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“Quero que as pessoas fechem os olhos e viagem comigo” - Entrevista Surma

Surma é Débora Umbelino, uma rapariga de 23 anos de Leiria. Escolheu dar-se a conhecer com um nome artístico, uma personagem criada por si, porque “Nunca gostei de dar o meu nome próprio para o caminho artístico que queria seguir! Fica sempre um pouco aquém e nem te dá aquela personalidade extra que queres criar”.

Já deu praticamente a volta ao mundo em concertos com o seu álbum de estreia, "Antwerpen", lançado a 13 de Outubro do ano passado.  Fascinada pela Islândia e a língua escandinavas, nos seus concertos mostra como domina teclas, samplers, guitarra eléctrica, cordas… A música de Surma é uma espécie de viagem pela electrónica, post-rock, jazz e noise numa língua por ela inventada, para que cada pessoa possa ter “a sua própria interpretação de cada música”.

A propósito da participação de Surma na Dice Conference + Festival no dia 2 de Novembro, a Berlinda esteve à conversa com a multifacetada jovem artista portuguesa que tem vindo a conquistar cada vez mais público um pouco por todo o mundo.

 

Começamos por Berlim; é a primeira vez que cá vens? Conheces a cidade?

Vai ser a minha terceira vez! Já fiz uma tour juntamente com uma banda Alemã (Frère) em que tocámos em Berlim, foi uma bela noite e a minha segunda vez foi em modo turista! Amo a cidade e toda a vibe que emana, as pessoas são incríveis e um modo de levar a vida muito próprio e único! A arquitectura, moda e a rotina das pessoas e toda a cena cultural que se passa em Berlim sempre me disseram muito, é uma cidade muito cultivada no que toca ao mundo das artes em geral. A arquitectura dos edifícios é incrível e cria a cidade muito eclética numa onda pós-moderna! O que me agrada bastante, já para não falar da vida nocturna de Berlim!

 

Estás entusiasmada com a tua participação na DICE Conference + Festival? Como é que chegou este convite e o que pode o público esperar do teu concerto?

Estou muito entusiasmada com a minha participação na DICE! Acho que vão ser dias extremamente agradáveis, conviver com pessoas de variadas áreas, de conhecer novos mundos e culturas e acima de tudo aprender com os melhores! O convite chegou por parte da Danielle [Kourtesis, curadora do festival], que me fez um convite para tocar em Nova Iorque num dos espaços e eventos mais incríveis em que toquei até hoje! Ficámos em contacto uma com a outra e até que um dia me manda uma mensagem a falar de todo o conceito da DICE e se estaria interessada em participar! Foi logo um SIM imediato da minha parte, fiquei mesmo muito feliz! O meu maior objectivo e o que tento passar num concerto meu é uma sensação de viagem em que quero que as pessoas fechem os olhos e viagem comigo durante aquela hora, que apaguem tudo na cabeça delas e que se concentrem apenas naquele momento…

 

Tens 23 anos e já viajaste pelo mundo em concertos em mais de 50 países. O que mais valorizas das experiências que viveste neste último ano e meio de estrada?

Costumo dizer que ando num sonho constante e quando as pessoas me perguntam e me dizem o número de países a que já fui fico com um sorriso enorme na minha cara assim que acabo de ler e acabo por cair na noção de tudo o que se tem passado! Tem sido tudo tão mas tão incrível que não tenho palavras para descrever o quão feliz isso me faz todos os dias! Só o simples facto de poder tocar fora de Portugal em Países tão incríveis com públicos tão espectaculares tem sido a melhor experiência de todo o MUNDO para mim! Já conheci pessoas tão magníficas, já toquei em espaços inigualáveis e com uma história

incontornável no Mundo da Música, já toquei com Músicos e em Países tão inigualáveis, já fiz amigos tão lindos na estrada! Não tenho palavras para descrever tudo aquilo que tem acontecido…tem sido tudo perfeito! Não quero que isto acabe…nunca!! Cresci imenso, não só como Música, mas também como pessoa neste ano e meio de estrada, é isso que a estrada é, ajuda-te a encontrares o teu próprio caminho e a encontrares-te a ti próprio!

 

És de Leiria, conhecida por ser um berço de talento musical e a cidade dos Silence 4, onde hoje crescem novos nomes como Nice Weather for Ducks ou First Breath After Coma, com quem já colaboraste. Com que outros artistas conterrâneos ou nacionais gostarias de trabalhar?

Tenho a sorte de estar rodeada de bandas e músicos tão bons em que tenho o privilégio de chamar meus amigos e meus companheiros de estrada, somos uma cidade e uma família muito unida! Gostaria muito de trabalhar com Twisted Freak e assim num nível mais internacional e mais impossível de acontecer, com a minha Deusa Annie Clark (St.Vincent).

 

Sente-se uma forte influência nórdica/escandinava na tua música. De onde vem esta ligação e que artistas te inspiram?

Posso dizer que a Escandinávia apareceu na minha vida por volta dos meus 14 anos. Foi graças a um trabalho da escola na altura em que tínhamos de falar sobre um País em específico e o destino pôs-me a Islândia como página principal de pesquisa. Pesquisei muito sobre o país e sobre a sua cultura e foi amor à primeira pesquisa e à primeira vista! Amo tudo o que seja relacionado com a Islândia e com a Escandinávia no geral! Têm um modo muito próprio de ver as coisas e gosto muito disso! Andei a poupar durante dois anos para fazer uma viagem de três semanas pela Escandinávia e foi aí que fiquei ainda mais apaixonada e “obcecada” com tudo aquilo! Só indo lá é que se sente toda a atmosfera única que emana por todo o lado! É incrível! Posso dizer que Bjork, Soley e Amiina são as minhas grandes inspirações Islandesas. Acho que tenho uma costela nórdica (risos). 

