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04/04/2019

Foto: © Promo

Noite de fado na Konzerthaus em Berlim. Nem mesmo uma sala de espetáculos com duzentos anos de história consegue ficar indiferente a uma artista como Mariza.

 

A casa estava cheia de alemães, mas o burburinho lusitano faz-se sempre sentir. Logo que encontrei o meu lugar nesta bela sala, ouvi os: 'boa noite, como está?', 'já é a quinta vez que a vejo, sabe?', ou a mais esperada de todas, 'hoje em dia não existe melhor que a nossa Mariza'. Do meu lado esquerdo sentou-se uma senhora alemã, com alguma idade e desconfiada de início, e fiquei curioso de como sentiria o nosso fado. Ambos estávamos ansiosos que começasse. A campainha de entrada tocou, as luzes brilhantes iluminadas por candeeiros do século dezoito apagaram-se, e toda a desconfiança, ansiedade e expectativa se dissiparam. No palco entraram cinco homens vestidos de preto. Um na percussão, dois na guitarra, outro no acordeão e, finalmente, sem ele nada seria igual, o da guitarra portuguesa.

 

Após uma pausa de um minuto digna de uma diva, a grande fadista entrou. Envolta num vestido de diamantes e encaixando perfeitamente nesta casa com tanta história e brilhantismo, Mariza pisou o palco. A primeira canção foi em total acústico, sem ajuda de máquinas ou efeitos, um “Fado da Loucura” que me deu arrepios na espinha e encheu-me a alma. Logo à partida tornou-se impossível de resistir. À voz portuguesa que encheu esta sala berlinense, à presença perpetuada na eternidade desta artista que, afinal de contas, não é só portuguesa, é do mundo. Posso jurar a pés juntos que há bastante tempo que não me sentia tão calmo e sereno e, ao mesmo tempo, tão completamente português. O espetáculo podia acabar mesmo ali que eu ficaria satisfeito. Mas é claro que não ficou por aí, depois de amealhar toda a audiência na palma da mão com uma só canção, Mariza pegou em todos nós e levou-nos dentro da sua alma.

 

Como a própria avisou, transportou-nos numa viagem aleatória mas cheia de sentido, por entre 20 anos de carreira e amor infinito para dar. Deu-nos tudo o que queríamos, e eu até podia descrever ou enumerar as canções que foram cantadas, mas ver Mariza é como fazer uma viagem transcendental sobre a própria alma. É como sentir a saudade de um passado longínquo que se evapora por uma melancolia tão portuguesa, uma melancolia que com ela se transforma em felicidade, numa celebração do amor que é inevitável e que o fado cantado por esta diva tão bem nos traduz.

 

A tal senhora alemã ao meu lado bateu a mão na perna durante hora e meia sem parar. Sorriu involuntariamente a todas as palavras cantadas numa língua que provavelmente nunca entenderá, e talvez não precise, apenas tem de a sentir. Também do alto do meu lugar nas varandas laterais consegui sentir o público totalmente presente, sem telemóveis, sem flashes, sem conversa de ouvido que traz sempre constrangimento. Foi aí que percebi a façanha de uma artista única. Durante pouco mais de hora e meia, todos nós, sem exceção, estávamos presentes. Sem pensar nas trivialidades da vida, problemas pendentes, contas por pagar ou palavras por dizer. Apenas presentes e atentos, ao som das guitarras que enfeitiçam, o acordeão que inteligentemente nos leva à infância, e à percussão profunda que mais parece magia. Parece tão simples estar aqui, no agora, mas cada vez mais não o é. Hoje consegui, aliás, todos conseguimos, por causa de Mariza.

 

Mesmo antes do encore final, o meu momento favorito surgiu. Mariza, no alto dos seus sapatos e esplendor, cantou o “Fado da Primavera” com tanta paixão, tanto ardor, tanto sentido e tanto amor, que até as paredes estremeceram e perguntaram-se a si mesmas se alguma vez tinham ouvido uma voz assim. Eu nunca tinha ouvido, disso tenho a certeza. Todos nos levantámos para aplaudir, uma ovação inevitável e natural como o próprio fado. O arrepio desta vez percorreu o meu corpo lusitano e levou-me a um lugar que já não conhece pátria ou nacionalidade. É um lugar que está acima disso tudo. Um lugar para onde Mariza me levou e de lá não quero mais sair.

 

Texto: Hugo Sousa

Todas as noites são noites de fado

Hugo é um guionista e realizador nascido no Porto, Portugal. Depois de estudar Fotografia na sua cidade natal, trabalhou em vários filmes na Holanda e na Alemanha. Vive actualmente na capital alemã e é, entre outras coisas, apresentador do Shortcutz Berlin. Também escreve: em 2014 publicou um livro de poesia em português, intitulado "Crónicas do Vazio". Contribui pontualmente com conteúdos para o magazine Berlinda. 

Hugo Sousa

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