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Entrevista com Teolinda Gersão

Foto: Teolinda Gersão © Promo - www.teolindagersao.com

Teolinda Gersão foi considerada pelo Jornal de Letras como “uma das vozes mais luminosas da literatura portuguesa contemporânea”. Nascida em Coimbra, estudou Germanística e Anglística nas Universidades de Coimbra, Tübingen e Berlim. Foi Leitora de Português na Universidade Técnica de Berlim e, mais tarde, professora catedrática da Universidade Nova de Lisboa.

 

Jubilou-se aos 55 anos para se poder dedicar exclusivamente à literatura. Tem publicados vários livros de contos, novelas e romances. Entre outros prémios literários, foi galardoada com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores por A Casa da Cabeça de Cavalo,  (1995), os Prémios de Ficção do Pen Clube pelos livros O Silêncio (1981) e O Cavalo de Sol (1989) e o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco por Histórias de Ver e Andar (2002). O seu último romance, A Cidade de Ulisses, saiu em Março de 2011 pela Editora Sextante. Teolinda Gersão é uma escritora de olhar atento, que gosta de sair à procura de coisas, pessoas e histórias pelas ruas das cidades. Tem o hábito de tomar notas em cadernos, numa espécie de diário literário onde regista o que observa do mundo que a rodeia. A sua escrita é cuidada, elegante, inteligente. Em entrevista à Berlinda, explica a sua relação com a cidade onde viveu e trabalhou um ano.

 

BERLINDA: Como foi parar a Berlim?

TEOLINDA GERSÃO: Licenciei-me em Germanística em Portugal e ganhei uma bolsa do DAAD para fazer estudos de pós-graduação na Alemanha. Estive dois semestres na universidade de Tübingen antes de ir para Berlim, onde estudei na Universidade Livre, e, depois da bolsa, dei aulas de português e de literatura portuguesa na Universidade Técnica, como leitora. Era um leitorado alemão, que não dependia de nenhuma instituição portuguesa.

B: Quando pensa em Berlim, em que é que pensa?

TG: Numa grande cidade cosmopolita, com uma vida cultural espantosa.

 

B: No seu conto Encontro no S-Bahn faz uma descrição algo negativa de Berlim (no lado ocidental, o medo dos estrangeiros e uma vida em geral aborrecida e regrada, no lado oriental, opressão e pobreza). Entretanto o muro caiu e Berlim mudou muito. Regressou a Berlim depois disso? Continua a ter essa imagem?

TG: Nesse conto vejo também o outro lado, o lado de sombra: Na altura era uma cidade dividida ao meio, havia o lado ocidental e o oriental, separados por um muro. No lado oriental havia a opressão e a pobreza económica e cultural característica das ditaduras – e eu própria vinha do Portugal salazarista, e sabia por experiência como as ditaduras são asfixiantes e dolorosas. Mas o lado ocidental (como de um modo geral o resto da Alemanha) tinha outros espinhos, era uma sociedade egocêntrica e fechada, muito mais “menschenschüchtern” do que “menschenfreundlich”. Lembro-me de, anos mais tarde, ter notícias das dificuldades de integração das duas Alemanhas, e de a imprensa alemã referir como exemplo positivo o modo como Portugal, um país pobre e pequeno, conseguiu integrar mais de meio milhão de “retornados” das ex-colónias logo depois de 74. Sim, voltei a Berlim muito tempo depois da queda do muro, e tornei a viajar pela Alemanha. É uma cidade e um país onde gosto sempre de voltar.

 

B: Fez amizades em Berlim? Se sim, foi difícil fazê-las?

TG: Eu era muito privilegiada, frequentava um meio intelectual, de universitários e artistas. Aí é claro que tudo era diferente. Fiz facilmente muitas amizades, que duraram muitos anos, algumas permanecem até hoje, apesar da distância geográfica. Os alemães podem ser os melhores amigos do mundo.

 

B: Teve alguma experiência em Berlim que a tivesse marcado?

TG: Tive experiências excelentes. Conheci por exemplo Walter Höllerer, que, além de poeta e romancista, era um extraordinário divulgador cultural, um dos fundadores do Grupo 47. Recordo-me das sessões no Literarisches Colloquium, à beira do Wannsee e dos muitos escritores que aí encontrei, como Günther Grass, ou o francês Michel Butor.

 

B: Quando viveu em Berlim, tinha algum bairro, rua ou local onde gostasse particularmente de estar? Porquê?

TG: Lembro-me sobretudo dos lugares calmos à beira do rio e dos lagos. E do centro da cidade, com o seu movimento trepidante.

 

B: Do que gostou mais, e menos, da cidade? Porquê?

TG: Gostei sobretudo da vida cultural e artística. Lembro-me de exposições, de museus e galerias de arte, de filmes como por exemplo Das Messer im Wasser de Polanski, de uma encenação espantosa de As you like it, (“Was ihr wollt” ) de Shakespeare, de Karajan na Philarmonie. E lembro-me de detestar os domingos. A partir das cinco ou seis da tarde não havia praticamente ninguém nas ruas, parecia uma cidade fantasma.

 

B: Voltaria a passar um ano em Berlim, se tivesse oportunidade?

TG: Neste momento não passaria um ano em nenhum lugar. Em vez de estimular a escrita, seria desestabilizador. Tenho tantos projectos que quero realizar que só desejo poder ficar tranquilamente no meu escritório. Sem interrupções…

 

B: Em A Cidade de Ulisses conta inúmeras histórias sobre Lisboa. Interessam-lhe histórias sobre Berlim, ou sobre outras cidades? Imagina-se a escrever com esse grau de intimidade sobre Berlim?

TG: Com o mesmo grau de intimidade, escrevi sobre Lourenço Marques, hoje Maputo. O romance A Árvore das Palavras, de que existe uma tradução inglesa, The Word Tree. E sobre a minha cidade, Lisboa. Mas tenho muitas notas sobre Berlim, e acredito que tornarei a escrever sobre a cidade, de um modo muito mais íntimo do que no Encontro no S-Bahn. A cidade como um lugar de vidas e pessoas.

 

B: Ainda em A Cidade de Ulisses, uma das personagens principais vai para Berlim e Nova Iorque realizar o seu percurso profissional, outra para a Suécia. Berlim é um bom local para os portugueses se realizarem?

TG: Berlim é uma cidade que oferece muita coisa, sobretudo a nível científico e cultural, e pode tornar-se para um artista uma fonte de inspiração e de energia. Mas no fundo, embora o sítio que se escolhe possa potencializar experiências, encontros, aprendizagens, a realização não depende sempre sobretudo de nós mesmos, mais do que de uma cidade ou de um lugar ?

 

Entrevista realizada por Inês Thomas Almeida.

 

 

  

 
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Ines Thomas Almeida

Inês Thomas Almeida nasceu na República Dominicana e cresceu em Portugal como bilingue e com dupla nacionalidade. Mudou-se para a Alemanha para estudar Canto na Escola Superior de Música e de Teatro de Rostock. Alguns anos depois de se instalar em Berlim, criou o magazine online Berlinda, e, mais tarde, o Festival Berlinda.

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