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Tiago Nacarato pela primeira vez na Alemanha no Psicotrópicos Festival - entrevista

02/03/2020

Foto: ©Teresa Pamplona.

Nascido e crescido no Porto, Tiago Nacarato é filho de pais brasileiros e a música está-lhe nas veias desde pequeno. Em 2017 agarrou uma oportunidade de peso e arrebatou os quatro júris da Prova Cega do The Voice Portugal, conquistando logo vários fãs após esta primeira aparição na televisão. O programa da RTP 1 revelou-se uma verdadeira rampa de lançamento para a carreira do músico de 29 anos, que entretanto já esteve em digressão com vários concertos esgotados em Portugal e Brasil, onde também se sente em casa, e recebeu a nomeação para os Globo de Ouro 2019 na categoria de Melhor Música com “A Dança”. Gilberto Gil, Paulinho Moska, Ana Bacalhau ou Salvador Sobral são alguns dos músicos com que já se cruzou na sua curta caminhada musical e lançou o primeiro trabalho, “Lugar Comum” em Outubro do ano passado. 

 

Apresenta-se pela primeira vez em Berlim dia 22 de Março por ocasião do Festival Psicotrópicos (20 a 22 de Março). O festival, na sua 3a edição, é uma edição da Bossa FM, fundada por Rodrigo da Matta. O que começou por ser uma rádio com programação brasileira de qualidade na Europa logo se transformou, com a colaboração da produtora Daniela Cantagalli, numa agência de eventos especializada no intercâmbio de artistas brasileiros pela Europa.

 

O Psicotrópicos e é um evento anual, interdisciplinar e plural. Aborda temas da atualidade relevantes e urgentes relacionados com a cultura e a sociedade brasileira e combina artistas vindos directamente do Brasil com artistas brasileiros residentes em Berlim para que possam mostrar o seu trabalho artístico entre diferentes disciplinas. 

 

Este ano a novidade é a participação do luso-brasileiro Tiago Nacarato, “uma peça fundamental, pois representa a integração do Brasil com Portugal”, disse ao PT Post e à Berlinda o director do festival, Rodrigo da Matta. “O Tiago Nacarato tem uma história familiar com raízes brasileiras e desenvolve um trabalho que é uma mistura de ambos os países - o lado popular português com o lado popular brasileiro. A participação dele no Psicotrópicos é a concretização de uma visão que acredita que os países de língua portuguesa têm que estar mais unidos. Não só Portugal e Brasil, mas também países de língua portuguesa em África, como Cabo-Verde, Angola ou Moçambique”, arrematou. 



 

Podes contar-nos um pouco da tua infância entre Portugal, mais concretamente o Porto, e o Brasil? Já sabemos que ouvias muita música brasileira, que viajavas bastante para visitar a família ao Brasil.  Que mais recordas desses tempos? 

Nasci no Porto e passei a minha infância no norte do país, entre a cidade que me viu nascer e Miranda do Douro (terra do meu avô). O meu contacto com o Brasil surge em primeiro lugar com o sotaque dos meus pais e toda a cultura que eles traziam de lá, desde a música à culinária. Desde sempre que ouço música brasileira em casa, pois meu pai é músico e teve uma influência gigante nessa minha empatia com o universo musical brasileiro. A primeira vez que saí de Portugal rumo ao Brasil foi aos 16 anos para ser padrinho de casamento do meu irmão Raphael Nacarato e foi nessa ocasião que tive a possibilidade de conhecer pessoalmente grande parte da minha família que pelo que consta ainda lá mora. Assim, neste contacto direto com os meus pais e as cartas para a família de lá, acontece a minha interação com o Brasil.

 

Lembras-te de algum preconceito (para com os teus pais, por serem brasileiros, ou para contigo, por seres filho de emigrantes brasileiros)?

Não, nunca senti nenhum preconceito diretamente.

 

Achas que ainda existe muito esse preconceito tonto com os brasileiros em Portugal ou achas que as novas gerações já colocaram isso de lado?

Infelizmente acho que o preconceito de uma forma geral ainda está muito presente na nossa sociedade. Sinto que a Democracia que dizem que vivemos é falsa, e que cada vez mais se rejeita a ideia de uma pensamento individual. Aquilo que já não deveria ser estranho, ainda é alvo de julgamento e muitas vezes linchamento em praça pública.  

 

Estavas longe de pensar que algum dia irias esgotar salas de concertos, ou tocar na Avenida dos Aliados na noite da Passagem de Ano?

Eu lembro de estar a tocar num bar para duas pessoas e uma delas ser a minha mãe e passado pouco tempo estar a tocar para duzentas mil pessoas no coração da minha cidade era realmente uma coisa que não me passava pela cabeça. 

 

E agora, a pergunta inevitável: a participação no The Voice Portugal foi um grande empurrão para a tua carreira. Olhando para trás, quais consideras terem sido os frutos colhidos? Houve alguma parte menos positiva?  

Tudo foi positivo na minha participação no The Voice, desde a grande reviravolta na minha vida que me permitiu tocar no Circo Voador completamente cheio, às fotos na rua. Aconselho todos os músicos de qualquer estilo a aproveitarem este tipo de programas para mostrarem aquilo que têm a mostrar. A televisão ainda é o maior palco e não deve haver preconceito em pisá-lo.

 

A tua inclinação para a música, porém, não é de agora. Algumas das tuas grandes inspirações são nomes brasileiros como Caetano Veloso ou Vinicius de Moraes. E música portuguesa? Que músicos são exemplos para ti? 

Temos uma nova geração de Ouro na música Portuguesa e outros que não tão novos mas que são muito importantes e que vou mencionar também. Então aqui vai: Miguel Araújo, António Zambujo, Salvador Sobral, Janeiro, Cordel, Barbara Tinoco, Capitão Fausto, Fausto, Ana Bacalhau, Bruno Prenadas, Peixe, Ornatos Violeta, Maro e por aí vai.

 

Puxando aqui a conversa ao país dos teus país: estiveste já por duas vezes no Brasil, em 2018 e em 2019, certo? Sabemos que foste muito bem recebido, tens planos para voltar em breve? 

Fui muito bem recebido e vou voltar este ano.

 

O teu sucesso ainda é recente, mas atravessou o Atlântico e foi de Portugal ao Brasil com relativa rapidez. Como chegas agora a Berlim e o que é que o público pode esperar do teu concerto? 

Chego a Berlim com o entusiasmo de uma primeira vez. Sei pouco sobre a cidade. Tenho uma música e meia feitas para esse show. O restante do repertório vai variar entre músicas do disco "Lugar Comum" e outras canções que gosto de tocar.

Entrevista por Rita Guerreiro, parceria Berlinda e Psicotrópicos Festival. 

Rita Guerreiro

Licenciada em Audiovisual e Multimedia pela ESCS – Escola Superior de Comunicação Social (Lisboa), chegou a Berlim em 2010. Depois de ter participado em vários projectos de voluntariado e iniciado o Shortcutz Berlim, juntou-se à nova equipa Berlinda em 2016 e é desde então editora do magazine, para o qual contribui com vários artigos e entrevistas. 

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