Podes-nos falar um pouco a ideia por trás dos títulos das tuas canções - Hemma, Drög, Saag, etc.? Há um fio condutor entre eles?

Sempre quis que o meu primeiro álbum fosse um álbum do mundo e não pôr nomes previsíveis nas músicas, quis criar uma ligação muito própria com as pessoas que o ouvissem! Hemma foi para a minha Avó em que o nome dela é Hemma, mas adoptei este modo de escrever devido a um filme em que estava a ver na altura que fazia a viagem aos países nórdicos em que Hemma no filme tinha o significado de casa. Achei piada à ligação que tinha pensado no momento, andava a fazer o álbum na altura e senti a necessidade de ligar esse mesmo significado de casa com o nome da minha avó! Saag quer dizer “Serra” em Africanêr, que é o nome do cão da Casota Collective onde gravei e produzi o álbum. Drög significa rascunho, que era uma música que tinha feito há algum tempo como rascunho inicial! Ou seja, todas elas têm um significado muito pessoal para mim e todas elas estão interligadas entre si! Se formos traduzir cada nome para Português dá uma frase muito engraçada! Não me quis focar numa só língua e quis arriscar um pouco mais nessa vertente dos nomes, foi uma pesquisa intensiva.

 

Em relação aos teus vocais, por vezes parece que cantas em inglês, por vezes numa língua inventada. Criaste algo ao estilo de Sigur Rós, mas mais improvisado?

Costumo dizer que criei o Surmês! Como expliquei anteriormente, sempre quis que o meu primeiro álbum fosse um universo muito próprio e que cada pessoas tivesse a sua própria interpretação de cada música. Sempre quis criar um Universo único para Surma.

Não me quis focar no Português, Inglês, Espanhol, ou numa só língua! Quis criar um álbum universal em que explorei muito a vertente da fonética! Cada pessoa tira a sua própria interpretação das “letras” das músicas o que acho um processo bastante interessante de se fazer!

 

Tocas vários instrumentos diferentes nas tuas atuações: baixo, guitarra, sintetizadores, violino... Tens alguma formação clássica, incompleta porque a teoria te fez desistir, e foste aprendendo mais de forma autodidacta pelo YouTube. Sentes mais liberdade assim?

Sinto muito mais liberdade assim! Tive aulas de piano e guitarra clássica durante 6 meses mas desisti por isso mesmo, nunca fui muito dada a ser obrigada a tocar numa determinada posição nem de seguir determinada estrutura. Bloqueava aquilo que estava a sentir e aquilo que queria tocar, sempre fui uma miúda que gosta muito de improvisar ao vivo e não se prender a determinadas formas de aprendizagem! Daí ter ido para uma escola de Jazz aos 17 anos aprender contrabaixo e voz, desisti do curso passado três anos e comecei a dedicar-me a tempo inteiro a aprender cada instrumento por mim mesma! Posso dizer que toda esta educação musical me deu imensas bases mas queria sempre aprender algo mais e por mim mesma! O YouTube tem sido o meu grande professor musical desde daí! Todo o mundo das electrónicas foi graças à malta que posta vídeos a explicar tudo direitinho e a pessoal que conheço que me ensinou várias coisas até agora! Estou sempre a aprender! É um processo muito mais liberto sendo tu a aprenderes por ti mesmo!

 

Por último, de onde vem o teu nome artístico Surma e porque optaste por ele em vez do teu singular nome Débora Umbelino? 

Sempre gostei de criar personagens na minha cabeça e nunca gostei de dar o meu nome próprio para o caminho artístico que queria seguir! Fica sempre um pouco aquém e nem te dá aquela personalidade extra que queres criar! Surma veio de um documentário que estava a ver na altura sobre tribos indígenas no Discovery! Ficou-me automaticamente na cabeça durante umas duas semanas! Tinha um caderninho na altura em que escrevia vários nomes que tinha em mente mas assim que Surma veio ao barulho risquei tudo e decidi arriscar com este mesmo nome! Todos os hábitos e costumes da tribo disseram-me muito! Não pensam no futuro nem em bens materiais e têm um mundo muito próprio em que só eles entram! Vi-me muito na ideologia que eles tinham na sua cabeça e decidi que era aquele caminho que queria levar enquanto Surma! E ficou.

DICE CONFERENCE + FESTIVAL (1-3.11.2018)

Concerto Surma: 2.11.2018, 21h

arkaoda Berlin, Karl-Marx-Platz 16 - 18, 12043 Berlin 

Entrevista feita por Mariana Lima e Rita Guerreiro

24/10/2018

Foto: ©Hugo Domingues

Rita Guerreiro

Licenciada em Audiovisual e Multimedia pela ESCS – Escola Superior de Comunicação Social (Lisboa), chegou a Berlim em 2010. Depois de ter participado em vários projectos de voluntariado e iniciado o Shortcutz Berlim, juntou-se à nova equipa Berlinda em 2016 e é desde então editora do magazine, para o qual contribui com vários artigos e entrevistas. 

Mariana Lima

Mariana é fascinada por línguas e expressões idiomáticas. Tradutora de profissão, tem um espírito de curiosidade aguçado. Por vezes sente-se culpada por não aproveitar melhor a oferta cultural da cidade. Chama casa a Berlim desde 2014. 

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