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Atrás das câmaras: os realizadores que vai poder ver ao vivo | PREMIÈRE BRASIL

Foto: "De menor", Caru Alves de Souza © divulgação

Um drama entre dois irmãos, a desumanização do universo prisional, um trágico triângulo amoroso, um diálogo entre dois países que atravessa o Atlântico. São heterógeneas as histórias dos filmes dos realizadores que estarão em carne e osso na abertura do Première Brasil. Saiba o que disseram à Berlinda.

"De Menor", a primeira longa-metragem da jovem realizadora Caru Alves de Souza retrata a história de dois irmãos, Caio e Helena, no período posterior à morte dos pais. Helena, agora responsável pelo irmão mais novo, é uma jovem advogada que arranja o seu primeiro emprego como defensora de menores de famílias desprivilegiadas, crianças que, na maior parte dos casos, só podem mesmo contar com ela. A situação destes menores é muito complicada, mas as coisas pioram quando é o próprio Caio que comete um crime e a realidade do trabalho de Helena invade a sua vida pessoal. Uma história humana forte que aflora a questão do tratamento dos menores no sistema penal brasileiro.

Para este filme, Alves de Souza inspirou-se nas histórias que lhe contou uma prima que tinha sido defensora na Vara da Infância e Juventude do Fórum de Santos (São Paulo, Brasil). «A situação de abandono que os meninos e meninas que iam para o fórum viviam e, por outro lado, a batalha que minha prima travava a cada audiência que ela ia para defender os adolescentes e crianças me levaram a fazer De menor», afirma. Um filme que, diz a realizadora, «propõe uma reflexão: sobre o sistema penal brasileiro, sobre a situação em que os adolescentes pobres vivem, sobre o amor dos dois irmãos (os personagens do filme), sobre o racismo no Brasil».

Segundo Alves de Souza, o filme pretende lançar um olhar mais abrangente e tolerante sobre a juventude em situações de risco, e, apesar de não abordar diretamente a polémica questão da redução da maioridade penal no Brasil, a realizadora considera que De Menor poderá «ajudar no debate». «O filme se propõe a fazer um contraponto a uma visão simplista e preconceituosa da sociedade brasileira, que vê o jovem, principalmente o jovem negro de periferia, apenas como um agressor, sem direitos», acrescenta Caru.

Também uma reflexão sobre o sistema penal brasileiro é o que encontramos em "A gente", estreia do realizador de cinema Aly Muritiba nas longas-metragens a solo. Neste documentário, Muritiba mostra a vida numa prisão do ponto de vista dos guardas prisionais, função que o próprio desempenhou durante sete anos. O filme segue Jefferson, ex-colega de Muritiba, na Casa de Custódia de São José dos Pinhais, no estado do Paraná, onde o realizador se reintegrou também como guarda durante os oito meses de filmagens. Esta foi, aliás, uma das principais dificuldades de Muritiba, já que nesse período, a direção da prisão mudou três vezes.

Com estes filmes, Muritiba procura desmitificar a ideia que quem não conhece tem sobre o sistema penitenciário, mostrando que não há uma diferença clara entre opressores e vítimas, «existem várias facetas de bem, de mal, é tudo circunstancial dentro da penitenciária, assim como aqui fora», explica. E continua: «É esse universo que está retratado nos meus filmes de forma humanizada, principalmente no A gente, que tem um posicionamento muito mais claro, até porque eu fui agente. As vítimas são todos os que trabalham no sistema, o algoz, no fim das contas, é o próprio sistema penitenciário, um sistema baseado no encarceramento não pode recuperar socialmente ninguém, não pode inserir ninguém de volta na sociedade.»

O jogo de palavras evidente no título propõe uma fusão entre o «agente» penitenciário e «a gente», «que somos nós, todos nós. Porque o filme fala de mim, que também fui agente», explica Muritiba. E sublinha: «A gente é um filme muito tenso, é um filme em que as coisas estão sempre a ponto de acontecer, o barril de pólvora está sempre prestes a explodir, algo que eu vivenciei muito.» A tensão do filme estendeu-se ao cenário das filmagens quando uma facção criminosa proíbiu o realizador de filmar numa das alas do presídio, sob ameaça de morte. 

