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Tantão - a cena musical underground do Rio de Janeiro no frio de Berlim

Foto: Performance Tantão em Berlim © Mariana Lima

Tantão é um artista visual, músico e poeta de São Gonçalo, que fica no lado oposto da baía do Rio de Janeiro. Estudou violino clássico na sua juventude, mas acabou por seguir as pisadas do seu pai e avô e trabalhar num estaleiro naval. A experiência adquirida na indústria naval influencia fortemente a sua arte plástica, que nasce a partir de materiais encontrados nas ruas ou doados por amigos.

A trajetória artística de Tantão desenvolveu-se paralelamente com a participação na banda pós-punk Black Future, onde tocava teclado e sintetizador. A banda gravou um LP em 1988, que na altura foi considerado  demasiado experimental e levou ao desmantelamento do grupo um ano mais tarde. Hoje em dia, o disco é considerado uma obra de culto e vale uma fortuna, sendo que apenas existem 5000 cópias do mesmo. O seu single mais famoso e reconhecido, “Eu sou o Rio”, foi novamente lançado em 2006 como parte integrante da compilação de músicas brasileiras pós-punk Sanguinho Novo, produzida pela editora berlinense Man Recordings. “Eu sou o Rio” foi ainda a inspiração por detrás do título do documentário a preto de branco de Gabraz Sanna e de Anne Santos, apresentado pela primeira vez ao público internacional no Kino Arsenal, no passado dia 24 de fevereiro, no âmbito da Berlinale. O filme procura não só ser um retrato de Tantão, mas também um retrato da cidade do Rio. Sendo um filme capturado por amigos, é uma tentativa de mostrar as paixões e as contradições do artista, ao convidar o espetador a entrar num espaço íntimo, delicado e, por vezes, desconfortável. Como parte da promoção do documentário e para celebrar a inauguração da sua exposição na galeria Premarts, em Kreuzberg, Tantão agraciou o público presente com uma performance em conjunto com o artista sonoro Jonas Ohlsson. Enquanto Ohlsson arranhava o ar com sons de noise industrial e synth, o homem do momento cuspia frases, por vezes quase ininteligíveis, para o microfone que segurava na mão direita, enquanto a esquerda se ocupava de uma cerveja e de um cigarro. Tantão encheu o espaço com a sua personalidade e presença de tal forma, que este pareceu tornar-se ainda mais sobrelotado, “abrindo um portal” que nos deu um vislumbre da cena musical e artística underground do Rio, onde se movimenta familiarmente e é considerado um ícone. Uma performance crua, punk e desordenada, tal como a maior parte do público previa e desejava.

A noite terminou com a atuação da artista e DJ Baba Eletrónica, que pôs toda a gente a dançar ao ritmo de hits de funk carioca, num clima de boa-disposição contrastante do frio que se fazia sentir em Berlim.

 

  

 
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Mariana Lima

Mariana é fascinada por línguas e expressões idiomáticas. Tradutora de profissão, tem um espírito de curiosidade aguçado. Por vezes sente-se culpada de não aproveitar melhor a oferta cultural da cidade. Chama casa a Berlim desde 2014.

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