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Meta Mate: a história do meu encontro com o mate

Maria-Grácia Guimarães

Fotos: ©Meta Mate

Um cruzamento com o chimarrão em Berlim

(Texto na sequência de uma conversa gravada com Fabrício do Canto).

 

As ruas de Berlim permitem passagens e cruzamentos diários com gentes de todo o mundo. Um dos interessantes cruzamentos no meu percurso pessoal aqui, na cidade na qual resido há mais de dois anos, está relacionado com o mate. E esta é mais uma vez a história da diáspora, acredito realmente que a história da humanidade são as histórias das migrações. Não se trata da questão do quanto ganharíamos mas da qualidade do que ganharíamos se não nos isolássemos nos nossos fortes, erguendo os muros, que esta cidade conheceu tão bem.

 

Desde a minha chegada, procuro organizar junto com outros companheiros um encontro tanto informal quanto voluntário para a aprendizagem e troca de conhecimentos entre a língua portuguesa e a alemã, isto devido à minha paixão pela língua portuguesa, além das fronteiras do meu pequeno país, que é dotada de uma multiplicidade de pessoas, sotaques e expressões em todo o mundo e pela minha necessidade de aprender a língua alemã, com a qual vivo na minha rotina diária.

 

A busca de cafés e/ou estabelecimentos para estes encontros é uma constante e, sendo nós já mais que um grupo de meros conhecidos, procuramos também descobrir espaços que, além de estarem relacionados com a língua, tenham um pendor não meramente mercantilista, mas com um perfil de abertura para os mais variados e diversificados tipos de gente.

 

O Meta Mate Bar, “descoberto” depois de alguns meses de procura, é um dos espaços prediletos do grupo, pelo seu interessante conceito em relação ao mate e às pessoas. Situa-se em Prenzlauer Berg, um bairro que, apesar de hoje em dia ter características bem diferentes, foi após a queda do muro o paraíso de grupos artísticos e políticos, que quase simultaneamente ocupavam as casas abandonadas pelas famílias que partiam para o ocidente. Aí desenvolveram-se inúmeros projetos artísticos e políticos icónicos da vanguarda berlinense.

 

Nessa atmosfera frenética de uma geração que via cair o muro gerava-se o ânimo para a luta e a prática de ideologias libertárias. Na força desses “ventos de mudança”[1], houve uma bebida de mate, já existente desde 1924 em forma de refrigerante, que se tornou muito famosa entre os “hacktivistas”, ativistas de esquerda, okupas e os amantes de festas Rave no início dos anos 90, o Club Mate, que devido às suas propriedades nutricionais, nomeadamente pela capacidade de estimulação física e mental, se tornou tão cobiçada neste contexto social, por permitir aos seus consumidores ficarem despertos durante mais tempo. (Entre as principais propriedades do mate contam-se a capacidade de atuar sobre a circulação, acelerando o ritmo cardíaco, de agir sobre o tubo digestivo, facilitando a digestão sendo diurética laxativa. É igualmente um ótimo remédio para a pele e reguladora das funções cardíacas e respiratórias.)

 

 

Berlim tem uma tradição política forte e organizada, não meramente em partidos políticos, mas também no campo do associativismo e movimentos sociais alternativos. Esta cidade veio sendo até aos dias de hoje um íman de experiências progressistas, dinamizadas por gente com ideias e ideologias fortemente marcadas pela sua militância.

 

O ativismo berlinense é marcado não apenas pela sua faceta multicultural mas intercultural, na medida em que sendo uma cidade que se afirma como uma “Weltstadt” (cidade do mundo, em alemão), apesar de sofrer problemas com a guetização como qualquer outra grande cidade da Europa, é também exemplo de vanguarda, na medida em que se desenvolvem espaços, fruto da vontade popular e da abnegação de um passado negro, onde a interculturalidade é estimulada por ideologias e pessoas que aqui atuam e vivem.