A humanização do bem e do mal é algo que está também muito presente em "O lobo atrás da porta", longa-metragem estreante de Fernando Coimbra, um thriller arrebatador sobre um trágico triângulo amoroso. Clara, de seis anos, é raptada e as suspeitas recaem sobre a ex-amante do pai, ao que se segue uma teia de mentiras, desconfiança e ódio. O filme é inspirado num crime real ocorrido no Rio de Janeiro em 1960, que despertou a curiosidade de Coimbra numa notícia antiga sobre o julgamento, quando o realizador frequentava a faculdade de cinema. «Fiquei instigado com a história em si, um crime passional tão brutal, e com a forma como a imprensa a tratava na época. Chamavam-na de Fera da Penha, de monstro, de Frankenstein de saias. Tratavam-na como se ela não fosse humana, como se ela fosse uma besta», conta Coimbra. «A imprensa já trazia todo esse lado brutal e eu queria entender o que é que tinha de humano nessa mulher, quem era essa pessoa, e o quanto isso é muito mais próximo de um comportamento humano», esclarece.

O lobo atrás da porta – um título que brinca com o imaginário da nossa infância, numa personificação do lado obscuro existente em qualquer um de nós – procura retratar, sobretudo, a complexidade do ser humano, «colocar perguntas na cabeça das pessoas sobre o quanto nós somos capazes de fazer esse tipo de coisa, o quanto nós somos levados pelos nossos instintos, pelas nossas emoções mais básicas», continua o realizador. Ao contrário do thriller tradicional, em que o vilão, a vítima e o galã são personagens-tipo bem identificadas, n’ O lobo, Coimbra procurou «sempre trabalhar as contradições das personagens», jogando com «diferentes emoções, diferentes intenções dos personagens numa mesma cena, num mesmo momento».

Satisfeito com o impacto do filme, Coimbra conta-nos que «as reações têm sido sempre muito boas. Eu tinha medo que reagissem de uma forma negativa, por causa da brutalidade do final, mas as pessoas sempre estão muito mexidas, porque elas não aprovam o que ela fez, mas, de certa forma, entendem e acompanham o caminho para chegar até ali». O filme, estreado no circuito comercial em Junho de 2014, esteve até há cerca de um mês nos cinemas brasileiros. Comprado por mais de 30 países, já foi exibido na Coreia, EUA, Canadá e Espanha. «Na Alemanha, não foi comprado ainda, esse é outro objetivo nosso agora, ter um distribuidor que compre o filme», refere Coimbra.

Num universo totalmente distinto, "Fernando que recebeu um pássaro do mar", uma curta-metragem de Helvécio Marins Jr.* (em parceria com Felipe Bragança) mostra-nos a história de Fernando, que mora no Porto (Portugal) e recebe um papagaio do Brasil, começando a imaginar como será esse país aparentemente idílico que, na verdade, não o é assim tanto. «Eu e o Felipe falávamos sempre muitas coisas sobre o Brasil e essa amizade que a gente tem em Portugal, e percebemos que era uma boa chance de falar coisas históricas dos dois países e também de coisas que a gente sente. O Brasil estava naquele momento das manifestações, a população brasileira indo para a rua protestar contra o Governo, os estragos da Copa… Então, resolvemos criar uma história imaginária do Fernando», nota Marins. Fernando, personagem real, trabalhava num talho na Holanda e voltou para o Porto num momento em que o país estaria melhor para afinal mergulhar em cheio na crise e no desemprego.

Marins Jr. escolhe pessoas reais para os seus filmes e depois ficciona sobre elas. Neste filme, pegou em Fernando e inventou um índio no Brasil que lhe envia um papagaio com uma carta. Fernando começa a imaginar o Brasil romântico – «um país quente, das águas morninhas, onde tem mulheres, samba, aquele cliché» e gera-se um diálogo em que ambos conversam sobre o estado atual do país de cada um. «O pássaro acaba contando para ele que, na verdade, o Brasil não é nenhuma dessas maravilhas, que o Brasil está mesmo uma merda, que as pessoas estão-se matando por dinheiro, porque o país agora realmente tem dinheiro, mas está crescendo de uma forma muito errada, muito torta», desabafa o realizador.

