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Mayra Andrade: “Sinto as coisas mais fortes quanto canto em crioulo”

Foto: Mayra Andrade © Vanessa Filho

Mayra Andrade é a voz mais doce de Cabo Verde, a terra que leva no coração para onde quer que vá.

Depois de “Navega”, “Stória, Stória” e “Studio 105”, lançou, no final de 2013, “Lovely Difficult”, um disco diferente dos primeiros que mostra a sua maturidade e evolução e que já foi chamado de pop tropical.

A sua identidade muito própria e o seu percurso (que se diferencia no panorama da música cabo-verdiana) levaram-na a conquistar os palcos dos quatro cantos do mundo. Agora é a vez de pisar o do festival Wassermusik – Lusofonia, na Haus der Kulturen der Welt, em Berlim.

A Berlinda esteve à conversa com a artista que nos falou do seu último álbum, das suas paixões além da música e, claro, de Cabo Verde. Leia, de seguida, a entrevista completa.

BERLINDA (B): Como descreves o “Lovely Difficult”?

MAYRA ANDRADE (M.A.): Este disco nasceu de uma necessidade muito orgânica de alargar as minhas fronteiras. Vivo em Paris há 12 anos e este é o meu terceiro disco de inéditos. A ideia foi criar um “espaço” para os encontros musicais que vivi ao longo dos últimos anos. Este é um álbum cabo-verdiano (porque eu sou cabo-verdiana e inclui algumas músicas em crioulo) mas, ao mesmo tempo, é um trabalho com um som mais moderno e cosmopolita do que os anteriores. Já o chamaram, por exemplo, de pop tropical. É um pouco difícil de definir, mas a ideia era essa.

B: Porque escolheste o nome “Lovely Difficult”?

M.A.: É uma alcunha. O meu ex-namorado diz que eu sou lovely mas difficult… E como este é um disco muito pessoal porque compus mais, falo de coisas mais pessoais e outras relacionadas com o meu percurso e a minha vivência cá (Paris)…achei que um nickname ficava bonito. Além disso, gravei o disco na Inglaterra e lovely é uma palavra que os ingleses utilizam muito (eu até gozava com eles por causa disso…).

B: Como tem sido a aceitação do álbum?

M.A.: Fiquei muito surpreendida com a reação positiva das pessoas, sobretudo em Cabo Verde, que era onde eu tinha receio que não percebessem bem a minha escolha… mas tem sido muito bem aceite. O grande desafio era que as pessoas não deixassem de me reconhecer no som e nós conseguimos fazer isso. As pessoas dizem-me “és tu, mas um tu diferente… um tu com mais qualquer coisa” e isso deixa-me feliz!

B: Exceto “Rosa”, todos os temas do teu último trabalho são sobre o amor. Porquê?

M.A.: É uma coincidência. Foi um jornalista que reparou nisso… eu nunca tinha reparado, mas fica muito bem, até porque no “Lovely Difficult” podemos encontrar as palavras Love e Cult, o culto do amor. São coincidências muito felizes que funcionam.

B: Cantar em línguas como o francês e o inglês é uma forma de mostrares a tua universalidade?

M.A.: Para ser sincera, acho que o crioulo tem-me aberto mais portas do que o inglês, por ser a língua que eu domino e porque sinto as coisas de forma mais forte quando canto em crioulo. As músicas que canto em inglês e francês foram-me propostas e eu adorei. Neste disco, não quis impôr a limitação da língua, a ideia foi alargar as fronteiras. Afinal, se eu gosto das músicas, não vou deixar de cantá-las só porque são em inglês…

B: O que estás a preparar para o concerto do festival Wassermusik – Lusofonia, em Berlim?

M.A.: Cantarei, essencialmente músicas do meu último trabalho, mas também algumas do primeiro disco que foram realmente importantes e marcantes na minha carreira. As pessoas vão identificar e gostar. Tudo isso com arranjos novos e uma banda nova da qual estou muito orgulhosa. Vão gostar!

B: Consideras que este tipo de festivais são importantes para mostrar a música que se faz em Portugal e nos países onde se fala português?

M.A.: Até prova do contrário, acho que a música é o melhor meio de reunir as pessoas e uma boa forma de levá-las a descobrir uma cultura e um país. Por exemplo, conheço pessoas que não conheciam Cabo Verde e decidiram ir lá porque foram “tocados”pela música cabo-verdiana. A lusofonia precisa encontrar-se mais além das suas próprias fronteiras.

B: Que nomes te entusiasmam na música portuguesa do momento?

