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O menino, o dragão e a neve

 

Em tempos de máscaras que negam sorrisos e de distâncias que afastam abraços, uma criança sorriu em Berlim. O menino gargalhou e se divertiu muito, vestindo uma roupa azul com desenhos brancos e amarelos que pareciam iluminá-lo. Sorriu como fazem todas as crianças, todos os dias. Mas em tempos como esses, suas risadas romperam silêncios e tocaram corações.

Eram cerca de três horas da tarde de uma terça-feira e uma inesperada neve banhava as ruas berlinenses nesse começo de primavera. Em uma das estações de bondinho, algumas pessoas voltavam para casa depois de um breve passeio ao ar livre, enquanto outras iam ou retornavam do trabalho.

“Schnee, Schnee, viel Schnee!”, começou a gritar o menino, ao lado dos pais, assim que a neve engrossou sua cortina de gotas translúcidas. Ali na estação, cinco ou seis adultos não conseguiram disfarçar a empatia com aquele momento. O menino continuou se divertindo com a descoberta, a dar as mãos a cada gota, a dar braços e abraços na neve, fazendo uma coreografia inimaginável para um dia qualquer. De repente, todos nós sorríamos. A criança exclamava e se divertia ainda mais.

“Neve, neve, muita neve!”, continuou o menino, em alemão. Driblados pela pureza daquele balé infantil, os adultos riam a ponto de encher os olhos de lágrimas. Um sorriso até pulou para a frente da máscara de uma senhora e eu quase assisti aquela vovó abraçar o garoto mágico. Encantado com a neve, ele correu para uma área descoberta da estação e continuou a brincar com as gotas geladas que caíam do céu.

O pai ou a mãe o advertiram, pedindo que não se afastasse muito. Ele parou onde estava, mas continuou se divertindo, a dar as mãos a cada gota e abraçar a neve em um bailado cheio de pureza. Só nesse momento, percebi que até um dinossauro verde que ele carregava nas costas, em forma de sacola, sorria e espichava uma viva língua vermelha para nós, que os assistíamos.

O garoto de 4 ou 5 anos continuava pulando, festejando, dançando com a neve: “Schnee, Schnee, viel Schnee!”. O dragão, ali pendurado em seu corpo, parecia acompanhá-lo entusiasmado, cúmplice daquele ritmo feliz. Lembrava uma cena de cinema! Chegou o bondinho e o menino embarcou com os pais. Levou junto seu amigo verde da língua vermelha e alguns adultos, que seguiram no mesmo carro.

Eu voltei a mim, ao meu cotidiano, e me dei conta de que a magia daquele momento tão curto continuou a brincar com a neve. Quem esperava o próximo bondinho havia respirado fundo e se renovado. Por alguns instantes, o menino e sua descoberta das coisas simples nos fizeram afrouxar o coração, esquecer as máscaras e as distâncias... Ele havia nos lembrado que coisas incríveis acontecem o tempo inteiro. Basta acreditar que elas estão sempre por perto.

O menino da roupa iluminada e seu amigo verde vão ganhar mais essa batalha, eles merecem! Em tempos de máscaras que escondem sorrisos e de distâncias que negam abraços, são as crianças que brincam com a neve que vão nos ajudar a vencer. Quem sabe, da próxima vez que nevar na primavera de Berlim, bailaremos todos juntos uma coreografia mágica: os adultos, as crianças, o menino e o dragão.

Texto e Foto: Enio Moraes Júnior

Enio Moraes Júnior

Enio Moraes Júnior é um jornalista e professor brasileiro. Doutor em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (Brasil), vive em Berlim desde 2017. Escreve também no próprio website

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