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12/11/2018

Foto: © Rita Guerreiro / Berlinda.org

Teve lugar de 5 a 8 de Novembro a “maior conferência tecnológica do mundo” em Lisboa. O fundador da Web Summit, Paddy Cosgrave, deu as boas-vindas à plateia no primeiro dia com vários elogios a Portugal - e Lisboa - e aproveitou para lembrar que a cimeira terá lugar na capital durante os próximos 10 anos. Esta é mais uma revolução na zona do Parque das Nações, no mesmo ano em que se assinalaram os 20 anos da Expo 98 naquele lugar. O que foi em tempos uma zona industrial degradada nos arredores de Lisboa, e que passou por um gigantesco processo de reabilitação para poder acolher a grande exposição comemorativa dos 500 anos dos Descobrimentos portugueses, é hoje um palco da tecnologia e abre-se de novo ao mundo.

 

Tim Berners - Lee, o aclamado pai da World Wide Web, foi uma das principais “cabeças de cartaz” e teve honras de abertura do evento no palco principal, onde defendeu a importância da criação de um contrato  para a web, por forma a proteger os utilizadores e para tornar a internet “num sítio melhor”. Seguiram-se os restantes convidados: Lisa Jackson, vice-presidente da área dedicada às políticas sobre o ambiente e as iniciativas sociais da Apple, Darren Aronofsky, o realizador de “Black Swan” ou “Requiem For a Dream” e o secretário-geral das Nações Unidas António Guterres. Por fim, o primeiro-ministro António Costa e o presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, reforçaram o orgulho em receber, mais uma vez, todos os presentes. Estava assim oficialmente aberta a Web Summit.

 

Unicórnios e entusiastas da tecnologia

Durante a Web Summit há várias palestras a acontecer em simultâneo nos diferentes palcos, sendo que o maior e mais procurado é o palco principal na Altice Arena. Os restantes dividem-se em áreas mais específicas como produção de conteúdo, moda, sustentabilidade, saúde, criptomoeda ou desporto. Certas palestras são tão populares que chegam a haver dezenas de participantes sentados no chão. Pelo meio há ainda os vários stands e expositores de empresas ou startups, que podem ser visitados sem a preocupação dos horários ou salas esgotadas. E é aqui que se podem encontrar, quem sabe, os famigerados unicórnios.

“Tens aqui as melhores coisas do mundo, só que estão escondidas no meio dos stands. É preciso ter olho para descobrir qual será o próximo unicórnio”, disse-nos Luis Caixado da GesEntrepreneur, uma empresa com mais de 10 anos que aposta na educação e formação como forma de promover o empreendedorismo. Porque é que veio à Web Summit se não trabalha numa startup? “A maior parte das pessoas nem sabe o que é uma startup”, responde em tom irónico. A empresa opera de Norte a Sul de Portugal e trabalha com alunos do 1º, 2º e 3º ciclos, bem como ensino secundário e profissional. “Fazemos motivação e capacitação de jovens, professores, escolas e até municípios para este mindset: criação do próprio trabalho, sentimento de criação do próprio trabalho, que é o que se chama a mente de um empreendedor. Este ano estamos a crescer, vamos recrutar pessoas”.

 

Luis é um entusiasta assumido da Web Summit, que descreve como um momento único para encontrar pessoas com ideias - e ideais - semelhantes: “O que acontece aqui é um grupo de pessoas que partilham o mesmo mind-set, que é acreditar em tecnologia, futuro, evolução, novos comportamentos e também negócio”. Foi por isso que veio.

                    

 

Uma comunidade de novas ideias

Luis está pela terceira vez na cimeira e sente-se completamente em casa. Veio como participante e reage de forma muito efusiva quanto ao facto de Lisboa ser a casa da Web Summit durante a próxima década. “Portugal é o melhor país do mundo para receber o Web Summit e termos fechado 10 anos deste evento aqui é uma maravilha”. É muito provável  que continue a voltar nos próximos anos. Afinal, encontrou aqui uma comunidade com a qual se identifica praticamente a 100% “Eu escolhi fazer parte desta comunidade, que tem a ver com novas ideias. Fui publicitário a vida toda, e interessa-me sempre ver o que há de novo em termos de Marketing, como é que eu vendo o meu produto, tecnologia, novos meios”, assegura. Confirma que já aqui fechou negócio várias vezes e que há sempre algo de novo que vale a pena conhecer “Esta é a melhor feira do género para poderes ver o que é novo, apresentares o que é novo, encontrares pessoas e parceiros de negócio”.

