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War in Her - Como Sanni Est faz de sua história resistência e música

Quando eu conheci a Sanni, pensei que ela era mais uma brasileira, que assim como eu, por algum motivo veio parar aqui em Berlim.

 

Depois de conhecê-la melhor, eu descobri que de fato ela é mais uma brasileira, mas com um pequeno detalhe: ela é uma brasileira transgênero.

 

Sanni veio para Berlim quando tinha apenas 18 anos de idade, como ela mesma disse “em busca de uma vida melhor”, e também junto com o seu primeiro namorado, um alemão. Desse relacionamento nasceu a descoberta de que ela não era um homem gay e sim uma mulher trans. A transição para um corpo feminino se iniciou, assim como o nascimento da artista que sempre existiu em Sanni, que desde os 12 anos de idade já estudava no Conservatório Pernambucano de Música, em Olinda, nordeste do Brasil. Mas, de acordo com Sanni, o ponto da virada em sua vida foi mesmo quando ela após uma cirurgia de emergência depois de sua vaginoplastia em 2012, ela percebeu que a vida poderia ser curta demais para não correr atrás do que realmente quer, e decidiu escrever e produzir música. Inicialmente foi com DJ sets ela se familiarizou com as pick-ups, e logo depois, em 2015, já começou a idealizar o seu mais recente projeto.

 

Hoje com 29 anos de idade, ela se tornou DJ e cantora, e recentemente lançou o seu primeiro álbum, War in Her (literalmente “Guerra nela”), um trabalho inspirado em um relacionamento que foi por água abaixo. Corações partidos à parte, o trabalho de Sanni também contém um ativismo político, já que ela narra não só as dores de uma decepção, mas também as diferenças de privilégios presentes em um relacionamento inter-racial.

 

“Ao expor o meu sofrimento e solidão sistêmicos, por ser quem eu sou e sentir desejo por homens brancos, eu já estou denunciando o machismo, racismo, trans-misoginia e cis-normatividade deles. Porém, talvez, nem todo mundo perceba isso ao ler as letras sem saber do meu histórico. Por isso, eu gosto também de trabalhar com o  visual. Em colaborações com fotógrafos e filmmakers, eu exploro estéticas no intuito de expressar a solidão, loucura, desejos não preenchidos, etc.”

 

Sanni além de falar sobre essa evidente diferença entre gêneros, ela toca também em outro tabu: a falta de mulheres na cena eletrônica berlinense. Não é de hoje que isso vem despertando questionamento quanto à igualdade de gênero nessa indústria, e como qualquer outro business, o ativismo é fundamental.

 

“O machismo na cena eletrônica berlinense é gigante! Já me convidaram para tocar em uma festa sem roupa e cancelaram quando eu disse que não o faria. Hoje em dia, eu quase só sou convidada para tocar em eventos queer feministas; o que não chega a ser nem uma vez por mês em Berlim. Apesar de ser uma trans*feminista interseccional muito engajada e até organizar e liderar workshops coma temática de gênero em escolas alemãs com o projeto Diversity Box e independentemente; o meu ativismo na música é mais sutil. Eu acredito que, quando se trata de políticas de identidade, eu não preciso nomear as coisas para que elas já estejam sendo representadas no meu texto. A partir do momento em que eu, uma mulher imigrante, de classe social baixa, negra e trans, aqui na Alemanha, consigo produzir um álbum com a solidariedade de muita gente (desde músicos até co-produtores) para expressar como eu me senti boicotada e machucada em relacionamentos heterossexuais com homens brancos europeus (mesmo que eu foque mais em um, no War in Her), isso já tem uma relevância política grande.”

 

Ela ainda conta que tem o projeto EmpowAir, que terá sua primeira edição dia 11 de Agosto, no qual ela através dessa plataforma foca em trazer e trabalhar com artistas não-brancos, femmes e transsexuais.

 

Além disso, as influências brasileiras são claras no trabalho de Sanni, que se inspira no coletivo Teto Preto, percussões afro-brasileiras e ela ainda usa batidas de Maracatu e Ciranda nas faixas de seu novo trabalho.  

 

“Essa mesma sutileza política se aplica também ao meu som. Acho que para a maioria dos ouvintes europeus, que estão acostumados a ouvir músicas com gêneros crossover (ex.: Pop com samples de Gospel, hiphop com samples de violino, etc.), eles talvez não devam saber de onde vêm as minhas raízes só de ouvir minha música, e, muitas vezes, eu preciso explicar aos músicos com quem colaboro como eles devem tocar, algo que para qualquer músico brasileiro seria óbvio, como por exemplo compassos, ritmos, percussões, grooves de bateria… Como eu sou uma artista completamente independente e sem muitos recursos, eu preciso sempre colaborar com pessoas que cubram o máximo as necessidades. Agora eu tenho no momento uma banda compacta para o War in Her ao vivo, com a qual eu estou extremamente feliz: Akaroid nos sintetizadores modular, Touch Guitar® e backing tracks; e Freescendo Radix na bateria, beats de hiphop e percussões afro-brasileiras!”

 

O álbum War in Her foi co-produzido e mixado por um grande amigo de Sanni, o produtor Akaroid. Além de ele, outros músicos colaboraram com a cantora para a gravação do álbum, inclusive o seu irmão mais novo, Marley Mendes.

 

“Eu também contei com a participação do meu irmão mais novo Marley Mendes, que aos 15 anos tocou caixa (snare), beatbox e pandeiro em 4 músicas do álbum; Motz Art nos violinos em “His Scen”’, Adrián Alarcón nas flautas em “Lullaby”, além de Akaroid que também tocou sua Touch Guitar® em “Afrai”’; “His Scent” e “Trial”. Last but not least eu também contei com a participação de Krojd. E, no clipe de Afraid, conto com a participação de Negroma e Mavi Veloso (duas performers também trans), mas não irei revelar muito… porém podem esperar uma surra de beleza e empoderamento nesse verão!”

EmpowAir Festival

11 de Agosto a partir da meia-noite

Glogauair, Glogauerstr. 16, 10999 Berlin

03/08/2018

Foto: Valquire Veljkovic

Sarah Luisa Santos

Sarah é editora e escritora, atualmente vive em Berlim. E, apesar de ter se graduado em Artes Visuais, textos e palavras roubaram seu coração ainda quando ela era estagiária na Editora Abril. Com esse relacionamento hoje solidificado, ela escreve matérias para o site Berlin Loves You e edita a revista online da Babbel.

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