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"Um documentário disfarçado de ficção” - “Fátima”, de João Canijo

Originário do Porto, João Canijo estudou História na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, mas não chegou a acabar o curso. Começou então a dar os primeiros passos no cinema e, entre outras coisas, foi assistente de realização de Manoel de Oliveira ou Wim Wenders.

Está no activo como realizador desde 1988, aquando do lançamento do seu primeiro filme “Três Menos Eu”. Seguiram-se “Filha da mãe” (1991) e “Sapatos Pretos” (1998), Ganhar a Vida (2000) e Noite Escura (2004), talvez o seu filme mais famoso. Tendo estreia no Festival de Cannes desse ano, foi o filme português escolhido como candidato ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. Em Portugal, o filme recebeu  o Globo de Ouro na categoria de Melhor Filme.

Outros filmes do realizador são “Mal Nascida” (2007),  “Fantasia Lusitana” (2010), “Sangue do Meu Sangue” (2011), apresentado por Wim Wenders em Berlim no âmbito do Festival A Volta ao Mundo em 14 Filmes, uma iniciativa para divulgar os melhores filmes dos festivais de Cannes, Locarno, Veneza e San Sebastian e “É o amor” (2013). “Fátima” (2017), que teve estreia internacional no Festival de Cinema de Roterdão, é o seu último filme. Foi considerado o Filme Português do Ano pela revista Time Out e um dos filmes de 2017 pela Revista Sábado. “Fátima” passou ainda na RTP1 em formato de mini-série de 5 episódios.

 

“Fátima” no Portuguese Cinema Days in Berlin 2018

 

“Fátima” faz parte da programação do Festival Portuguese Cinema Days in Berlin 2018, que decorre entre 17 e 20 de Outubro em Berlim. João Canijo estará na capital alemã dia 19 de Outubro para apresentar o seu mais recente filme. O evento decorre no Hackesche Höfe Kino às 18h.

Em entrevista-relâmpago para a Berlinda em cooperação com a Associação 2314 – Portugiesischer Kulturverein in Berlin, João Canijo explica um pouco de como surgiu a ideia do seu último filme “As actrizes fizeram peregrinações reais integradas em grupos de peregrinos verdadeiros. Dessas experiências foi nascendo a estrutura do filme”. As 11 actrizes que integram o elenco adquiriram assim experiências e vivências in loco, junto com outras mulheres transmontanas, que transpuseram depois para o filme. Antes de rodar “Fátima”, fez ele próprio uma peregrinação. Para o realizador, essas experiências vividas por ele e pelas actrizes foram essenciais para concretizar a ideia do filme. João Canijo refere ainda que “Tinha uma ideia muito aquém da realidade. Muito aquém do esforço e violência física que implica no caso de Fátima”.

"Fátima" é um filme onde o realizador se debruça sobre a questão da auto-imposição do sofrimento e do sacrifício. Mais do que sobre o tema da religião, João Canijo explica que lhe interessavam explorar várias ideias: “Primeiro, juntar um grupo de mulheres numa situação de permanência juntas 24/24h. Depois, o paradoxo entre a ambição de transcendência da fé e a natureza humana. A ideia foi desenvolvida na investigação da realidade. O conceito do filme foi desde o início um documentário disfarçado de ficção”.

Rita Blanco é uma constante nos seus filmes. Com “Fátima”, a actriz ganhou este ano dois prémios: Melhor Actriz de Cinema pela SPA - Prémio Autores 2018 e o Globo de Ouro de Melhor Actriz de Cinema 2018. Foi o quarto globo da sua carreira e o segundo num filme de João Canijo. O realizador valoriza “a seriedade e o talento”  da actriz, que diz que ainda tem muito para dar ao seu público no futuro. “Irá ainda surpreender muito”, afirma.

O seu próximo filme será também com um elenco maioritariamente feminino, porque a João Canijo interessa explorar essa “dádiva de que as mulheres são capazes”. Actualmente em fase de escrita do argumento, “o filme vai tratar do ressentimento no meio familiar”, contou o realizador.

 

 

Por Rita Guerreiro (Berlinda.org) em colaboração com Helena Araújo (Associação 2314 – Portugiesischer Kulturverein in Berlin).

17/10/2018

Foto: ©Promo

Helena Araújo

Helena Araújo, casada, dois filhos. Estudou economia na Faculdade de Economia do Porto. Vive na Alemanha desde 1989, e em Berlim desde 2007, onde trabalha como tradutora e guia-intérprete. Autora do blogue “dois dedos de conversa” (*2004), e co-autora do livro “O Fio À Meada - Diálogos Imprevistos”.

Rita Guerreiro

Licenciada em Audiovisual e Multimedia pela ESCS – Escola Superior de Comunicação Social (Lisboa), chegou a Berlim em 2010. Depois de ter participado em vários projectos de voluntariado e iniciado o Shortcutz Berlim, juntou-se à nova equipa Berlinda em 2016 e é desde então editora do magazine, para o qual contribui com vários artigos e entrevistas. 

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