M.A.: Gosto muito do António Zambujo. A Ana Moura é outra das cantoras que considero incrível, tal como a Mariza. Gosto do Camané e continuo a ouvir os discos do Bernardo Sassetti.

B: Durante a tua infância viveste na Alemanha. É especial para ti voltar e cantar neste país?

M.A.: Eu vivi na Alemanha (em Bona) dos 11 aos 14 anos e foi numa etapa importante da minha vida. Apesar de não falar alemão, porque estudei em escolas francesas e belgas, é especial cantar aí. Aliás, até já cantei num teatro que era mesmo ao lado da casa onde eu vivi. E foi ai que vi alguns concertos de artistas que admiro, como Cesária Évora, Carlinhos Brown, Daniela Mercury….

B: Contas sempre com a colaboração de vários músicos e autores nos teus discos. É um prazer conjugar talentos?

M.A.: Acho que não há outra forma de fazer música. A própria música provoca encontros. Foi assim que fiz imensos amigos que são compositores, cantores, músicos… Em qualquer processo criativo há sempre um momento de solidão. Antes/depois desse momento, há sempre uma união com os outros. No meu caso, alimento-me mesmo muito do que as outras pessoas me dão.

B: Já cantaste com diversos nomes importantes do mundo da música. O que significa para ti subir ao palco com pessoas que admira?

M.A.: É um prazer! Poder pisar palcos com pessoas que são referências para nós, é uma espécie de recompensa. Nesse sentido, sinto-me uma sortuda!

B: Que tipo de música costumas ouvir?

M.A.: É sempre difícil responder a essa pergunta porque eu ouço de tudo… desde world music, raggae, hip hop, flamenco… A música que me acompanha fora do meu trabalho tem muito a ver com o meu estado de espírito e por isso é muito variada.

B: Além da música, quais são a tuas outras paixões?

M.A.: Estar com a minha família, estar com os meus amigos… estar em Cabo Verde! Viver momentos genuínos com pessoas autênticas. Emocionam-me muito esses encontros. É uma sorte viver de uma paixão (a música) e viajar pelo mundo… Mais do que as viagens, os encontros apaixonam-me.

B: Gostavas de ficar para sempre na história musical de Cabo Verde, tal como Cesária Évora?

M.A.: Gostava muito e espero que aconteça! Faço as coisas de forma a poder orgulhar-me. Fazer música com verdade é muito importante. Quero olhar para trás e orgulhar-me do meu trabalho. Para mim, é um grande privilégio ser de um país onde a música tem muita importância. As pessoas referem-se muitas vezes a Cabo Verde falando da música. Isso é uma coisa muito bonita! E claro, é um enorme prazer para mim ajudar as pessoas a descobrirem a minha terra através da minha música.

B: O que indicarias se te pedissem dicas para uma viagem a Cabo Verde?

M.A.: Não vou indicar praias, porque há praias maravilhosas em muitos sítios e Cabo Verde é tão pequeno que é impossível não ver e ir à praia. Das 10 ilhas, sugiro passar, pelo menos, por quatro: a ilha de Santiago (muito especial…é a minha!), a ilha do Fogo (que tem uma cultura regional muito forte), passar por São Vicente (onde fica Mindelo, a terra de Cesária Évora) e de lá apanhar um barco e para Santo Antão (uma das ilhas mais montanhosas e bonitas do arquipélago). Nessas quatro ilhas é possível encontrar paisagens diferentes, comida excelente e particularidades especiais e encantadoras.

B: Quais os teus planos para o futuro?

M.A.: Não penso muito no futuro em relação à música. Sou uma pessoa racional, tenho muito respeito pela música e acredito que o meu destino é cantar. Acredito nisso de uma forma tão forte que acabo por não fazer grandes planos na música. Gosto de me deixar levar pela minha sorte e pelas coisas que consigo com o meu trabalho. Não tenho nenhuma ideia sobre o que será o meu próximo disco. Ainda este ano tenho alguns projetos interessantes, nomeadamente uma homenagem a Cesária Évora que será feita no México com outros artistas cabo-verdianos de quem gosto. Quero aproveitar o momento!

Concerto

Sexta-feira, 25 de julho de 2014 às 20h30

Haus der Kulturen der Welt

John-Foster-Dulles-Allee 10

10557 Berlin

 

 

  

 
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Fabiana Bravo

Nasceu na ilha Terceira, Açores, em 1987. Licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade Técnica e Mestre em Novos Media e Práticas Web pela Universidade Nova de Lisboa, vive e trabalha em Berlim desde maio de 2014.

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