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Emigração, Exílio e Ditadura: O Testemunho de Vasco Esteves

Foto: Esquerda - Vasco Esteves segurando um DVD sobre “Os Contributos para a História da AEIST no Movimento Estudantil”. Direita - Vários exemplares do jornal A Batalha. Vasco Esteves tem uma cópia de todos os números editados. © Berlinda.org

Nasceu em 1947 em Lisboa. Aos 22 anos  era dirigente do Instituto Superior Técnico em Lisboa. Estávamos no ano de 1969, ano da chegada do homem à lua e do Woodstock. Estávamos quase a meio da guerra fria e, por França, ainda se fervilhava com o Maio de 68. Em Portugal, continuava-se com a Guerra Colonial, Marcello Caetano era há cerca de um ano Presidente do Concelho do Estado Novo, e as  ideias do Maio de 68, que em Portugal eram ainda mais revolucionárias, chegavam e eram apreciadas e assumidas pelos estudantes. Tendo Coimbra e a sua Universidade como epicentro, rapidamente os movimentos, as revoltas e as greves estudantis se espalharam pelas Universidades Portuguesas, levando à chamada Crise Académica de 69. E foi assim que, há mais de quarenta anos, se desencadearam uma série de eventos que fizeram com que Vasco Esteves fugisse de Portugal e se exilasse na Alemanha.

BERLINDA: O Vasco veio para a Alemanha no ano de 1969. Porque tomou essa decisão de sair?

VASCO ESTEVES: Saí de Portugal por razões políticas. Eu não queria sair de Portugal, não gostava, mas fui obrigado a isso. Eu estava no Movimento Estudantil, era dirigente da Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico em Lisboa (AE-IST) desde 1968. Na altura, tínhamos reivindicações que, na perspectiva de hoje, eram ridículas, puramente sindicais, simples e que não causariam distúrbio nenhum nem mesmo em Portugal. A nossa principal reivindicação era um subsídio para a cantina universitária, pois muitas cantinas das outras Universidades eram estatais e portanto subsidiadas pelo Estado, menos a nossa, que era privada. Reivindicámos esse subsídio por escrito, através do jornal interno feito pela Associação, que ainda hoje existe, “O binómio”. Depois passámos para uma forma de luta que hoje também não causaria mal a ninguém, mas que pôs o nosso director da Escola e o Ministério da Educação em pânico. Fizemos uma ocupação “selvagem” do Pavilhão Central do IST. Anunciámos o tal piquenique e, no dia do evento, fecharam-nos o Pavilhão Central, para impedir que entrássemos. Éramos mais de 200 estudantes e conseguimos contornar a situação entrando por uma janela e abrindo a porta principal – e esta foi a acção mais provocante que fizemos. A PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado, portanto a polícia secreta dos fascistas), passadas umas semanas, já no princípio de Dezembro de 1968, entrou de noite no nosso Instituto e encerrou-o compulsivamente durante semanas, e nós, dirigentes da AEIST, fomos destituídos dos nossos cargos e apanhámos um processo disciplinar com cerca de 30 e tal pontos, com acusações ridículas: a ocupação do Pavilhão Central, ou por exemplo o termos convidado o Zeca Afonso, que na altura estava proibido de cantar… tudo coisas deste género, que não justificavam ter ali entrado a polícia, ocupado as instalações, fechado a escola, destituído a direcção da AEIST, colocando-lhes um processo disciplinar, etc.

 

B: Quais seriam as consequências desse processo disciplinar?