 

Murad Sah, fundador da FoldAirs reforça: “Tem sido uma experiência extremamente boa”. Esta empresa alemã oferece um serviço virtual de protecção ao consumidor e está pela primeira vez presente com um expositor. O facto de a empresa ter sede em Berlim, considerada a capital das startups, não diminuiu o interesse nesta visita a Lisboa. Antes pelo contrário, Murad Sah tinha muita vontade de vir: “Ouvi dizer que o Web Summit é um dos maiores eventos do tipo e o facto de ser em Lisboa é também importante. Não é muito longe e eu gosto muito de Portugal”. Já esteve em terras Lusas noutras ocasiões “Os meus pais têm um terreno com uma casa cá e esta é uma boa oportunidade de vir ver a minha família também. Combino as duas coisas”. A casa de família fica em Relíquias, concelho de Odemira (Alentejo) “Sei mostrar onde fica no mapa”, assegura.  

Não está à procura de clientes para o seu negócio neste momento, mas sim outras empresas com quem conectar-se para trabalhar em conjunto, business development e algum investimento. Mostrou-se surpreso com a quantidade de visitas que passaram pelo seu expositor “Não estava à espera de tanta gente. Durante uma manhã achei que iriamos ter um a dois visitantes, mas tivemos cerca de 12 pessoas de diferentes países”. Como o futuro é sempre algo incerto, não garantiu voltar na próxima edição, mas frisou a importância da Web Summit como local de encontro “Quando crescermos, acho que podemos estar cá presentes todos os anos. Acho importante estar em contacto com as pessoas nesta área, pessoas com ideias semelhantes”, arrematou.

 

Amélia Armando, fundadora da Sheshe - African Soul, partilha uma visão semelhante. Trouxe a sua empresa com sede em Luanda à Web Summit pela primeira vez, mas já tinha ouvido falar. “Tivemos conhecimento porque algumas empresas e startups angolanas já participaram em edições passadas”. Interessava-lhe ver o que acontece no evento e conhecer pessoas. O seu stand estava preparado para receber os visitantes com um computador com uma apresentação da empresa, cartões de visita, rebuçados e porta-chaves. “Hoje tivemos visitas de várias pessoas do Norte de África: Marrocos, Tunísia e Egipto. Tem sido muito produtivo”, disse Amélia com visível satisfação.

 

Sheshe, que em swahili significa bonito, elegante, é uma plataforma de venda de artigos de moda africana “Daí o nome, African Soul. Estamos a tentar mostrar ao mundo o que a África tem de bom e criativo, que passa também pela nossa moda. Tentamos promover a cultura africana e adicionar a nossa diversidade ao mundo”, referiu. Esta foi a primeira vez que a sua empresa esteve numa cimeira do género. ”A nossa startup foi criada só no ano passado e temos estado a tentar organizar outros aspectos da mesma e não estávamos focados em participar em eventos como este. Mas agora já temos uma estrutura criada e já quisemos começar a promover e a fazer um networking maior”.

 

É preciso ter foco

Não é difícil perder-se o foco quando se está num evento desta dimensão, sobretudo quando é a primeira vez. Este ano, a cimeira tecnológica contou com 1.000 startups dos mais diversos países: cerca de 100 do país anfitrião e tantas outras que chegaram dos mais variados pontos do planeta: do Japão à Arménia, passando por Singapura, Estónia ou Rússia. No meio de tantas pessoas, palestras, expositores e ruído de fundo, é necessário uma preparação prévia e estabelecer alguns objectivos. “Por ser a nossa primeira vez, o nosso maior objectivo mesmo é o networking. E poder estar com os mentores, pessoas que têm mais experiência que nós, tentar absorver o máximo possível e tentar fazer o máximo de publicidade”, disse-nos Amélia.

José Malaquias, da The Inventors, enfatiza precisamente este ponto: “Há que ter foco e saber o que se está à procura, senão podemos perder-nos neste imenso mar de gente”. The Inventors é uma empresa portuguesa com sede na Caparica que se dedica à criação de produtos e programas educacionais inspiradores, tais como campos de férias e atividades escolares criativos e tecnológicos. O objectivo é “formar uma nova geração de inventores”.

José esteve na Web Summit pela segunda vez como expositor, desta vez no grupo das startups Beta. A sua empresa, que está agora numa fase mais desenvolvida e tem cerca de dois anos de existência, beneficiou bastante com a participação anterior “Estivemos cá no primeiro ano e foi bastante positivo, tivemos uma conversa com um mentor que nos abriu os olhos para uma coisa que nós não estávamos a ver”. Os “inventores” começaram a colaborar em 10 escolas no primeiro ano e estão actualmente em 80 escolas em Portugal. Assegurou-nos que este ano foi igualmente importante estar presente, pois esta é uma oportunidade sem igual para aprender coisas novas “O Web Summit é uma plataforma fantástica para se conseguir, num único dia, falar com 100 pessoas diferentes, diferentes culturas, diferentes conceitos de negócio e partilhar experiências”.

