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20/05/2019

Foto: ©Promo

O escritor brasileiro esteve em Berlim nos dias 2 e 3 de Maio para uma palestra sobre a Democracia no Volksbühne e uma leitura de “O livro das impossibilidades” (Inferno Provisório: Volume IV) na associação Schwarze Risse em Kreuzberg.

Luiz Ruffato foi um dos autores convidados do Festival Berlinda em 2012, tendo participado numa leitura e no debate Literatura Lusófona no Contexto Global, juntamente com Marta Lança (Buala) e Michael Kegler (tradutor). O autor de “Eles eram muitos Cavalos” ou “Estive em Lisboa e lembrei de você” falou à Berlinda sobre a situação política do Brasil, o seu papel activo na defesa da Democracia, a sua relação com a Alemanha e o seu mais recente romance, “Verão Tardio”, acabado de lançar no país (7 de Maio em São Paulo e 9 de Maio no Rio de Janeiro).

 

 

A última vez que conversámos foi em 2012 no contexto do Festival Berlinda. Não sei se ainda se lembra...

Sim, sim, claro.

 

Voltou à cidade por diversas vezes desde então. Quando foi a última vez que esteve em Berlim?

Deixa eu pensar aqui… provavelmente em 2017.

 

Nota diferenças de cada vez que vem? O que gosta mais em Berlim?

Eu acho Berlim uma cidade fantástica. Porque, primeiro, a energia é muito boa. Inclusive talvez porque tenha muitos jovens de vários lugares do mundo. Isso faz com que a cidade tenha uma energia realmente muito diferente e muito boa. O que eu noto é que, de todas as vezes que eu fico um pouco sem vir e volto, a programação cultural é cada vez melhor. Inacreditável. Nossa, você tem tudo o que você quiser nessa programação cultural. Essa programação é cada vez mais diversificada. Enfim, é isso que me deixa fascinado com a cidade, para além de várias outras coisas, claro. Mas isso realmente é fantástico.

 

Como surgiu o convite para vir a Berlim dar a palestra sobre Democracia e  apresentar “O livro das impossibilidades” em Berlim?

É curioso isso, Rita. No início deste ano eu fui procurado por uma editora italiana que queria fazer uma versão em italiano de um livro em inglês chamado “Strongmen”, que é uma espécie de ensaios sobre a nova extrema direita no mundo. Eles fizeram uma consulta ao editor original para perceber se poderiam incluir outros ensaios. Eles sugeriram então o meu nome para escrever sobre o Bolsonaro. Eles (editor original)  aceitaram, acharam que a ideia era legal, e me encomendaram esse texto sobre o Bolsonaro. Conversando com Michael Kegler, que é meu tradutor (na Alemanha) mas muito mais do que meu tradutor, ele é meu amigo, mandei esse texto para ele ler. Porque ele tem essa experiência e um olhar europeu, e eu pedi para ele ler o texto com esse olhar. Ele disse “poxa eu gostei demais do texto e talvez a Blätter für deutsche und internationale Politik se interesse em publicar o texto”. Eu consultei a editora italiana e eles falaram que não tinha problema. Então na edição de Março saiu na revista e em Abril saiu no livro, lá na Itália. O pessoal da revista gostou muito do texto e perguntou se eu não viria a Berlim para esse projecto “Democracy Lecture”. Não para falar sobre esse texto, mas para tentar construir uma narrativa a respeito de como o Bolsonaro ganhou a eleição, como ele chegou ao poder. Como a gente já tinha esse livro pronto para ser lançado, unimos esforços e aí cá estou eu.  

 

Voltando à palestra sobre a Democracia. Porque é que é tão importante falar deste tema actualmente?

O Volksbühne estava absolutamente lotado, o que para mim foi até uma surpresa. Achei que o tema iria despertar para muita gente, mas nem imaginei, porque o espaço é muito grande e no entanto estava lotado. Depois da minha conferência houve uma mesa, da qual participaram três mulheres, que eu achei importantíssimo. Foram três mulheres, eu falei: “Isso é impossível no Brasil”. Porque o Brasil é um país machista até hoje. Três mulheres e um homem no Brasil é uma configuração absolutamente impensável. Nós discutimos a respeito do que foi falado na conferência, mas abriu muito a respeito de conceitos mesmo: conceito de democracia, fascismo, populismo. Acho que o público reagiu muito bem. Eu acho que praticamente ninguém saiu... isso é importante, é um bom termômetro. (risos) Esse tema é importante de ser discutido nesse momento porque eu acho que essas coisas acontecem como ondas. No alemão têm um conceito que eu acho muito bom para definir isso que é o Zeitgeist: esse espírito do tempo que faz com que coisas semelhantes surjam em lugares diferentes. É exactamente isso que estamos observando hoje com o movimento da extrema direita. Há uma discussão se isso é fascismo ou não, mas não importa essa discussão, importa o ressurgimento da extrema direita na Europa, na Índia, no Brasil. Enfim, em vários lugares. Nos próprios EUA... É muito importante que nós, que temos um qualquer tipo de posicionamento humanista contrário a este posicionamento de extrema direita, a gente esteja discutindo e conversando formas de resistir a essa nova onda.

