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Luís Pedro e um mundo para conhecer

Vivendo em Berlim há cinco anos, o engenheiro português é encantado com a diversidade humana e cultural da cidade. Entretanto, não abre mão de viajar e colecionar histórias para contar | Perfil - por Enio Moraes Júnior

“Levanto as mãos e o vento levanta-se nelas”. Ao citar esta passagem de um poema, o português Luís Pedro Vitorino Gomes trazia à tona sua personalidade, seu jeito de ser e revelava os seus maiores sonhos. Neste momento, um abajur iluminava-lhe uma mão, que se movia ao vento. A outra, deslizando entre a testa e o alto da cabeça, ajudava-o a refletir sobre o presente, a lembrar-se do passado e a pensar no futuro.

- Posso conversar contigo em português de Portugal, consegues entender?

Luís Pedro tinha pelo menos seis razões para perguntar sobre o idioma mais adequado para aquela conversa. Ele já viveu no Brasil, onde fez parte dos seus estudos de mestrado. Portanto, além da estrutura europeia da língua portuguesa, comunica-se com facilidade na variante brasileira. Casado com uma cubana, expressa-se também em espanhol. Além disso, estudou inglês e francês e fala os dois idiomas. Como mora na Alemanha desde 2013, domina também o alemão.

Misturando as duas variantes do português, conversamos e comemos pastéis de nata  em uma cafeteria no bairro de Friedrichshain. Ele nasceu em Porto de Mós, uma vila na zona litoral de Portugal, que hoje tem cerca de 25 mil habitantes. Um lugar bucólico, com casas cercadas por uma frondosa vegetação e com imponentes construções medievais, de onde muita gente nem pensaria em partir. Mas Luís Pedro levantou as mãos ao vento e ganhou o mundo. Partiu.

Aos 18 anos, foi estudar engenharia mecânica na Universidade de Coimbra. Durante o mestrado, fez intercâmbio na Universidade Federal de Santa Catarina, na cidade de Florianópolis, no Brasil. Voltou para Portugal, mas a ideia de ficar não conseguiu segurá-lo. Levado por estudos, oportunidades de trabalho ou desafios, antes de viver em Berlim, morou em Chemnitz, no sudeste na Alemanha, no País de Gales, na Finlândia e na Turquia.

O espírito inquieto de viajante também o levou à Rússia, à Dinamarca, à Espanha, à Itália, à Grécia, à Holanda, a Cuba. E por aí vai. “Também fiz muitas viagens à boleia, de carona. Por exemplo, fui visitar um amigo em Cracóvia, na Polônia, depois fui visitar uma amiga em Munique e depois fui para Estrasburgo”.

Há cinco anos, Luís Pedro fez de Berlim seu lugar de pouso e gosta de frequentar as ruas de Friedrichshain, o bairro onde mora. Mas foi nas andanças pelo mundo que descobriu que o segredo da vida está em coisas simples, como encontrar pessoas, fazer amigos e colecionar boas histórias. É exatamente isso que também o atrai na capital alemã: a possibilidade de convivência com gente de diferentes culturas e lugares.

- Aqui, se calhar, há mais espaço para uma justiça entre todos, diz Luís Pedro, realçando seu encanto com a diversidade humana e com as formas de ativismo social que fazem parte da rotina da cidade.

Cabeça e coração

Em Berlim, ele está à procura de trabalho. Entre uma e outra entrevista de emprego na sua área, o engenheiro frequenta as aulas de maracatu no grupo Afojubá e se dedica a atividades culturais. “Agora mesmo, estou a organizar uma oficina de bateria de baldes para crianças”, diz orgulhoso. Mas ele reconhece que aprender e dominar a língua alemã foi o que lhe abriu definitivamente as portas para a vida na cidade.

- Eu estudei alemão durante um ano e meio ou dois anos. Era como uma pós-graduação, que aqui se chama Weiterbildung. Durante este curso, fiz um estágio em uma organização de refugiados, a KuB, Kontakt und Beratungsstelle für Flüchtlinge und Migrant_innen, e depois em um restaurante vegetariano, em Kreuzberg.

Luís Pedro também se dedica à escrita. O livro infantil Conto de Iemanjá, uma adaptação feita em parceria com a amiga italiana Marta di Ronco, acaba de ser lançado em Berlim. Certamente, muito desta obra foi plasmado na sua convivência com a cultura afro-brasileira. “Quero muito continuar a escrever”, afirma.

Além da vibrante cena cultural berlinense, outro ponto também o deixa ligado à cidade, se não pela cabeça, pelo coração: a vida ao lado da esposa. O casal se conheceu em 2014, em uma festa de forró, uma dança cheia de sensualidade. “Eu estava à procura de um plano para me apaixonar”, confessa o engenheiro sobre o encontro com Ana Laura Miranda Gutierrez, uma cubana que, naquele momento, estava em Berlim como turista.

“O Luís achou que eu dançava muito bem e me pediu para dançar com ele. A gente dançou, riu e bateu papo durante várias horas até irmos juntos para a casa dele. No dia seguinte, ele disse que, se eu quisesse, a gente poderia casar e talvez pudéssemos ser felizes juntos”, relata Ana Laura. Casaram. E buscam, todos os dias, consolidar a promessa de felicidade.

