MAGAZINE

"To Berlin with love"

Berlim vista por um turista nos tempos do muro

Quando, por amor, vim viver para Berlim em 2009, já conhecia a cidade de várias visitas ao longo dos anos. Vim pela primeira vez nos anos 70 a Berlim ocidental participar – como estudante – num seminário subordinado ao tema “Alemanha indivisível”: na altura, pensei que os alemães estavam loucos com aquela sua mania de reunificarem a Alemanha à força … enfim, nunca imaginei que a antiga RDA/DDR se viesse mais tarde a desmoronar tão facilmente, como um fruto podre que, de repente, cai no chão!

Voltei Berlim ocidental várias vezes antes da queda do muro e, sempre que o fazia, estava incluída também aquela visita “obrigatória” a Berlim oriental - como turista curioso por ver e sentir como viviam os alemães “comunistas”… Lembro-me de ter de trocar 20 Marcos ocidentais para poder visitar Berlim oriental por um dia. Havia filas de espera em frente de algumas lojas, e era difícil arranjar um lugar em certos restaurantes… Mas todas as coisas eram lá mais baratas. E, não sei se seria exagero da minha parte ou não, quando passava o muro dum lado para o outro, quase tinha mais medo dos guardas fronteiriços alemães orientais do que dos Pides nas nossas fronteiras, por causa do seu aspeto particularmente sinistro e aparentemente incorruptível, como num filme de espiões…

Reconstrução e Reunificação alemãs: Um enorme esforço e a contribuição decisiva dos estrangeiros

Depois da reunificação alemã as antigas fronteiras estavam escancaradamente abertas como que por milagre, e vir ao leste da Alemanha era como fazer uma “viagem no tempo”: era uma viagem a um outro país e dum outro tempo, uma espécie de ida a um “museu ao ar livre” onde a vida das pessoas, lenta e quase desapercebidamente, se ia assemelhando cada vez mais à vida do outro lado, do “nosso” lado… A mudança que mais rapidamente saltava aos nossos olhos era a do parque automóvel: em poucos anos, a maioria dos antigos carros em circulação na Alemanha de leste, quase todos eles produzidos no leste da Europa, foram substituídos por carros da Europa ocidental ou japoneses comprados a crédito - aliás um fenómeno que é comparável ao que aconteceu em Portugal depois de 1986, data em que entrámos para o Mercado Comum europeu…

A maioria dos portugueses que nos últimos anos emigrou para a Alemanha pouco sabe da história dos imigrantes aqui. Muitos pensam que devemos estar agradecidos aos alemães por nos terem dado trabalho. Isso é verdade, sim, mas os alemães também deverão estar agradecidos a nós por trabalharmos para eles: a maioria dos estrangeiros que, desde os anos 50, vieram para a Alemanha trabalhar, mesmo ainda antes da entrada dos países deles no Mercado Comum, vieram porque os alemães os chamaram para reconstruir o país que eles próprios tinham acabado de destruir durante a segunda guerra mundial - e para cuja reconstrução não tinham nem homens nem força-de-trabalho suficientes! A esses estrangeiros chamaram os alemães “Gastarbeiter” (“trabalhadores convidados”), um eufemismo que mal escondia o desejo de que em breve voltassem todos para os seus países de origem. E, não por acaso, esses “Gastarbeiter” provinham quase todos de países que não tinham combatido a Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial…

Nos últimos tempos, desde a reunificação alemã, a parte ocidental da Alemanha investe cerca de 100 milhares de milhões de Euros anualmente para “sanear” a parte oriental da mesma – uma quantia inimaginável e a fundo perdido! E todos nós, até os tais “Gastarbeiter”, ajudamos a pagar isso: sobretudo através do chamado “Solidaritätsbeitrag“ ou „Soli“, como já devem ter notado na vossa folha de salário…


Portanto, os estrangeiros sempre ajudaram os alemães, primeiro a reconstruir a Alemanha destruída pela guerra e, agora, a reconstruir a Alemanha de Leste que encontrava economicamente de rastos. Neste contexto, muito menos se compreende porque os alemães nos ajudaram tão pouco quando, há cerca de 10 anos atrás, alguns países precisaram deles (caso por exemplo da Grécia ou de Portugal, quando entraram em turbulências financeiras): os alemães não nos ofereceram nada para ultrapassarmos essa crise, pelo contrário, exigiram juros pelos seus empréstimos e impuseram-nos condições em parte humilhantes!
 