VE: Iria desencadear uma série de coisas que eram ainda mais graves que o processo disciplinar em si. Com certeza que nós, depois de concluído o processo, seríamos expulsos da Universidade, teríamos que interromper os nossos estudos, como aconteceu com muitos estudantes em Coimbra, numa escala muito maior, em 1969. Mas, pior do que ser expulso, estando na rua e sendo rapazes, teríamos que ir para a tropa. Porque o estudo era uma das principais razões porque a entrada na tropa poderia ser adiada. E, pior ainda, estando na tropa, iam-nos enviar para a Guerra Colonial. Isso era o pior de tudo. Por duas razões: primeiro porque nós éramos contra essa guerra; nós achávamos que os “pretos”, os negros das colónias portuguesas em África, tinham razão em lutar contra nós; nós também lutávamos em Portugal por nos autodeterminarmos, por sermos livres, por isso compreendíamos a luta dos outros, eles lutavam pela mesma causa, contra o mesmo regime que nós, uns por dentro outros por fora, mas era a mesma luta. De maneira que, estar a ir para a guerra, lutarmos pelo lado errado, isso era o pior de tudo: e se calhar, na pior das hipóteses, morrer pela causa errada, contra as nossas próprias convicções! E, na altura, sabia-se que os homens da oposição que iam para a tropa, eram enviados para as frentes de combate mais perigosas, para serem eles a morrer primeiro…

B: Foi aí que decidiu que devia fugir?

VE: Sim, o meu grupo, da malta que estava na direcção da AEIST e que fomos suspensos, decidimos fugir. Havia um grupo de três pessoas, entre os oito da direcção, eu, o Luís Leitão e o Jorge Veludo, que assentámos que íamos fugir juntos. Ora, naquela altura, fugir significava ir para a França! A França era muito tolerante, recebia muitos portugueses, mesmo sem papéis, e todos eram legalizados. Meses antes tinha-se dado o Maio de 68, a França estava em ebulição, era liberal, aberta, e nós sentíamo-nos como fazendo parte desta luta Internacional. Defendíamos a mesma causa que os estudantes dos EUA contra a guerra no Vietname, que também era uma guerra colonial como as guerras de Portugal em África. A França também tinha tido a sua Argélia, tudo isto era muito recente ainda. E pronto, decidimos fugir.

B: Mas o Vasco acabou por vir para a Alemanha. O que o fez mudar de rota?

VE: Eu e os meus colegas tivemos a sorte de, nessa altura, receber uma bolsa de estudos para a Alemanha, da Fundação Friedrich-Ebert, uma Fundação Social-Democrata. O Willy Brandt ofereceu ao Mário Soares, da Acção Socialista Portuguesa, pois ainda não existia Partido Socialista, cinco bolsas de estudos para estudantes portugueses perseguidos pelo fascismo. Através de um amigo comum, perguntaram ao Jorge Veludo  se nós queríamos essas bolsas. Foi uma decisão um bocado dura para mim na altura, porque eu não gostava nada de vir para a Alemanha, não falava alemão. Mas nestas condições, eu tinha a garantia de poder continuar e acabar os meus estudos  e, assim, viemos os três. A esses três, juntaram-se mais outros três jovens portugueses perseguidos, viemos no total seis portugueses com um passaporte de turista. Naquela altura era difícil de arranjar um passaporte na nossa situação. Não te davam um passaporte enquanto não tivesses cumprido o Serviço Militar, para evitar que fugisses. Chegados à Alemanha, fomos cada um para seu lado fazer um curso de alemão, em cidades diferentes, o meu no Goethe Institutem Prien am Chiemsee, um sítio idílico na Baviera. Depois dos seis meses do curso fomos todos para Estuguarda estudar.

B: Em Estugarda começou a desenvolver vários trabalhos sociais com os portugueses. Como surgiu essa necessidade?

