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Revista Utopie: Uma perspetiva critica e utópica sobre a realidade da vida e do mundo

Foto: Utopie e alguns postais ilustrativos e de divulgação da revista. © Berlinda.org

Como se fosse possível, como se tudo não passasse de mais uma ironia contra as circunstâncias, chegou a revista Utopie. O objetivo é reunir autores e autoras que escrevam sob uma perspetiva critica e utópica sobre a realidade da vida e do mundo. Filosofia, politica e literatura serão os principais enfoques.

A revista (versão em papel) concretizou-se graças ao sucesso de uma campanha de crowdfunding (mais de 5 mil euros). Trata-se de um um projecto internacionalista, com autores e autoras de Portugal à Argentina, da Alemanha aos EUA, de França ao Brasil.

Camilla Elle, alemã de Berlim, e Júlio Gomes, de Portugal são os fundadores deste projeto, o que, desde logo, espelha que todo o processo de concepção e concretização da Utopie passa sobretudo por duas línguas, o alemão e o português.

A revista em papel é em alemão e os artigos encontram-se publicados no site na língua original dos autores. A versão online encontra-se disponível em http://www.utopie-magazin.org/ em cinco línguas: português, alemão, espanhol, francês e inglês.

 

A associação que publica a Utopie, Edition Silvestre, com sede em Berlim, não tem fins lucrativos e todo o trabalho de mais de um ano para chegar aqui foi feito na base do voluntariado. O primeiro número da revista contou com mais de quarenta colaboradores, entre autores, ilustradores, tradutores, revisores, paginadores e webdesigner. Santiago Lopez-Petit, David Watson, Christian Ferrer, Charles Reeve, Felix Mora, Miguel Brieva, Marcos Abalde, Michael Albert são alguns dos autores que colaboram para esta revista. A publicação pretende ainda divulgar textos de coletivos teóricos e de autores já desaparecidos, como o Castoriadis e Jacques Ellul.

Atualmente, já pode encontrar a publicação em mais de uma dezena de livrarias em Berlim, em Leipzig e em Viena. Frankfurt e Hamburgo, serão as próximas cidades a receber esta revista. Além dos pontos de venda nas livrarias, a Utopie está à venda no website.

 


Utopie aos olhos dos seus criadores (auto-entrevista cedida pela Utopie)

Comecemos pelo nome da revista, Utopie. Por trás dela, não se esconde um idealismo?

A maior idealização está hoje do lado do realismo. O realismo, ou na publicidade do liberalismo, o possibilismo e o utilitarismo, são idealizações sobre o presente que se separam das necessidades humanas mais essenciais. Esse (falso) realismo impôs-se no nosso horizonte e não percebemos que ele apenas propõe medidas de eficácia e técnicas de adequação para que ambientes artificiais (mercados, ratings, PIB’s, dívida interna, a TV, o resort no Hawai, etc…) possam perpetuar a sua estabilidade. Estabilidade que vem a ser tão só o desejo mais perverso de uma elite política e económica. Dito isto, esses ambientes artificiais, essa estabilidade, esses desejos perversos, são gigantescas idealizações se pensamos a partir da vida real e comum de milhões de seres humanos. O pensamento realista/possibilista não desafia, adapta-se; não contradiz, repete-se como um papagaio… e o que é o jornalismo, a cultura, Hollywood? Papagaios que fabricam em massa espelhos que nos devolvem um mundo falsificado e ilusõesda vida humana. Enfim, as farmacêuticas têm o seu pior inimigo nos jornais… não há melhor tranquilizante que ler diariamente o jornal…

A nossa época precisa de críticos implacáveis e, mais ainda, de troubleshooters da visão. Para que a liga de protecção Animal não nos condene, clarificamos que não temos nada contra os papagaios, araras e cacatuas e até gostamos de tropicalismo…

Nesse caso, o que entendem por utopia?

A utopia não trata do inexistente, mas viola o presente com uma realidade em porvir e em devir. Na nossa perspectiva, a utopia não tem uma relação binária com a realidade, não é um compromisso entre possível/impossível. É antes uma potência incontrolável imanente à nossa realidade, precária e mutável. Nesse sentido, antes de propormos a utopia como o plano de um futuro topos que devém matéria, enfatizamos a sua virtude processual de se presentificar no espírito – aqui dentro, nessa alquimia feita de algo que transcende a soma da alma, mente, razão, corpo, sentidos, pele, entranhas -, enquanto um permanente ataque à realidade.

Já reparámos que qualquer utopia, a mera palavra, provoca arrepios e caretas azedas no café, no departamento de altos estudos, no bar, no leitor, além de a sua difamação ser o ganha-pão do pensamento da meia-derrota, do Fukuyama ao Sloterdijk, ou do pensamento da meia-vitória, do Habermas ao Zizek. Parece-nos um começo promissor, pôr-lhes a língua de fora… buuuuuuuuuhhh!

Se ficarmos um pouco mais sérios, podemos acrescentar que a nossa liberdade só se sustenta se o imaginário não parar. Chamando os bois pelos nomes, se deixarmos de atacar utopicamente a realidade sabemos duas coisas: primeiro, que não podemos aceder nem aos livros desses senhores nem aos cafés; segundo, e pior ainda, de nada nos servirão…

Quais são os vossos temas?

O nosso tema é a paixão de transformar a realidade, a realidade que nos é comum. Em todo o caso, vamos tentar dar um contributo para desfazer máscaras da opressão e lançar um olhar crítico sobre mitologias do tempo actual que salvam o projecto capitalista, como a tecno-ciência, os media, o império do racionalismo, o liberalismo na esquerda, o mito do progresso, a meritocracia, o cinismo, a colonização do imaginário. Também tentaremos desfazer algumas ratoeiras em que se move a esquerda pós-marxista e espicaçar a infecundidade do antagonismo gratuito em que se movem algumas correntes anarquistas.

A Utopie terá alguma utilidade prática?

Neste mundo feliz em que vivemos nada há de mais prático do que não pensar. Por aí, já se vê que seremos inúteis… não temos muita simpatia com a negligência desse dom humano – o dom de pensar -, ou por aqueles que se distraem tanto que nem vêem a sua própria cabeça… Bom, sempre se pode fazer origamis com as folhas daUtopie, mas preferimos inquietar as mentes, lançar perguntas-precipício, causar curtos-circuitos, fazer mexer, sair do lugar onde estamos. Nesse sentido, a utopie é poesia e incêndio. Se alastrar, tanto melhor…


Fontes: Comunicado de imprensa; informações (auto-entrevista) cedida pelo coletivo da Utopie.

 

  

 
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