 

Acha que os brasileiros em Berlim estão atentos à realidade política do Brasil?

Na verdade, como estava muito cheio, e logo na sequência eu fui assinar alguns exemplares de livros, não tive oportunidade de dar muita atenção às pessoas que me procuravam. Era muita coisa para fazer ao mesmo tempo! (risos) Mas as pessoas com quem conversei foram muito solidárias e estavam claramente empenhadas, não só em discutir isso, como também em arrumar formas de participar de uma resistência a essa nova realidade brasileira.

 

Em Berlim Haddad obteve 1.557 votos (73,7%) contra 557 (26,3%) de Bolsonaro… Os brasileiros em Berlim são diferentes dos brasileiros emigrados em outros países? Acha que há uma característica particular no seu pensamento, que se reflectiu no momento de votar?

Olha, eu acho que tem uma característica sim, que seria, digamos, a mais visível. Berlim é uma cidade culturalmente para o mundo. Eu acredito que a população brasileira, jovem, veio para Berlim buscando exactamente essa diversidade. Ao contrário de outras cidades, que as pessoas talvez tenham procurado por contra de outros interesses. Eu acho que talvez o facto de Berlim ser essa cidade libertária - e isso atrai muito as pessoas que pensam assim - talvez tenha moldado esse pensamento não-bolsonariano.  

 

A questão sobre a situação política no Brasil é inevitável. Qual é a sua opinião sobre este tão discutido período da História do país? A Democracia está em risco no Brasil?

A Democracia está claramente em risco no Brasil, porque você tem hoje um governo com um perfil absolutamente autoritário, que chegou a dizer, literalmente, que a Democracia no Brasil é uma prerrogativa das Forças Armadas. Enquanto as Forças Armadas quiserem, o Brasil tem Democracia. Ora isso é uma ameaça velada. No mínimo uma ameaça velada. Mas existem outros pontos que demonstram o desprezo deste governo pela democracia, ou pelo exercício da Democracia. A desimportância que ele dá ao Estado de Direito. Quando ele incentiva os alunos a filmar os professores na sala de aula que estariam, segundo os alunos, cometendo algum tipo de propaganda ideológica. Ou mesmo quando ele mina as secretarias dedicadas à diversidade nos vários ministérios. Ou quando ele acaba com o Ministério da Cultura, dizendo que a cultura não é importante. Ou quando ele ameaça diminuir o número de cursos de filosofia, dizendo que não é importante. Portanto, é evidente que o governo Bolsonaro é tóxico para a Democracia. Inclusive porque ele tem mais de 130 militares nos primeiros escalões do governo dele. Isso nem na época da ditadura houve. Esse número de militares no Governo, isso não existia. Então, é evidente que temos que ficar muito atentos ao que está acontecendo.

 

Mas não terá começado com Bolsonaro, muitas coisas já vinham de trás: racismo, machismo, homofobia, corrupção, classismo, um dos maiores índices de violência do mundo, posse de armas descontrolada... Tudo isso já existe no Brasil há muito tempo.

Havia até então os governos que combatiam o racismo, o machismo, a homofobia, o classismo. E agora o que nós temos é um governo que, não só tem desprezo por esses assuntos, como até mesmo ele avaliza essa cultura da intolerância e do ódio. Bolsonaro fala por exemplo que as mulheres não devem ganhar o mesmo que os homens. Ou que os negros são inferiores aos brancos. Ou que os índios no Brasil estão muito mal acostumados porque eles têm uma vida óptima… enfim, uma pessoa que age dessa maneira está incentivando a cultura da intolerância e do ódio. Embora isso não tenha nascido com ele, é evidente que é claramente uma contribuição tóxica e perversa desse governo do Bolsonaro.  

 

Consegue descortinar alguns aspectos positivos ou algum ensinamento a reter? Movimentos de resistência? Personalidades interessantes?

