MAGAZINE

"A lusofonia luta por ganhar visibilidade no mundo" - entrevista com Mia Couto

Foto: Mia Couto ©Promo

Mia Couto, pseudónimo de António Emílio Leite Couto: escritor, jornalista, poeta e biólogo moçambicano.​

O seu mais recente livro, lançado em 2015 em Portugal, intitula-se “Mulheres de Cinzas” ("Imani", na tradução alemã), é o primeiro volume da trilogia As Areias do Imperador e traz o escritor de volta às suas raízes moçambicanas - que de resto é um tema que está sempre presente na sua obra.

A ação do livro passa-se no final do  século XIX, e centra-se na figura de Ngungunyane - Gungunhame, como diziam os portugueses - imperador que dominou o sul de Moçambique, o chamado Estado de Gaza, e fez frente à coroa portuguesa. Em 1895, sob ordens de Mouzinho de Albuquerque, Ngungunyane foi capturado e deportado para os Açores, onde viria a morrer em 1906.

A obra é inspirada em factos e pessoas reais, com uma grande parte de pesquisa e entrevistas levados a cabo pelo autor em Moçambique, um processo que durou mais de um ano.

A propósito da apresentação e leitura de “Mulheres de Cinzas” no passado dia 23 de Abril, a Berlinda entrevistou Mia Couto, que nos falou do sucesso da sua passagem pela Alemanha, da sua perspectiva do conceito de identidade e, como não podia deixar de ser, da lusofonia. 

 

Com “Mulheres de Cinzas” esteve na Feira do Livro de Leipzig no ano passado e agora em Berlim. Qual acha que é o interesse do público Alemão pela sua obra e como foi recebido o livro?

Fiz em Maio uma digressão por diferentes cidades da Alemanha e confesso ter ficado surpreso com a quantidade de gente e o interesse gerado. Não sei avaliar mas fico feliz porque, agora, as pessoas se interessam realmente pelos livros de uma nação africana que é pouco conhecida. Houve um tempo em que estas sessões eram promovidas por organizações de solidariedade e isso teve um papel divulgador importante. Mas agora quem vai a uma sessão destas é apenas por razões literárias.

 

Esta questão leva-nos a outro tópico - a lusofonia. Qual é, a seu ver, a importância da divulgação da literatura de língua portuguesa no mundo?

Todos os países lusófonos enfrentam a mesma condição de serem parte de uma família linguística que é uma espécie de periferia. Perante a hegemonia do inglês e pelo facto de 6 dos 7 países lusófonos não se encontrarem na Europa, a lusofonia luta por ganhar visibilidade no mundo. Muitas vezes, quando se pensa em África, se concebe que existem duas: a anglófona e a francófona. Não se pensa na África lusófona.

 

Mas este livro não é apenas em língua portuguesa - contém muitas palavras no idioma dos VaChopi, a tribo de Imani. É uma forma explícita de marcar as diferenças culturais entre este povo de Moçambique e os portugueses?

O português que se fala e escreve em Moçambique já é distinto da norma portuguesa. Foi casando com as línguas e as culturas africanas. Não é apenas no vocabulário mas na morfologia e na sintaxe. Essas diferenças estão presentes na minha escrita e na de todos os moçambicanos. Não fazemos isso como um intenção, ou para mostrar alguma coisa. Isso surge naturalmente.
 

Uma ideia muito presente no romance é a questão da identidade - ser autêntico, fiel às raízes e tradições. Imani é o espelho duma permanente divisão: vive numa zona cinzenta, como que entre o seu povo e os portugueses, os invasores. Pode ser feito aqui um paralelismo com Moçambique enquanto país, que busca ainda a sua identidade?

A identidade que me interessa não é a autenticidade ou da fidelidade às tradições. É outra: a da diversidade interior e a da eterna mobilidade. Todos os meus livros tratam desse assunto para tentar sugerir que não é um assunto: a identidade individual ou colectiva só é realmente alcançada quando percebe que é inalcançável.  Porque é diversa, plural e plástica. Moçambique tem mais de 25 línguas e culturas. Tem religiões várias. É preciso que a chamada identidade nacional seja plural e acomode toda esta complexa diversidade de gentes e de tempos.

 

Em entrevista ao Jornal de Letras, disse que teria que se esconder, talvez nos Açores, para terminar esta trilogia. Está para breve um novo livro?

Já comecei a escrever um outro livro. Desta vez, regresso à minha cidade natal, a cidade da Beira que fica na zona centro de Moçambique. Vou recuar para os últimos dois anos do regime colonial e como foi vivida na minha cidade a derrocada do regime colonial.

 

Por último, uma referência ao trabalho da Fundação Fernando Leite Couto, em Moçambique: entre a sua vida ocupada com a escrita, aulas na Universidade e viagens pelo mundo fora, como consegue também dedicar-se a este projecto e qual a importância de promover jovens talentos literários moçambicanos actualmente?

Há 4 anos, o meu pai eu e os meus irmãos decidimos que o trabalho que ele fazia com os jovens moçambicanos não podia terminar. O nosso pai ajudou centenas de jovens a escrever os seus manuscritas e, em muitos casos, a publicá-los em livro. Eram jovens humildes que não beneficiavam de qualquer apoio. A Fundação Fernando Leite Couto tem trabalhado com jovens escritores e publicado autores estreantes. Mas existe, para além disso, um enorme trabalho em todas as outras artes. Hoje é uma instituiçãoo de referência na cultura moçambicana.

 

  

 
Please reload

Rita Guerreiro

Licenciada em Audiovisual e Multimedia pela ESCS – Escola Superior de Comunicação Social (Lisboa), chegou a Berlim em 2010. Depois de ter participado em vários projectos de voluntariado e iniciado o Shortcutz Berlim, juntou-se à nova equipa Berlinda em 2016 e desde então contribui com vários artigos e entrevistas para o magazine. 

Please reload

Freunde von Berlinda e.V. , Heimstr. 3, 10965 Berlin - info@berlinda.org 

BERLINDA 2019 · All rights reserved