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27/02/2019

Foto: © O2 Filmes

“Marighella” - Um filme forte e visceral, mas movido por amor

O filme estreou no passado dia 14 de fevereiro no Berlinale Palast com uma numerosa comitiva presente. Entre elenco, membros da produção e a própria neta de Carlos Marighella, apresentaram-se mais de 20 pessoas na antecipada estreia deste filme, que estava fora da competição. Esta antecipação foi muito devida ao envolvimento do veterano da Berlinale, Wagner Moura, que se declarou como não sendo um realizador, mas sim “um actor que realizou um filme”.

A relevância de "Marighella" na política atual brasileira

“Marighella” tem andado nas bocas do mundo por diferentes motivos: é o filme de estreia de Wagner Moura enquanto realizador; a sua forte carga política e a controvérsia que daí advém; a relevância do tema tendo em conta o governo brasileiro atual... mas o que é de pasmar é que este nome não andasse já nas bocas do mundo e poucos saibam quem Carlos Marighella foi e o que ele significou para a História do Brasil.

 

A Berlinda esteve presente na conferência de imprensa do filme, onde o ator Humberto Carrão elucidou “Tem gente que ama o Marighella no Brasil, tem gente que o odeia, mas eu acho que grande parte dos brasileiros não sabe quem é o Marighella. E isso não é por acaso. Isso é um projeto já muito antigo e muito bem-sucedido no Brasil – de não discutir a sua História, a História dos seus, principalmente nas escolas particulares. A gente fala muito da Revolução Francesa, mas não fala nada das revoluções dos negros no Brasil. O que acontece é que, nos últimos anos, isso vinha sendo desorganizado, de novo, graças aos professores negros, ao movimento negro, à política de afirmação, de inclusão. A História do Brasil estava a ser conversada, discutida. E quem entra agora, entra com a criminalização da História do país. Neste momento no  Brasil, os professores já são vigiados e já são perseguidos por discutir a História. Então eu acho que esse filme é muito importante por isso. Ele é um convite a um olhar mais complexo para o país. A História de um país não cabe não só no seu hino, como também não cabe num Tweet, nem num Whatsapp ou Meme”.

 

É impossível nos afastarmos das questões de política atual no Brasil e foram colocadas várias perguntas por parte da imprensa internacional em relação ao governo brasileiro.  Wagner Moura não se acanhou, nem falou com meias-palavras, começando por esclarecer que “O nosso filme é maior que o Bolsonaro. Não é uma resposta ao seu governo, mas obviamente um filme que é um dos primeiros produtos culturais da arte brasileira que se apresenta em contraste óbvio ao grupo que está no poder atual no Brasil. Não queremos sugerir que as pessoas peguem em armas, ou até que a luta armada é a melhor forma de combater um regime ditatorial. Mas ao mesmo tempo também não julgamos a decisão daqueles que acreditaram ser essa a melhor coisa a ser feita numa altura em que todos os direitos do povo eram negados”.

 

Ainda que se tenha sentido tensão na sala, Moura continuou e fez a importante alusão à morte e à memória de Marielle Franco “O Estado brasileiro é racista. Marighella foi morto em 1969. Um homem negro, revolucionário, de esquerda. Ele foi assassinado pelo Estado, dentro de um carro há 50 anos. E 50 anos depois de Marighella, uma vereadora no Rio de Janeiro, também negra, de esquerda e defensora dos direitos humanos, foi assassinada dentro de um carro provavelmente por agentes do Estado também. A violência cometida pelo Estado brasileiro contra revolucionários nos anos 60 é a mesma cometida hoje nas favelas contra os negros. É a mesma coisa. Continuam a torturar e a matar. A polícia no Brasil não é treinada para proteger os cidadãos, é treinada para proteger o Estado. E o Estado escolhe quem são os seus inimigos. Temos um presidente que é abertamente homofóbico e racista e foi o Brasil que o elegeu”. Moura fez questão de sublinhar este paralelo temporal, que não parece ser uma coincidência com o contexto atual.