Ana Laura diz que uma das características que mais admira no marido é o poder de adaptação aos lugares, às situações, e sua capacidade de conviver com as pessoas.

- Ele nunca seria um típico estrangeiro em nenhum lugar porque ele é uma pessoa muito fora da norma. Às vezes, eu brinco dizendo que ele, como Fernando Pessoa, também tem os seus heterônimos e não dá para saber como será um dia com ele.

Em seus projetos de viajar, Luís Pedro conta com a parceria da esposa. “Gostamos de fazer viagens ficando em casa de pessoas e sem luxos, sem planos nem percursos organizados. Só uma coisa não pode faltar: a comida. Se o Luís não come, fica de mau feitio”, fala Ana Laura.

Aos 32 anos, o engenheiro faz parte de uma geração de portugueses que levantou as mãos ao vento e ganhou o mundo. Ele é crítico em relação ao seus país, que reconhece como uma terra que ainda dá poucas oportunidades, mas permanece ligado aos amigos que fez em Portugal. Aliás, enfatiza a importância das origens, da família e das amizades que conquistou em várias partes do mundo. “Depois daqui, por exemplo, vou a um concerto com um amigo que morou comigo em Coimbra”.

Futuro e Helder

Como o pai, António Gomes, mora no Brasil, o contato familiar de Luís Pedro é mesmo com a irmã, os sobrinhos e a mãe, Maria Adélia, que vivem em Portugal. Mas saudades não o atormentam. Praticamente sem custo e com ares de aventura, ele já conseguiu transformar o seu prazer de viajar em pretexto para uma visita ao país natal. “Uma vez, consegui carona com um camionista português e ele levou-me até Portugal. Fiz dois mil quilômetros com o gajo durante três dias. Essa foi uma cena que eu queria muito fazer de novo”.

- Sentimos a falta do Luís Pedro mais perto de nós. Contudo, também sabemos que ele é um rapaz do mundo, que adora conhecer o estrangeiro, e tivemos que nos acostumar à sua ausência física, fala a irmã Cátia Gomes, que vive em Montijo, em Portugal, e é mãe de Pedro, de 5 anos, e de Sofia, de 3.

Acostumada à falta do irmão, ela diz que as redes sociais minimizam a distância, mas reconhece que as crianças nem sempre lidam da mesma forma com a ausência das pessoas que fazem parte de suas vidas:

- A Sofia, por vezes, pega num telemóvel e diz que está a falar com os tios. Se está a ver alguma coisa na televisão e alguém fala em um ‘tio Luís’ – e isto já aconteceu – a Sofia diz logo: ‘Também tenho um tio Luís’.

Futuro? Luís Pedro apruma-se na cadeira onde está sentado, estica a coluna e volta a relaxar o corpo. Ele sabe que seu estilo de vida implica renúncias. Neste momento, um abajur ilumina-lhe uma mão, que se move ao vento. A outra, deslizando entre a testa e o alto da cabeça, ajuda-o a argumentar que faz planos a curto prazo... Assume que quer ter filhos e um trabalho que possa garantir segurança para realizar seus sonhos. E sonha com o mundo:

- O que eu mais quero na vida é viajar. Gosto muito do poeta português Herberto Helder. Ele tem uma poesia muito dura, muito convulsa, muito rochosa: ‘Levanto as mãos e o vento levanta-se nelas’, fala, remetendo à obra de um dos grandes nomes da poesia lusitana, falecido em 2015.

Assim como Luís Pedro, Helder estudou na Universidade de Coimbra, onde cursou letras. Diz-se que o poeta também adorava viajar, conhecer o mundo e se adaptava facilmente aos lugares e às pessoas. Helder também amava a liberdade, exaltava as descobertas e tinha consciência de que suas escolhas implicavam alguma renúncia.

 

LEVANTO as mãos e o vento levanta-se nelas.

Rosas ascendem do coração trançado

das madeiras.

As caudas dos pavões como uma obra astronómica.

E o quarto alagado pelos espelhos

dentro. Ou um espaço cereal que se exalta.

Escondo a cara. A voz fica cheia de artérias.

E eu levanto as mãos defendendo a leveza do talento

contra o terror que o arrebata. Os olhos contra

as artes do fogo.

Defendendo a minha morte contra o êxtase das imagens.

 

Despedimo-nos. Luís Pedro pegou a bicicleta e saiu pedalando sem pressa, com a simplicidade e a liberdade de quem tem um mundo para conhecer e muitas histórias para colecionar. Entre uma pedalada e outra, bastava levantar as mãos e o vento levantar-se-ia nelas.

 

Reportagem e foto: Enio Moraes Júnior (eniomoraesj@gmail.com)

Imagens (galeria): Arquivo pessoal Luís Pedro Vitorino Gomes

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Enio Moraes Júnior

Enio Moraes Júnior é um jornalista e professor brasileiro. Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (Brasil), vive em Berlim desde 2017. Apaixonado por gente e por boas histórias, trabalha com produção de conteúdo online em língua portuguesa, cobre eventos culturais e escreve sobre estrangeiros que povoam as ruas da capital alemã.

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