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Entrevista com Salomé Lamas

Foto: Salomé Lamas © O Som e a Fúria 2012

“Terra de Ninguém” é o documentário da jovem realizadora portuguesa Salomé Lamas, que pode ser visto no programa Forum do Festival Internacional de Cinema de Berlim. O filme mostra o relato, narrado na 1ª pessoa, de um ex-mercenário português da guerra colonial, mais tarde assassino a soldo contratado pela CIA e pelos GAL. Entre crueldade, compaixão, ficção e realidade, o filme não deixa indiferente quem o vê.

 

BERLINDA: “Terra de Ninguém” conta-nos a história de um ex-mercenário narrada na 1ª pessoa. Como surgiu a ideia de fazer este filme, e de abordar este tema?

 

SALOMÉ LAMAS: A ideia surgiu quando ouvi uma conversa através de uma pessoa que me é próxima, com o Miguel Lamas, que é sociólogo e na altura trabalhava com sem-abrigo e ficou muito amigo do Paulo. Interessou-me o movimento que a história do Paulo levou até chegar até mim: o Paulo viveu os acontecimentos e contou ao Miguel e o Miguel contou-me a mim. Eu dei por mim a contar a história mais uma vez a pessoas que me eram próximas. Interessou-me este movimento, várias versões da mesma história e as suas traduções. Embora seja entusiasmante a experiência do Paulo cobrir uma série de eventos históricos, esses eventos ainda não estão fixos nos livros, nos museus, por isso é muito difícil perceber o que é que de facto aconteceu. A foram como a história cristaliza é geralmente perigosa, porque no fundo quem escreve a História acaba por colocar demasiada atenção aos chamados eventos pelo mundo fora, o que nunca vem a ser fiel são os períodos de silêncio. Esse é um pouco o ponto de partida para o filme, e usa o género do filme documental que à partida contém em si uma autoridade ou uma relação com o real. No findo, o que me interessa é: o que é o ato de contar uma história, o que é o ato de relembrar o passado ou um evento sentido, e o que é a História com H. O filme joga nesses espaços entre estas três dinâmicas, e é nesse sentido que o espetador deve sentir que liquida as fronteiras entre facto e ficção.

 

B: No fim do filme, diz que toda a gente deveria conhecer o Paulo Figueiredo. Porquê?

 

SL: Porque ele é um jogador muito pequeno nesta trama muito maior. O trabalho de mercenário, da forma como o Paulo o expõe, acaba por ser um trabalho ingrato, um trabalho sujo da sociedade. O Paulo veste a camisola com algum prazer, para fazer este trabalho sujo que, na óptica dele, alguém tem de fazer, e que no fundo é um trabalho silencioso. Como ele mesmo diz, é um trabalho das 9 às 5, não me interessa quem mandou a carta  a pedir. Ele chega a dizer que é como o trabalho de um médico ou de um juiz, ou de um médico em que o tabu é sagrado - não conhecemos o nome de ninguém, e acabou. No fundo é um trabalho feito na margem entre resoluções, golpes de estado, partidos, democracias, sempre a servir o poder. Esse poder às vezes é indiscriminado e destituído de ideologias, tanto pode ser à esquerda como à direita. É um trabalho feito na fronteira, e haverá sempre alguém o faz. Pessoas como o Paulo existem em todos os países, são peões neste jogo de política, geo-estratégia e interesses económicos.

 

B: As atrocidades narradas pelo Paulo de forma natural mostram uma face da presença portuguesa em África que é contrária ao mito popularizado segundo o qual o colonialismo português teria sido melhor que os outros, por ser mais brando, e que teria consistido essencialmente num encontro de culturas. Espera que o filme possa contribuir para lançar um debate sério sobre este assunto?

 

SL: Existe uma série de trabalhos interessantes e recentes, que começaram a ser feitos agora, e que tentam mapear a questão da guerra colonial e do colonialismo português, que é na minha óptica um colonialismo subalterno. Por um lado éramos a soberania nas colónias, por outro sempre tivemos uma posição periférica na Europa,  sempre fomos os pequeninos. E depois há as desculpas da miscigenação, e outras que tentam abrandar e separar o nosso colonialismo do do Império Britânico, etc. Acho que o que é muito interessante no filme é a forma como o Paulo fala no fim do filme sobre a guerra colonial, que é muito semelhante ao discurso da maior parte das pessoas que estiveram em África: este sonho do que era África na meninice, por exemplo quando ele diz que as colónias eram maravilhosas, que Portugal não sabe o que perdeu... é um discurso que estava muito enraizado na sociedade portuguesa, e que nós, filhos das pessoas que lá estiveram, acabámos até por compreender. Mas por exemplo para o povo americano, habituado ao politicamente correto e à discussão de género, isto é visto como racismo. Ouvir o Paulo falar sobre o sonho da vida dele, que era continuar a fazenda que a família tinha em África, e vê-lo ter noção de que essa é a história que ele tinha enquanto criança, porque a história dos adultos é bem diferente, no fundo também coloca em perspetiva todas as atrocidades e a narrativa mais gráfica que ele comete na guerra colonial. É um contraste muito forte quando ele fala da noite em África, de muita gente no café, de “pretos e brancos que se davam bem” – isto são palavras dele, eu nunca usaria esta determinação – por outro lado escutar a forma radical como ele descreve as atrocidades. Houve pessoas que me disseram que era muito mais chocante ouvi-lo fazer as descrições durante a guerra colonial, do que ouvi-lo falar sobre os GAL, em que havia uma pessoa e um objetivo, de forma muito mais concreta. Como ele mesmo diz, “eu na guerra colonial não corri atrás das balas”.

Eu espero que sim, que o filme crie essa discussão, mas acho que há pessoas que também trabalham de uma forma séria a guerra colonial, se calhar até de uma forma mais distinta e mais focada do que neste filme.

 

B: O filme já foi premiado quatro vezes no DocLisboa. A passagem pela Berlinale é para si mais um prémio?

 

SL: Vejo isso de uma forma um bocadinho relativa. Os filmes são para serem vistos. Poder estar na Berlinale é abrir o filme a um público mais vasto, e nesse sentido é muito gratificante. É um festival importante, e oxalá ajude um bocadinho a fazer o próximo filme

 

B: Quais são os seus projetos para o futuro?

 

SL: É difícil perceber quais são os projetos que têm hipóteses de sair do papel e os que não têm. O mais ambicioso envolve uma ida ao peru, mas ainda é muito cedo para falar em concreto.

 

 

Berlim, 9.2.2013

Entrevista realizada por Inês Thomas Almeida

 

 

  

 
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Ines Thomas Almeida

Inês Thomas Almeida nasceu na República Dominicana e cresceu em Portugal como bilingue e com dupla nacionalidade. Mudou-se para a Alemanha para estudar Canto na Escola Superior de Música e de Teatro de Rostock. Alguns anos depois de se instalar em Berlim, criou o magazine online Berlinda (2011), e, mais tarde, o Festival Berlinda (2012).

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