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“Embora tenha sido rodado em Berlim, retrata uma história de alcance universal” - Welket Bungué em entrevista

17/02/2020

Foto: © Wolfgang Ennenbach2019 SommerhauseOne Germany

A viver em Berlim desde Novembro do ano passado, Welket é um verdadeiro cidadão do mundo. Deixou a Guiné-Bissau e foi viver para Portugal com a família em 1991, com apenas três anos. Viveu primeiro em Lisboa e aos onze anos foi para um internato em Beja, onde começou a fazer teatro. Em 2012 seguiu para o Brasil para fazer um intercâmbio, país onde já tinha estado em 2008 por curtos três meses a filmar a série “Equador”, de Rui Vilhena (baseada na obra homónima de Miguel Sousa Tavares). Viveu sete anos no Rio de Janeiro antes de se voltar a fixar na Europa. 

A capital alemã não lhe é estranha, não fosse uma cidade por onde passou já inúmeras vezes antes de se mudar, nomeadamente para o Festival de Cinema de Berlim. A última vez que esteve uma temporada mais longa em Berlim foi para as filmagens de “Berlin Alexanderplatz”, que decorreram em 2018 e duraram cerca de 2 meses.

 

Uma aposta de peso

“Berlin Alexanderplatz” é a primeira produção alemã que integra e um novo palco para o jovem actor. “Fiz o self-tape quando estava no Brasil ainda, em 2017, logo após ter estado em Berlim [por ocasião da Berlinale]. A produção já andava à procura do actor para interpretar o Francis há cerca de dois anos. Apesar de já me terem visto actuar na curta portuguesa ‘A dança de Sísifo’, de André Lourenço e Paulo Valente, feita na Universidade Lusófona, só quando me viram em Berlim na estreia de ‘Joaquim’ é que as coisas começaram a acontecer. Em Agosto ou Setembro desse ano fiz um casting ao vivo e aí conheci finalmente [os actores] Albrecht Schuch e a Jella Haase.”, explicou numa curta entrevista ao PT Post. 

Welket Bungué soma várias participações em curtas e longas-metragens como actor e também realizador, tais como “Bastien” ou “Arriaga”. Outros trabalhos como actor incluem “Joaquim”, de Marcelo Gomes, “Terra Amarela”, de Dinis M. Costa ou ”Corpo Elétrico, de Marcelo Caetano, produções que o levam frequentemente a viajar entre Portugal e Brasil. “Desde 2015 tenho trabalhado bastante como actor internacional. ‘Berlin Alexanderplatz’ é um projecto que tem um grande significado para mim porque eu não sou um actor que tem o inglês como língua nativa, muito menos tenho um background ligado à cultura alemã. Portanto acho que esta foi uma grande aposta desta produção alemã na minha pessoa, mas também é a confirmação de que o trabalho árduo traz sempre uma recompensa”.

Para se preparar para o papel de Francis, Welket teve aulas de alemão. “Ao princípio nem sabia dizer Brot (pão) em alemão”, recorda. Teve uma dialogue coach de língua alemã, Lena Lessing,  “a mesma senhora que pôs o Mickey Rourke a falar alemão [no filme ‘Berlin I love you’, de Dianna Agron, Peter Chelsom, Fernando Eimbcke, Til Schweiger, Massy Tadjedin, Justin Franklin, Dennis Gansel, Dani Levy, Daniel Lwowski, Josef Rusnak e Gabriela Tscherniak (2019)]”, diz com uma gargalhada. Esta preparação foi determinante para o ajudar a dominar o idioma e a ultrapassar essa barreira inicial na sua actuação. Os colegas também o ajudaram muito, “sempre que foi preciso, falavam inglês comigo”, faz questão de sublinhar. Mas não esconde o seu carácter de eterno viajante como a grande mais-valia que lhe permitiu encarnar a personagem. “Acredito que a robustez do ponto de vista artístico que me permitiu ter confiança suficiente para me embrenhar nesta história deve-se ao facto de eu ter estado a viajar desde 2012, depois de ter terminado a faculdade. Todas essas experiências que fui acumulando, sobretudo sob o ponto de vista de vivências em territórios não nativos, me ajudaram a encarnar esta personagem”, arrematou.

 

70. Berlinale e futuro como actor

No seu modo descontraído e naturalmente simpático de falar, Welket mostra-se bastante entusiasmado com a estreia do filme em Berlim. “Se em 2017 estive na Berlinale com uma produção entre Portugal e Brasil, este ano vou estar com um filme que consideraria multicultural. Embora tenha sido rodado em Berlim, retrata uma história de alcance universal, que vai para além daquilo que são as efígies das políticas internacionais relativamente à inclusão ou exclusão dos refugiados. Mas, sobretudo, o filme tem a ver com as estruturas de poder que vigoram hoje em dia. Nunca é demais falar sobre elas e, neste caso, re-enquadrar essa temática através da adaptação de um texto que é um clássico alemão e contemporaneizá-lo”.

Há 18 títulos a concurso na secção competitiva do Festival de Berlim, entre eles “Todos os Mortos”, dos realizadores brasileiros Caetano Gotardo, Marco Dutra, que conta com a actriz portuguesa Leonor Silveira no elenco. O Urso de Ouro é um prémio bastante desejado, mas Welket sublinha outras vantagens de estar presente no certame. “Acredito que a visibilidade que o filme possa trazer sirva como um rastilho que eu acho que é necessário para me catapultar para mercados mais desafiantes. Mercados esses onde, embora não sendo a falar português tanto quanto eu gostaria, poderia continuar a desenvolver-me como actor em outras línguas. É isso que significa internacionalização afinal”, concluiu.

Após a sua participação na 70. Berlinale, “Berlin Alexanderplatz” tem estreia prevista nas salas de cinema alemãs a partir de meados de Abril.

Rita Guerreiro

Licenciada em Audiovisual e Multimedia pela ESCS – Escola Superior de Comunicação Social (Lisboa), chegou a Berlim em 2010. Depois de ter participado em vários projectos de voluntariado e iniciado o Shortcutz Berlim, juntou-se à nova equipa Berlinda em 2016 e é desde então editora do magazine, para o qual contribui com vários artigos e entrevistas. 

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