 

Neste contexto, o Meta Mate Bar surge como uma forma de empreendedorismo com consciência social, que não se resigna às leis ditadoras do mercado. Se o ativismo se faz com a nossa presença na rua, em espaços associativos, ele também se origina no dia-a-dia, no palco onde desempenhamos as nossas funções sociais. Foi neste contexto que o Fabrício do Canto, criador deste espaço, resolveu apresentar um tipo de comercialização militante de bebidas e outros variados da erva mate, feitas sob uma lógica não mercantilista e com fundamentos sociais, ambientais e políticos. Os produtos ali comercializados têm origem na região da qual é oriundo, o Rio Grande do Sul, respeitam o processo tradicional de produção, que com a industrialização do processo e com os “lobbys” da indústria exploradora do mate, nos anos 70 e 80 através da lei (com questões relacionadas com a higiene e saúde pública), acabaram com a produção e transformação artesanal do mesmo, até ao ponto que hoje não há regulamentação que permita a um fazendeiro colher, transformar e vender o seu produto. Aqui reside a ambição principal de Fabrício que, na procura da valorização do caráter etno-ambiental da produção do mate, está hoje em parceria com a primeira família no sul do Brasil, apoiando o reflorestamento e a legalização do processo artesanal, para que em breve este processo possa voltar novamente à legalidade.

 

São produtores locais no estado do Rio Grande do Sul, que de uma forma tradicional e seguindo os preceitos da produção segundo a sabedoria Guarani, produzem e vendem as suas colheitas, garantindo a qualidade artesanal e o respeito ambiental pelo meio. Além disso a troca comercial direta, evita o uso de intermediários, que normalmente são aqueles que acrescentam mais valor acrescentado ao produto. É exportado para a Europa através de um preço ajustado diretamente entre produtor e vendedor, sendo benéfico para ambas as partes. Em Berlim, no Meta Mate são vários produtos transformados de mate que figuram nas prateleiras, sendo que uma das filhas prediletas deste projeto é a cerveja Mier, que é comercializada com direitos “Creative Commons”[2], uma forma de licenciamento a nível global de produtos, nos quais são mantidos os direitos de autor e atribuídos a sua autoria, mas nos quais os “licenciados” têm o direito de copiar, distribuir, exibir e executar a obra e fazer trabalhos derivados dela. Apesar da maior parte dos produtos licenciados "CC" estarem disponíveis gratuitamente, alguns licenciadores cobram um acesso inicial às suas licenças. No entanto depois de ter pago essa cobrança inicial, pode-se fazer o uso do produto sem pagar taxas adicionais.[3]

 

O Meta Mate revela-se um encontro do mate com as suas origens, mas também com novas culturas. Esta mais valia descoberta pelo povo Guaraní, teve a condenação dos colonizadores europeus, pela ação dos padres jesuítas, que no século XVI a consideraram uma “erva do diabo”, que mais tarde a viriam a aceitar “não só devido às suas propriedades nutricionais, mas também para reduzir o uso do álcool entre a população e baixar o alcoolismo”[4].

 

Pela atitude e o envolvimento pessoal e político, Fabrício vivenciou mais um muro que tentaram construir na sua vida: no ano de 2013, aquando do envolvimento político para as eleições municipais, pelo Partido Pirata, ganhou um simbólico bilhete de avião de um partido de extrema-direita (NPD) para casa. Muros fracos para gente forte que procuram nesta cidade construir a liberdade mas tendo ainda para isso que continuar a derrubar os muros.

 

 

Texto: Pedro Monterroso

 

[1] Referência à música “Winds of Change” de Scorpions

[2] https://wiki.creativecommons.org/Baseline_Rights

[3] https://wiki.creativecommons.org/Frequently_Asked_Questions

[4] http://pt.wikipedia.org/wiki/Erva-mate

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Pedro Monterroso

Pedro Monterroso, nascido em 1984 e natural de Amarante, uma pequena cidade no norte de Portugal. Vive em Berlim, é educador e trabalha numa escola do ensino básico bilíngue. É formado em Sociologia e esta ciência é um dos seus maiores fascínios, mas tem muitos outros. O seu maior sonho é poder voar como o Peter Pan.

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