Então, a grande questão que se coloca hoje é a seguinte: o governo do PT, que teve méritos indiscutíveis, também teve alguns deméritos. Na minha opinião, o governo PT instrumentalizou os movimentos sociais e os sindicatos. E de alguma maneira isso evadiu muito o poder de resistência e o poder de mobilização das marchas populares durante muitos anos. E isso está reflectindo agora. Nós estamos levando muito tempo para reagir aos absurdos que estão acontecendo porque nós estamos muito desmobilizados. Então pode ser  - e aí estou tentando achar um lado positivo nesse movimento (risos) - que o lado positivo seja que nós tenhamos a consciência que nós necessitamos claramente e rapidamente nos organizar num movimento em relação à resistência a esse governo de extrema direita. Existem claros movimentos específicos - movimentos dos negros, das mulheres ou da comunidade LGBT -  mas são movimentos dispersos ainda. Então, tentando achar algo positivo nisso tudo, talvez venha daí: se a gente conseguir fazer com que os movimentos que estavam paralisados, consigam se reunir, se reencontrar e fazer um movimento bastante grande de resistência ao governo Bolsonaro.

 

Disse em entrevista que era impossível ser positivo vivendo num país como o Brasil e disse também estar desiludido com ele. No entanto, vive em São Paulo até hoje. Nunca pensou deixar o país, quem sabe ir para a Europa? Ou EUA, o tal país tão admirado pelos brasileiros?

Ora bem, eu não tenho intenção nem interesse nenhum de sair do Brasil, porque esse é o meu país, não é o país do Bolsonaro. Eu acho que tenho um papel qualquer ainda a empenhar nessa tentativa de a gente se conseguir mobilizar em relação à resistência ao governo Bolsonaro. Agora, de qualquer maneira, existe um limite. Esse limite seria se eu me sentir fisicamente ou financeiramente prejudicado pelo governo Bolsonaro, e aí sim talvez eu tenha que pensar em alguma opção, em alguma alternativa. Não é o caso ainda. Embora eu me sinta desconfortável, incomodado, ainda não é o caso de tomar uma atitude mais drástica. Então eu acho que o papel das pessoas que têm algum tipo de compromisso com o Brasil e com a Democracia é de permanecer e de actuar. Agora, evidentemente, é uma opinião minha, pessoal. Isso não é uma crítica de forma alguma às pessoas que tenham saído por se terem sentido de alguma forma ameaçadas.

 

Então sente de alguma forma uma ameaça latente?

É sempre um problema, é sempre uma possibilidade. É como eu digo, neste momento. Me sinto incomodado, mas não me sinto incomodado suficiente para tomar uma decisão dessas. Agora a possibilidade, sim, existe, porque nós não estamos mais vivendo num estado de direito. O facto de o Lula estar preso até hoje - e veja bem, eu não vou defender o Lula de uma maneira cega - mas eu vou defendê-lo no seguinte: ele tinha direito a uma terceira instância. Ele não teve uma terceira instância. Então eu não sei nem dizer a você se ele é culpado ou não pelas coisas pelas quais ele é acusado. A prisão dele neste momento é irregular. Se o Estado brasileiro mantém um vice-Presidente, que não é qualquer pessoa, preso de uma maneira irregular, imagina o que pode acontecer com um cidadão comum. Como eu, sou um cidadão comum. Então eu tenho claro para mim que essa possibilidade existe. Agora, como eu disse, não me sinto ainda ameaçado a tal ponto, mas não acho que isso não seja possível. Eu acho que é possível.  

 

Mantém-se um pouco alerta então?  

Sim, com certeza. Muito alerta, não pouco! (risos)

 

Enfim, a gente vai rindo enquanto pode...

Exactamente, exactamente.

 

Deixando agora de parte o actual governo; sendo o Luiz um escritor assumidamente interventivo, o que acha que deveria mudar na sociedade brasileira para atenuar esses problemas de fundo? Se ocupasse algum cargo político - quem sabe até presidente? - o que gostaria de ver mudado imediatamente no Brasil?

