunidade LGBTQI no Brasil, como artista, é algo muito sensível. No Brasil temos tantos dogmas e tabus ao redor da sexualidade e identidade de gênero, ainda que a imagem que vendemos para o mundo seja de um povo super liberado, com o Carnaval, um povo sexual... Na realidade, somos ainda uma sociedade ultra-conservadora e ultra-religiosa. Eu acho que a arte tem de ser provocadora. Para mim, esta é uma forma natural de provocar e criar discussões ao redor destes temas que têm que ser discutidos na nossa sociedade atualmente.


Liniker e Pablito Vittar são outros artistas que questionam o papel da normativa-hetero na cultura pop brasileira. Ao mesmo tempo, a comunidade LGBTQI é atacada diariamente. Como você descreveria a situação da comunidade LGBTQI atualmente?

A música no Brasil sempre foi uma espécie de barricada de resistência contra o pensamento conservador. Tivemos músicos falando contra a ditadura, nos anos 60, 70 e 80. Foi uma época muito difícil. Não é coincidência que, agora, vemos a música falar de novo contra o fascismo e pensamento conservador. Esta resistência tem sido feita por artistas LGBTQI, mulheres e negros de todos os pontos do Brasil. A arte brasileira sempre foi uma parte da nossa resistência cultural. Não é coincidência que quando o fascismo aumenta, a arte insurja. Tenho muito orgulho de fazer parte desta geração de artistas como Liniker e Pablo Vittar, que são, não apenas artistas fenomenais, mas que se impõem contra o ódio e o fascismo e ideias que são velhas e que não se enquadram mais numa sociedade moderna.

Eu acho que a música toca as pessoas de forma tão universal, de forma tão humana, que nos une e ajuda a quebrar estas barreiras, estas barreiras imaginárias que parecem separar-nos. Vivemos num país que mata 1 pessoa LGBTQI por dia. O Brasil está no primeiro lugar do ranking de mortes e violência contra LGBTQI no mundo. Então, estaria mentindo se não dissesse que tenho medo de ser uma pessoa deste meio no Brasil. Temos um cenário muito violento e assustador para essas pessoas por aqui. Fico contente por a música estar combatendo essa violência e essa forma de pensar desactualizada, mas ainda temos muito que fazer aqui. Tivemos uma ditadura até 1987 e, desde que voltamos à democracia, eu acho que não fizemos o esforço necessário para avançar nesta discussão sobre os direitos LGBTQI no Brasil.

O seu álbum é uma combinação de tropicalismo e Soul americano. “Como se Caetano Veloso e David Bowie tivessem tido um filho no Recife”. Conte-nos sobre “Coração”!

O meu segundo álbum, "Coração", é uma homenagem à América Latina. A forma do coração me lembra a forma da America Latina. É uma celebração do que é ser latino-americano e do que é ser brasileiro e resistir. Nós fomos abandonados pelo resto do mundo tantas vezes, fomos explorados tantas vezes. Então é uma celebração da nossa cultura, música, paixão, drama e as nossas expressões culturais e artísticas únicas. É sobre a nossa luta pela democracia, direitos humanos e LGBTQI, que é um tema muito sensível. É uma mistura de tudo isso e as minhas influências pessoais tais como David Bowie, Madonna e Caetano Veloso, que me construíram e moldaram enquanto artista. Para mim, "Coração" é algo que pulsa, ainda que vivamos em tão grande tragédia e violência. É o pulso que resiste a tudo. O primeiro som que ouvimos dentro da barriga das nossas mães é o pulsar do seu coração. É a nossa primeira ligação com som e à musica que temos nas nossas vidas. É o som da vida ultrapassando a morte, escuridão e violência. Para mim "Coração" representa tudo isso.

 

Entrevista realizada por Lukasz Tomaszewski para a Cosmo Radio
Tradução para o português: Rita Guerreiro - Berlinda.org
Revisão: Rodrigo da Matta - BOSSA FM - www.bossafm.com

10/09/2018

Foto: Promo

Júnior Łukasz Tomaszewski

Łukasz Tomaszewski, nascido em 1982 em Minsk Mazowiecki, Polônia, estudou Ciência Política em Berlim, Potsdam e Cracóvia. O jornalista vive e trabalha como apresentador de rádio e autor em Berlim e Colônia. No WDR COSMO modera o show musical "Selektor". Os seus relatos concentram-se em mudanças sociais e políticas na América do Sul e na Europa Oriental..

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