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11/12/2018

Fotos: © Mariana Oliva, Renata Terra e Bruno Jorge

O documentário internacionalmente aclamado e laureado, "Piripkura", guia o espetador pelo ventre da floresta amazónica com a missão de encontrar dois indígenas nómadas, da tribo Piripkura, que sobrevivem cercados por fazendas e madeireiros numa área atualmente protegida. Jair Candor, um dedicado funcionário da FUNAI (Fundação Nacional do Índio), acompanha os dois índios desde 1989. Jair organiza expedições periódicas, sendo muitas vezes acompanhado por Rita, a terceira sobrevivente Piripkura, para recolher vestígios que comprovem a presença dos dois índios na floresta e impeçam a invasão e conseguinte devastação da área. Pakyî e Tamandua vivem há 30 anos em exílio voluntário na floresta, servindo-se apenas de um machete e de uma tocha para assegurar a sobrevivência.  "Piripkura" expõe as consequências de uma velha tragédia e revela a força, capacidade de resistência e de autonomia daqueles que foram expostos a terríveis ameaças e têm persistido apesar do contato com o homem moderno.  

 

Logo nas primeiras cenas do documentário do trio Mariana Oliva, Renata Terra e Bruno Jorge, passamos a conhecer Rita, irmã de Pakyî e mãe de Tamandua, quando esta se prepara para uma expedição, juntamente com Jair, com o objetivo de encontrar os seus familiares. O território Piripkura não se encontra atualmente delimitado, contudo há uma interdição em vigor na área, que é altamente cobiçada por madeireiras e grileiros (pessoas que tentam obter a posse de terras com documentos falsos). Apesar de a portaria que concede o direito às terras indígenas e proíbe a exploração madeireira existir, esta tem de ser renovada de dois em dois anos, de acordo com a lei atual. Para isto ser possível é preciso provar a existência das tribos locais e que estas têm o direito à terra. Esta foi então a principal razão motivadora da primeira expedição a que assistimos no documentário e, que apesar de revelar vários vestígios dos dois índios, não providencia nenhuma prova concreta que ambos ainda estejam vivos.

 

Apesar de Pakyî e Tamandua conhecerem Jair, os índios evitam o contato a todo o custo, devido a traumas anteriores e à história dos inúmeros massacres sofridos pela população indígena nas às mãos do homem branco. Tanto Rita como Jair partilham verdadeiros contos de terror a que ambos assistiram com os seus próprios olhos e expressam o receio muito atual que têm pela segurança dos últimos Piripkuras e, da comunidade indígena de modo geral.

 

No decorrer da segunda expedição da FUNAI, os índios entram finalmente em contato com a equipa de filmagem e com os guardas florestais, de sua livre e espontânea vontade, mas simplesmente e apenas porque a tocha que sempre carregam se ter apagado. Necessitaram de iniciar contato para poderem ter de novo acesso ao fogo, essencial para a sobrevivência. No documentário descobrimos que a tocha que anteriormente carregavam esteva acesa desde 1998 até 2016, a razão pela qual se apagou é desconhecida, contudo há a especulação que tenha caído na água.

 

O documentário foi exibido no passado dia 30 de novembro no Hackesche Höfe Kino. Foi seguido de um painel de discussão composto por Klaus Teschner, arquiteto e responsável por desenvolvimento urbano na Misereor, organização solidária católica alemã que atua em países em desenvolvimento; Clarita Müller-Plantenberg, socióloga que desempenhou funções de guarda-florestal no Brasil, e Lea Kristin Martin da Survival International, uma associação que também concede apoio humanitário à FUNAI.

 

No final do filme o público mostrou-se muito interessado em colocar questões pertinentes ao painel, que partilhou conhecimentos e perceções pessoais que completaram a informação divulgada no documentário. Ficámos a saber que após as últimas filmagens, rodadas em 2016, Pakyî e Tamandua foram levados juntamente com Rita para São Paulo para receberem cuidados médicos. Tamandua recebeu tratamento para hidrocefalia que entretanto desenvolveu na floresta e que pode ter sido causada por uma infeção e descobriu-se ainda que Pakyî tem problemas de próstata, o que não é totalmente inesperado tendo em conta a sua idade. Nesta ocasião, Rita serviu de intérprete à sua família, mas teve algumas dificuldades em comunicar tendo em conta que o isolamento dos dois índios os fez desenvolver a sua própria língua e usar palavras que a mesma já não consegue decifrar.

 

"Piripkura" termina com Pakyî e Tamandua a desaparecerem na floresta depois de acenarem adeus e dizerem a palavra “Tchau”; levavam vestidas t-shirts da FUNAI que lhes foram oferecidas. Os membros do painel alertaram que este é mais um dos problemas resultantes do contato das tribos indígenas com o homem moderno, para além da transmissão de doenças. Como as tribos indígenas não têm o conceito da necessidade de lavar a roupa e nunca o fazem, isto leva ao desenvolvimento de bactérias no tecido que podem causar infeções futuras.     

 

De um ponto de vista político, todos os membros do painel se mostraram sinceramente preocupados com a nova presidência do Brasil e com o que isso pode significar para o futuro das comunidades indígenas, visto que já desde o governo de Temer que as verbas para a FUNAI sofreram muitos cortes. Para além de que ainda é muito difícil motivar as camadas mais jovens a seguirem uma carreira na FUNAI, por se tratar de trabalho extremamente árduo, sob condições climatéricas extenuantes e em lugares muito isolados. 


"Piripkura" tira o véu às adversidades que os povos indígenas da Amazónia sofrem - a violência sistemática é uma ameaça constante. Apesar da resiliência e perseverança impressionante dos últimos Piripkura, coloca-se uma questão inevitável: por quanto mais tempo é que podem continuar?

Mariana é fascinada por línguas e expressões idiomáticas. Tradutora de profissão, tem um espírito de curiosidade aguçado. Por vezes sente-se culpada por não aproveitar melhor a oferta cultural da cidade. Chama casa a Berlim desde 2014. 

Mariana Lima

Piripkura – os últimos da sua tribo

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