VE: Quando chegámos a Estugarda, como ainda falávamos pouco alemão começámos a ligar-nos muito a portugueses. Embora alguns já estivessem lá há uns anos, verificámos que eles falavam mal o alemão, ou quase nada. Havia muitos analfabetos, os trabalhadores não estavam sindicalizados, não estavam informados do que se passava em Portugal, porque a imprensa estava amordaçada. Havia um grande jornal para portugueses aqui na Alemanha que era o “Diálogo do Emigrante”, mas esse jornal estava associado às Missões Católicas Portuguesas na Alemanha, que na época eram geralmente aliadas das autoridades fascistas portuguesas. Dentro da redacção deste jornal havia alguma malta progressista, mas eles não podiam escrever livremente. De vez em quando davam umas “facadinhas”, mas era tudo muito, muito controlado. Isto para nós não chegava como fonte de informação: eles não falavam dos escândalos que havia em Portugal, por exemplo do massacre que os portugueses fizeram em Moçambique, dos ballet-rose, eles não falavam das pessoas da oposição que eram mortas, da evolução da guerra, do assassinato do Amílcar Cabral… Portanto, no início, o nosso trabalho associativo tinha que lutar contra a Missão Católica Portuguesa. Para tal, decidimos criar uma Associação Democrática de trabalhadores portugueses em Estugarda. A primeira verdadeiramente democrática, uma associação legal e registada nos tribunais alemães, com eleições e de utilidade pública. Nós já não estávamos em Portugal, podíamos agora fazer eleições livres e aqui começar a aprender o que era a Democracia.

 

B: Foi aí que começou então o grande trabalho social. O que faziam nessa associação?

VE: Fizemos sobretudo três coisas: primeiro, começámos com aulas de alemão para portugueses; depois fundámos essa Associação Operária Primeiro de Maio em Estugarda; e fundámos também um jornal em Língua Portuguesa, chamado “A Batalha”. Foi distribuído apenas durante um ano e meio, mas era distribuído por toda a Alemanha, e tinha dois objectivos principais: informar sobre os direitos dos trabalhadores portugueses na Alemanha, os direitos democráticos, até mesmo a igualdade entre mulheres e homens, coisas simples, mas que na altura eram necessárias como base para o que viria a seguir; e informar sobre o que se passava em Portugal e nas Colónias, porque era importante os portugueses serem também informados que Portugal não era democrático, que era preciso Portugal mudar, que os nossos irmãos africanos também tinham direito a ser autónomos, a ter a sua liberdade, tal como nós. Esse trabalho foi de tal importância que, em 2013, foi escrita uma tese de mestrado pela historiadora Svenja Länder, precisamente sobre o nosso grupo da Batalha. Também são referidas nessa tese outras coisas, como a Associação que fundámos e as aulas de alemão, embora esteja tudo mais concentrado à volta do jornal, abrangendo o período de 1969 a 1974.

B: Quer dizer que este trabalho associativo foi feito até 1974. O que aconteceu de seguida?

VE: Este trabalho era tão intenso e a tempo inteiro, que aos poucos começámos a passar as pastas da Associação e do Jornal para os trabalhadores. No início de 74 eu fui viver para Frankfurt am Main, com a intenção de finalmente terminar os meus estudos. Poucas semanas depois acontece o 25 de Abril, e eu não podia ficar ali de braços cruzados. Optei por fica na Alemanha para concluir finalmente os meus estudos, e por lutar na Alemanha pela revolução portuguesa. Associei-me a grupos de estudantes alemães, que publicavam informações sobre o que se passava em Portugal. Participei em dois jornais: um era o “Portugal Nachrichten” que publicava só informações sobre Portugal, onde eu fazia muitas traduções e compilações, mas também escrevia os meus próprios artigos. Quando este jornal terminou, participei numa agência alternativa de informação, na “ID”. Ela informava sobre coisas que não vinham na imprensa normal, sobre as lutas políticas na Itália, em Portugal, no Chile… E eu também fazia acompanhamento a portugueses que vinham à Alemanha angariar fundos para a Revolução do Cravos, desde os soldados do MFA a cantores como o Zeca Afonso. Acabei por deixar os meus estudos de parte uma vez mais, e só os concluí em 1979.

 

B: Entretanto, já tinham passado alguns anos da sua “fuga”. Sei que teve algumas peripécias quanto ao seu passaporte e a legalidade da sua situação por cá. Pode contar-nos um pouco sobre isso?