Cada filme de Helvécio Marins começa com «um contacto humano com as pessoas. Quando eu tenho esse contacto humano, nem sei se vou fazer um filme com aquela pessoa ou não, eu não fico preocupado com isso no primeiro momento. Então, eu vou insistindo no contacto e vou criar uma espécie de amizade e pode ser que um determinado momento daqueles vire um filme, porque, até hoje, a maioria dos meus filmes são sobre gente que existe. Uma das minhas especialidades é colocar gente normal para interpretar. Para mim, todo o mundo pode ser ator», elabora Helvécio. E brinca: «Todos menos eu!»

 

Outros Projetos

Caru Alves de Souza encontra-se de momento a escrever um filme sobre jovens skatistas da cidade de São Paulo.

Aly Muritiba está a terminar uma longa-metragem de ficção, "Para a minha amada morta", que deverá começar a ser exibido em festivais no final de Janeiro de 2015; e uma curta-metragem de animação, "Parque Pesadelo"; está a fazer a montagem de uma outra curta-metragem, em co-realização com Marja Calafange, "Tarântula". Em 2015, "A gente" será lançado comercialmente. Paralelamente, está a trabalhar nos guiões de três longas-metragens, duas adaptações de obras literárias e um original.

Fernando Coimbra está a trabalhar no guião de um novo filme que, como "O lobo atrás da porta", será feito no Rio de Janeiro, desta vez sobre a Barra da Tijuca, o bairro dos ricos emergentes, dos grandes condomínios fechados com segurança máxima, dos grandes centros comerciais. Um filme em torno do universo do jogo do bicho, intitulado "Os Enforcados", que espera conseguir filmar em 2016. Como n’O lobo, o bem e o mal não se distinguem facilmente, misturando-se nas várias personagens.

Helvécio Marins Jr. está de momento a fazer uma residência artística no âmbito do Berliner Künstler Programm, do DAAD (German Academic Exchange Service) um dos programas internacionais de maior renome do mundo, que atribui cerca de 20 bolsas por ano a artistas de várias áreas. Encontra-se também atualmente a trabalhar nas longas-metragens "A mulher do homem que come raio laser" e "Fazenda do Queba".

 

Sobre o estado atual do cinema no Brasil

«Acho que o cinema brasileiro é tão diverso quanto o Brasil em si, que é um país de dimensões continentais. Avançamos em muitas áreas, hoje em dia temos uma produção grande (mas que ainda está aquém da demanda), muito maior do que foi nas décadas anteriores, mas ainda estamos engatinhando no que se refere a conseguir chegar no público. Enfim, ainda temos muito o que conquistar.» 

Caru Alves de Souza

«A gente está com uma quantidade e uma qualidade de produção incrível, principalmente na produção documental brasileira. O Brasil produz grandes documentários, nós temos grandes documentaristas, são filmes que impactam diretamente a sociedade, que refletem sobre a sociedade, eu acho que a produção cinematográfica brasileira tem crescido e é, hoje em dia, muito mais relevante nos documentários do que na ficção. A gente tem recebido mais fomento, mais incentivos para realizar documentários – para realizar filmes em geral, mas documentários, claro. Eu fico muito feliz de estar inserido nesse meio, de estar produzindo neste tempo histórico em que se têm produzido obras tão importantes.» 

Aly Muritiba

«Eu acho que o cinema está no melhor momento, há muitos recursos para produção, não é uma coisa difícil produzir um filme, não que seja muito fácil, mas quem tem um bom projeto, quem tem uma boa produtora, consegue realizar esse filme, porque tem fundos diversos onde você aplicar o seu projeto para conseguir fazer o filme. Então tem muita gente nova, que fez uma carreira legal de curtas, que está conseguindo fazer os seus primeiros longas, uma geração que eu acompanhei. Há uma aposta muito grande nos filmes dos novos directores, só que ao mesmo tempo a gente ainda tem um problema muito grande de distribuição desses filmes, porque há poucas salas de cinema para o tamanho do país, quase 3 000 para uma população de 200 milhões de pessoas, é muito pequeno ainda.» 

Fernando Coimbra

Texto e entrevistas: Raquel Dionísio

 

 

  

 
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Raquel Dionísio

Nasceu em Lisboa, Portugal, em 1981. Licenciada em Ciências da Comunicação pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, já colaborou com publicações como Diário de Notícias, Artecapital e Artes & Leilões. Vive e trabalha em Berlim desde agosto de 2014.

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