 

Elenco e prestações marcantes

 

Em termos de performance e entrega ao papel, Seu Jorge é, mais uma vez, incontornável. Admite ser um grande fã de Wagner de Moura e do seu trabalho “Quando ele me convidou para participar no seu primeiro filme enquanto realizador e desempenhar este papel, deste homem tão importante para o Brasil, para mim foi um honra. Investi todo o meu amor e a minha alma neste projeto“. Vemos Seu Jorge encarnar o guerrilheiro Carlos Marighella com grande dedicação, neste filme que considera ser essencialmente sobre amor e sacrifício.

 

Outra prestação que não pode deixar de ser mencionada é a de Bruno Gagliasso enquanto inspetor Lúcio. O ator desempenha o papel do homem forte do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) de São Paulo, encarregado de apanhar Marighella. “Toda a história tem a sua escória. O Lúcio é a escória dessa história”, o ator admite que um grande desafio retratar este personagem e que foi extremamente difícil encontrar humanidade nela. Mas explica a relevância da história de Marighella nos dias que correm, “é muito importante falar do passado vivendo no presente. Para quem não sabe, a minha filha é negra e o que mais fiz (no filme) foi bater nesse cara (Seu Jorge) e xingar ele. É muito difícil fazer isso para mim. Fátima Toledo (acting coach) me ajudou, através do amor, para que eu odiasse ele. No começo eu disse que não ia conseguir dizer essas coisas todas que eu tinha que dizer. A minha filha é negra e passou por isto no Brasil. Eu consegui-o através do amor, porque eu sei da importância desse filme para a minha filha no futuro”, terminou por dizer o ator, já emocionado.

 

Sucesso a nível internacional e dificuldades de exposição no Brasil

 

A data de estreia no Brasil é incerta, mas a produtora Andrea Barata Ribeiro está decidida a lançar “Marighella” no Brasil custe o que custar: “A nossa distribuidora acha que este não é o momento adequado para estrear o filme, nós achamos que é totalmente adequado”. Seguiram-se os assobios e gritos de apoio pela parte da comitiva de “Marighella” que não estava sentada no painel de discussão. “Gostaríamos de o fazer na sequência da Berlinale e vamos lutar por isso. Se for necessário, iremos fazê-lo de forma independente, através de crowdfunding, mas vamos mostrá-lo no Brasil de certeza”.

Ao ser questionado se o filme também seria mostrado em espaços alternativos, em zonas mais interiores do Brasil, o realizador rematou “Claro que sim, não faria sentido que as pessoas pelas quais Marighella lutou não tivessem a oportunidade de ver o filme”. E termina ainda por relembrar a máxima importância do passado não cair em esquecimento, de nunca deixarmos de estudar a nossa História e de aprendermos com ela: “Vai ser muito difícil estrear este filme no Brasil. Vamos enfrentar uma forte oposição. Tudo se resume às narrativas. Esta narrativa no Brasil já se está a alterar, as pessoas já começam a referir-se ao Golpe de 64, como sendo o Movimento de 64. Há uma mudança na semântica. E quando se estuda a história do fascismo no mundo é sempre assim que começa: com a criminalização da arte, do pensamento crítico e as alterações à semântica. Este filme está aqui para provar que sim, a ditadura existiu e foi horrível e que houve pessoas que foram corajosas o suficiente para lutar contra isso”.

 

Ficamos a aguardar a data da estreia brasileira deste forte híbrido de géneros cinematográficos, que promete pelo menos dar uma lição de História pelas plateias do país, tal como anda a fazer pelo resto do mundo.  

Mariana Lima

Mariana é fascinada por línguas e expressões idiomáticas. Tradutora de profissão, tem um espírito de curiosidade aguçado. Por vezes sente-se culpada por não aproveitar melhor a oferta cultural da cidade. Chama casa a Berlim desde 2014. 

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