MAGAZINE

Hüpf-Hüpf, BERLIN!

Maria-Grácia Guimarães

Fotos: ©Sandra Bello e Solano Torres

Berlim é uma cidade multicultural. O que em outras cidades seria destaque, em Berlim pode ser apenas mais uma cena cotidiana. O que parece inusitado, não demora a ser incorporado à “normalidade” berlinense.

Não é raro encontrar personagens fantásticos trajados na pele de pessoas comuns em seus modelos de domingo, como se tivessem acabado de saltar de telas mágicas de filmes incríveis para viver em Berlim.

Tudo bem, mas daí a encontrar São Jorge, com dragão e tudo, viajando de metrô, é um pouco demais… não?

Pois bem, no final de tarde do dia 23 de abril de 2013, São Jorge foi fotografado viajando no metrô de Berlim. Assim como uma expressiva parte da população residente na cidade, o santo em questão também era um migrante, que havia chegado do Rio de Janeiro, na bagagem de uma devota carioca.

Apesar de não ser o padroeiro da cidade do Rio de Janeiro – que na verdade é a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro –, São Jorge é um dos santos mais celebrados pelos cariocas. Extra-oficialmente, é considerado o padroeiro da cidade, onde seu dia, o 23 de abril é, oficialmente, feriado religioso.

No Rio de Janeiro, São Jorge tem devotos de todos os tipos: militares, policiais, traficantes, bombeiros, músicos e artistas de variados estilos, católicos, seguidores das religiões afro-brasileiras, além de ateus de todas as cores. Digamos que se trata de um santo eclético, diverso e democrático.

Há cerca de quatro anos, um grupo de brasileiras-berlinenses decidiu iniciar os festejos em homenagem ao santo-guerreiro também em Berlim.

Tradicionalmente, a homenagem inclui procissão, na qual a imagem do Santo sai da igreja carregada por fieis para desfilar e abençoar a comunidade, para depois retornar ao altar. Após a procissão, a festa pagã incluiu roda de samba, comida, bebida, fogos e outras expressões de alegria e devoção, dependendo do grupo de fieis.

Desde que se iniciou a celebração em Berlim, o Santo (migrante) segue em procissão de um bairro a outro, visitando diferentes pontos de referencia de brasileiros. Nesse caso, o roteiro não inclui igrejas. A cada ano, o santo se hospeda em lugar distinto. Em 2013, saiu do espaço Copacabana, em Mitte, em procissão para Kreuzberg, onde passaria a habitar.

De um bairro a outro, a caminhada seria puxada. Entretanto, aviso geral para os e as devotas: Vamos de U8! A linha do metrô que faz a conexão direta e rápida entre os dois bairros seria a primeira parte do roteiro.

Mesmo cientes que uma procissão se faz caminhando, os e as devotas presentes concordaram que uma viagem de metrô não reduziria a fé e que de qualquer forma, já estava na hora do santo guerreiro se adaptar aos novos tempos.

A pé ou de metrô, uma procissão precisa de um repertório: musicas de celebração e exaltação ao homenageado. Como a maioria dos devotas vive há muito tempo em Berlim, havia um pequeno problema de memória musical. Alguém sabia parte de uma canção que outras pessoas não lembravam mais. Outras sabiam um refrão famoso, mas a memória só guardara versos incompletos.

De toda forma, a limitação do repertório não afetou a fé e nem tirou a o brilho da festa. São Jorge, enfeitado de flores vermelhas e brancas, descendo as escadarias da estação Rosentaler Platz da linha U8 do metrô, carregado por mãos amorosas e guiado pela sonoridade de refrãos entusiasmados, emocionava participantes e chamava a atenção de curiosos. A beleza do ritual improvisado transformou a paisagem fria da estação.

Entre um verso e outro, o som dos bilhetes de metrô sendo validados. A essa altura, pessoas já se aglomeravam para entender o que estava acontecendo. A curiosidade servia para aproximar desconhecidos. A presença do santo e de seus fieis vestidos de vermelho e branco recriava a atmosfera do lugar.

Depois de alguns minutos, chega o trem. (O santo, oriundo do Rio de Janeiro, não escondia a surpresa diante da eficiência do transporte público.) Embalado pelas mesmas canções repetidas continuamente, cada vez com mais alegria e entusiasmo, o santo adentra o vagão do metrô. Demais passageiras se surpreendem com o ilustre viajante cercado de devotos.

Duas estações mais tarde, pergunta-se: e o bilhete do santo, alguém comprou? Alguém validou um bilhete para o santo? Qual seria o bilhete adequado para o santo? Apesar de ser verdade que, cada vez que se viaja com passageiro extra é preciso ter um bilhete extra, não existia uma opção adequada no catálogo de bilhetes que correspondesse ao passageiro que nos acompanhava.

O santo viajava sem bilhete, ou seja, estava ilegal. E se aparecesse um controlador? Haveria multa prevista para santo sem bilhete? Uma pessoa sem bilhete, paga 40 Euros de multa. Uma bicicleta sem bilhete, também paga multa. Quanto pagaria um santo sem bilhete?

A imagem do santo, junto com o andor, ocupava um considerável espaço no vagão. Correspondia a uma bicicleta, ou a dois cachorros, ou a um carrinho grande de bebê ou a dois carrinhos de idosos. Tinha volume suficiente para pagar tarifa.

Se aparecesse um controlador, poder-se-ia explicar a questão da devoção, contar a história do santo, apelar para sua sensibilidade religiosa. Como a probabilidade do controlador não ser católico era elevada, não fazia sentido pensar nessa linha de argumentos.

Outra alternativa seria também deixar o Santo à própria sorte. Fingiríamos não conhecer o santo e pronto. A questão é que estávamos vestidos de vermelho e branco, como sinal de devoção, quase como um bloco carnavalesco, seria difícil negar a cumplicidade. Alem do mais, não seria  justo fazer isso com São Jorge, logo no seu dia.

Bem, o santo viajava sem bilhete. Verdade. Mas era dia de São Jorge, o santo guerreiro. Nossa preocupação era quase uma ofensa a seu poder, o que seria um controlador do metrô de Berlim (por mais antipático que fosse) diante do santo que derrotou o dragão? Para quê nos preocuparmos se, na hora H, o santo saberia o que fazer?

Voltamos a entoar nosso limitado, mas potente, repertório de canções até chegarmos sem problemas à estação destino. Saímos do metrô e seguimos em procissão pelo bairro. Chegámos ao local onde São Jorge vai residir até 23 de abril de 2014 e… festejámos. Salve Jorge!

Bárbara Santos

Please reload

Bárbara Santos

Bárbara Santos é natural do Rio de Janeiro, no Brasil. Formada em Sociologia, foi até 2008 diretora do Centro do Teatro do Oprimido do Rio de Janeiro, no qual trabalhou com Augusto Boal durante quase duas décadas em vários projetos incluindo Teatro Legislativo e Estética do Oprimido. Desenvolveu o Laboratório Madalena – Teatro das Oprimidas, uma experiência estética inovadora sobre as opressões vividas pelas mulheres. É diretora artística do Kuringa e editora da Revista Metaxis (Brasil). Atualmente vive em Berlim.

Please reload

Freunde von Berlinda e.V. , Heimstr. 3, 10965 Berlin - info@berlinda.org 

BERLINDA 2019 · All rights reserved