Em Berlim ocidental, ainda durante o tempo da chamada “guerra fria”, os turcos foram também chamados para “aguentarem” a vida da cidade numa época em que poucos alemães queriam vir para aqui por se encontrar muito isolada, e portanto a sua sobrevivência económica e política - em suma, o seu futuro - se encontrar seriamente em perigo… Os turcos ajudaram e, hoje em dia, constituem o grupo de estrangeiros mais numeroso nesta cidade.

Ainda hoje, a Alemanha precisaria de uma quota líquida de imigração de cerca de 500.000 estrangeiros por ano para poder manter o seu nível de vida, para compensar o decréscimo e poder garantir o pagamento das reformas à sua população! Uma quota que nunca foi atingida, fora nos anos a seguir à queda do muro e nos de maior afluência de refugiados da Síria (em 2015-2016). Portanto, amigos portugueses (e não só): não tenham complexos de inferioridade, até pelo contrário, pois estamos a fazer parte dum grande programa de ajuda à economia alemã, duma espécie de “transfusão de sangue” … com a diferença de que esse sangue é fornecido ao “paciente” praticamente à borla: os estrangeiros que vêm para cá trabalhar são, em regra, pessoas já crescidas e formadas, às quais só faltam certas medidas de adaptação como aprender o alemão ou frequentar algum curso de formação profissional…!

Berlim comparada com a Alemanha ocidental agora. “To Berlin with love”…

Voltando a Berlim. Quando vim para cá de vez, em 2009, já conhecia bem uma boa parte da Alemanha, pois vivera antes na Baviera, em Estugarda (Baden-Vurtemberga) e em Frankfurt/Main (Hessen).

Apesar de conhecer a Alemanha já relativamente bem, sobretudo a parte ocidental, quando mudei para Berlim fiquei surpreendido! Esperava encontrar uma cidade prussiana, de tradição militar, rígida e antiquada… Só o adjetivo “antiquada” se confirmou mais ou menos, resultado do isolamento em que a cidade se tinha encontrado desde a segunda-guerra mundial: há aqui ainda muitos edifícios e espaços em ruínas ou a precisarem de ser saneados; e a cidade ainda não tem um aeroporto à sua altura, e até se revela definitivamente incapaz de construir um novo em tempo útil… Quanto ao resto, a cidade até é entretanto bastante internacional, tolerante e aberta, e sobretudo verdadeiramente “sexy”! A minha primeira grande surpresa foi constatar que os berlinenses andam mais devagar nas ruas, olham as pessoas nos olhos e tocam-se mais fisicamente! Sim, na Alemanha ocidental (fora talvez na Baviera) não é assim: as pessoas andam mais a correr e tentam “ignorar” a presença dos outros em público (eles dizem que é para respeitar a sua “privacidade”!). Estas caraterísticas dos berlinenses têm a ver, na minha opinião, com a ainda forte influência da antiga RDA/DDR, aonde as pessoas tinham mais tempo umas para as outras, onde a vida era mais lenta e menos consumista e performativa, e onde os trabalhadores e empregados cumprimentavam todas as manhãs os seus colegas com um “bacalhau” quando chegavam ao emprego… Nada mau, não é verdade? Será por isso que orgulhosamente acabei por casar com uma alemã de leste, e por causa dela ter vindo “dar à praia” a esta cidade?

Texto e Foto: Vasco Esteves

Vasco Esteves

Veio de Portugal para a Alemanha em 1969 como refugiado político.  Licenciado em Matemáticas, trabalhou 30 anos na informática na região de Frankfurt/Main. De 2005 a 2009 voltou a viver em Portugal, onde começou uma segunda carreira como ator de teatro. Mudança para Berlim em 2009. Atuou nos teatros Lisbon Players e O Grito (em Portugal), Volksbühne Michendorf,  Teatrum VII e Maxim Gorki. Dedica-se também a fazer leituras públicas de autores portugueses, em português e alemão, por vezes acompanhado por um músico.

Freunde von Berlinda e.V. , Heimstr. 3, 10965 Berlin - info@berlinda.org 

BERLINDA 2019 · All rights reserved