 

Perspectiva global

 

A Web Summit é uma espécie de janela para o mundo da tecnologia, onde se pode ficar a conhecer muita coisa a nível global “É uma perspectiva de contactos, de ter percepção de realidades e de pessoas diferentes, e criar uma rede o mais alargada possível. Porque hoje em dia não chega olhar para o nosso próprio país, temos que olhar para fora e ter uma perspectiva mundial”, afirmou José. A sua empresa tem, por isso, os olhos postos lá fora “Estamos a tentar perceber como é que conseguimos desenvolver o nosso conceito de negócio noutros países. Estamos a fazer algumas experiências em Espanha e na Holanda, onde estamos a testar os nossos serviços. Este mês vamos fazer ainda um workshop em Liverpool“.

André Palma, da Asel-Tech, empresa brasileira que desenvolve sistemas de detecção e localização de vazamento em condutas de petróleo e gás, esteve também pela primeira vez no evento. A vinda a Lisboa foi financiada pelo Governo Brasileiro, como explica: “O Web Summit é muito conhecido mundialmente. Nós participamos de um programa brasileiro de internacionalização de startups e passámos o processo de selecção”. André veio a Lisboa para conseguir bons contactos com pessoas de várias áreas:  investidores, desenvolvedores ou outras empresas às quais fazer cross-selling dos seus serviços “O Web Summit é um evento generalista, abarca vários sectores, várias indústrias. O nosso interesse aqui é relacionamento”.

A empresa já não está numa fase inicial: “A solução já está implementada em alguns clientes na América Latina. Acabámos de abrir um escritório nos EUA e estamos a olhar para o mercado europeu. Já passámos a fase inicial, estamos agora numa fase de rampar, uma fase de crescimento, e estamos a procurar novos clientes”, contou André. Referiu ainda a facilidade da língua e a possibilidade de fazer uma ponte com outros países europeus e mesmo África. “Como nós trabalhamos na indústria do petróleo e gás, temos bastante demanda”. Para tal, a empresa já fez contactos em Portugal, nomeadamente com a plataforma Invest Lisboa, que “está a ajudar a empresa a posicionar-se no mercado português. Claro que olhamos o mercado europeu como um todo, mas vemos com muito bons olhos a oportunidade de estarmos aqui em Portugal”.

 

Portugal, no entanto, não ofereceu as melhores condições metereológicas e estes dias de Web Summit em Lisboa foram bastante cinzentos. Ainda que sob um céu frequentemente nublado, chuva e ocorrência de ventos fortes - sobretudo no último dia e causando transtornos no acesso ao recinto durante cerca de uma hora - a Web Summit reuniu quase 70 mil pessoas este ano. Vários foram os temas recorrentes: educação, política, igualdade de género, liberdade de expressão, sustentabilidade ou segurança e protecção de dados. Big Data, AI, VR, AR, Fake News, Robots e outros anglicismos também não faltaram à discussão. Grandes empresas e nomes sonantes do mundo da tecnologia marcaram presença nos vários palcos do certame, entre os quais Sophie. Este robô, famoso mundialmente e estrela de anúncios bem como capa de várias revistas, veio acompanhado de um novo “amigo”: o robô Han. As expectativas eram altas, mas ambos os robôs acabaram por falar pouco quando foram entrevistados pelo seu criador no palco principal. Consta que houve algumas falhas no acesso à internet.

 

Já Marcelo Rebelo de Sousa, que fez o discurso de encerramento da Web Summit na Quinta-feira, falou sem problemas de articulação em inglês e foi o último a pisar o grande palco principal. Momentos antes, tinha acontecido outro dos pontos altos do evento: o anúncio do vencedor do concurso das startups. O prémio (não monetário) foi para Wayve, uma empresa do Reino Unido que desenvolve um software com inteligência artificial para aplicar em carros autónomos.

 

“Vamos usar a revolução digital para o diálogo e para a paz”, disse o Presidente da República. De forma descontraída e em modo sala de aula, apelou à utilização da tecnologia para a criação de um mundo melhor. Defendeu ser necessário lutar pela liberdade, fomentar o multilateralismo e aproximar as pessoas e incentivou os participantes a levarem esta mensagem e a espalhá-la pelo resto do mundo. A plateia aplaudiu de pé e assim ficámos todos a aguardar pela edição de 2019.


 

Por Rita Guerreiro - parceria Berlinda.org e Portugal Post

Web Summit Lisboa: Unicórnios, robôs e outras histórias em torno da tecnologia

Rita Guerreiro

Licenciada em Audiovisual e Multimedia pela ESCS – Escola Superior de Comunicação Social (Lisboa), chegou a Berlim em 2010. Depois de ter participado em vários projectos de voluntariado e iniciado o Shortcutz Berlim, juntou-se à nova equipa Berlinda em 2016 e é desde então editora do magazine, para o qual contribui com vários artigos e entrevistas. 

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