Espera aí, primeiro é o seguinte: não me jogue essa praga! (risos) É a única coisa que eu tenho muita certeza: eu nunca vou ter um cargo político. E, mais ainda, eu nunca vou participar de alguma agremiação política, quero manter a minha liberdade para poder ser crítico a qualquer partido e qualquer Governo. Agora, hipoteticamente, eu quando era jovem estava na universidade e a gente estava no fim da Ditadura e eu tinha uma lista de reivindicações a fazer. Hoje, qualquer governo tem uma única reivindicação a fazer que é exactamente a questão da educação. Coisa que o governo PT, que eu acho que foi o melhor governo da história brasileira, mas nesse ponto falhou de uma forma clamorosa. Eu não sou ingênuo de achar que uma população que tem acesso a um sistema de educação de qualidade ela se torna uma população mais esclarecida. O exemplo disso é a Finlândia, que tem a melhor educação do mundo e tem agora um viés de extrema-direita bastante grande. Mas eu não tenho nenhuma dúvida que a educação proporciona a você possibilidade de você ter um pensamento crítico mais apurado e que portanto você de alguma maneira se torna um cidadão melhor.  Por isso a única reivindicação que eu faria hoje seria exactamente essa: um sistema de educação de qualidade para a formação de cidadãos.

 

O que nos pode dizer sobre a leitura do livro em Berlim?

Então, esse livro, que é o quarto volume do “Inferno Provisório”, é um projecto que eu comecei no Brasil em 2005, que era tentar construir uma história da segunda metade do século XX, na qual eu acho que o Brasil teve uma transformação profunda. De um país agrário para um país industrial e urbano de uma maneira catastrófica. Não é o passar de rural para urbano ou agrário para industrial, mas a forma como isso ocorreu. Neste período você tem uma desorganização completa das cidades e do campo e como isso reflecte nas pessoas e como isso vai afectar a vida das pessoas. “O Livro das Possibilidades” está de alguma maneira ali por volta do anos 70-80. Quando nós temos o Brasil que tem ainda uma população com mentalidade rural mas vivendo em cidades grandes, quase megalópicas, e como esse confronto entre mentalidade desorganiza as próprias famílias e as próprias pessoas. O quinto volume deve sair logo no comecinho do ano que vem e completa essa saga. E acho que vai dar um bom panorama desse momento que o Brasil viveu e que na verdade, a literatura talvez tenha a felicidade de fazer isso; de alguma maneira está contando a história recente do Brasil numa reflexão do que está acontecendo exactamente agora.

 

E sobre o seu mais recente romance “O Verão Tardio”?

O Verão Tardio, que é bem mais recente, ele já trata de um momento mais recente e está sendo lançado no Brasil neste momento. Ele tem o tempo presente de 2016 mais ou menos. Trata de uma experiência, dentro dessa mesma ideia de desorganização das pessoas e das famílias, do fenómeno recente que é do enclausuramento das classes sociais no Brasil. É um homem que volta para a sua cidade natal e ele tem três irmãos, todos de classes sociais diferentes - tem uma irmã de classe média-baixa, uma irmã de classe média-média e tem um irmão de classe média-alta, que por motivos diversos cada um conseguiu mais ou menos melhorar de vida. E como esses irmãos não conversam, não têm qualquer tipo de interesse  ou intimidade uns com os outros, o que eu acho que aconteceu mais ou menos no Brasil recentemente. Sem que fosse intencional, ele descreve um pouco o momento que estamos vivendo.

 

Também terá tradução na Alemanha? Ou noutros países?

Curiosamente, antes de sair no Brasil, [o livro] foi vendido para cinco países: França, Itália, Finlândia, EUA e Alemanha. E como o volume cinco já estava mais ou menos engatilhado para sair, então provavelmente ele nao sai no ano que vem mas sim no ano seguinte…

 

E será uma tradução de Michael Kegler?

Sempre, sempre. Ele nem traduz, ele re-escreve. (risos)

 

Disse anteriormente que ele é seu amigo, mais que seu tradutor...

Nós temos uma relação muito maior de amizade do que trabalho, embora a gente trabalhe muito juntos. Mas hoje nós somos mais é amigos mesmo.

 

É também por ele que mantém uma relação tão estreita com a Alemanha?

Com certeza. Hoje eu considero que a Alemanha é um lugar em que talvez eu tenha um maior número de amigos do que no Brasil.

"Permanecer e actuar" - o compromisso do escritor Luiz Ruffato com a Democracia e o Brasil I Entrevista 

Licenciada em Audiovisual e Multimedia pela ESCS – Escola Superior de Comunicação Social (Lisboa), chegou a Berlim em 2010. Depois de ter participado em vários projectos de voluntariado e iniciado o Shortcutz Berlim, juntou-se à nova equipa Berlinda em 2016 e é desde então editora do magazine, para o qual contribui com vários artigos e entrevistas. 

Rita Guerreiro

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