VE: O meu passaporte caducou passado um ano, provavelmente nem tanto, de eu estar cá na Alemanha. Eu vim com a convicção de que a Fundação que me dava a Bolsa me iria apoiar; era uma fundação social-democrata, que me tinha dado a bolsa por razões políticas, de maneira que com certeza me iria dar apoio, eu não iria ficar aqui desamparado. Mas enganei-me! Eu também podia pedir asilo político, mas não tinha nenhuma hipótese de êxito. Porquê? Porque Portugal e a Alemanha estavam na NATO. Portugal, apesar de ser fascista na altura, era um aliado. Isso tornou-se um problema para mim; não podia pedir asilo político e também não conseguia a renovação do meu passaporte; se o quisesse renovar, tinha que ir a Portugal, e aí apanhavam-me. Uma vez consegui um passaporte por três meses, porque disse no consulado que tinha perdido o meu. Mas eram sempre situações temporárias, e eu não podia continuar assim. Estava mesmo à rasca, até pensei em fugir para a França, ilegalmente. Acabei por resolver o meu problema à portuguesa: tive a sorte de ter encontrado um “Aristides de Sousa Mendes” português na Alemanha, um herói que me caiu do céu! Um dia apareceu-nos uma pessoa de um Consulado Português a dizer que, se precisássemos de ajuda legal, ele tinha a solução para nós.  Ele ajudou-me a mim e a muitas outras pessoas, ilegalmente. Ora eu, com a ajuda dele, falsifiquei o meu passaporte, mas ele é que orientou tudo: mudei, manipulei a data de validade do documento. Depois, fui ao consulado onde ele trabalhava, num dia em que ele estava ao balcão, ele fez de conta de que não se apercebeu que o meu passaporte estava falsificado e deu-me um passaporte novo, com base no falsificado. Neste processo, também foi preciso falsificar um documento militar, porque na altura não se conseguia o passaporte legal sem se apresentar a situação militar resolvida. Houve ali portanto várias falsificações! Mas foi uma pessoa de dentro dum consulado português que me ajudou a sair disto. Foi um português que me safou, e os alemães nem perguntaram como é que eu tinha resolvido a minha situação. E por ali ficámos. Mais tarde, casei com uma alemã, concluí os meus estudos em Matemáticas e fui trabalhar em Informática. Fiz a minha vida profissional toda na Alemanha, e fui também tradutor e intérprete oficial, assim como professor de Português, de Matemática, informática e história, dei vários cursos para Portugueses adultos que queriam completar o 5º ou o 7º ano do Liceu.

B: Entre 2005 e 2009 viveu novamente em Portugal, e depois regressou para a Alemanha, desta vez para Berlim, onde reside atualmente. A que se deveu essa alteração?

VE: Eu sempre desejei voltar a Portugal, e várias vezes tentei fazê-lo, mas sempre sem sucesso, pois não encontrava emprego e voltava de novo para a Alemanha. Quando terminei a minha vida profissional em 2005, com 57 anos, e como tinha uma boa reforma, decidi voltar definitivamente para Portugal. Além de terminar a vida profissional e de mudar de país, passei ainda pelo divórcio da minha primeira mulher. Quando cheguei a Portugal, comecei a fazer teatro, a minha “profissão” actual. Entretanto, conheci lá a minha actual mulher, de novo uma alemã. E por isso tive que voltar outra vez para Alemanha, desta vez para Berlim, por amor, porque queríamos ficar juntos e porque a minha mulher ainda trabalha. Preferia ficar em Portugal, mas tive que escolher e optei pela felicidade de estar ao lado dela.

O trabalho associativo de Vasco nunca mais parou. Depois da sua vinda para Berlim em 2009, juntou-se ao programa da Berlinda – Acção Social, que existe desde 2012. Neste momento Vasco Esteves trabalha como actor de teatro, tendo actualmente em cena uma peça em que representa o papel principal, até ao dia 1 de junho.

 

Nota: Na “Noite da Berlinda” de Abril, foi exibido o vídeo “Emigração, Exílio e Ditadura: o Testemunho de Vasco Esteves”, que deu posteriormente origem a esta entrevista.

Entrevista realizada por Joana Violante

 

  

 
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Joana Violante

Nasceu em Lisboa em 1987. Licenciada em Ciências da Comunicação e Mestre em Jornalismo de Rádio pela Universidade da Beira Interior.

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