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Era uma vez um português, uma italiana e um livro infantil com uma história afro-brasileira

Foto: Os autores Luís Pedro e Marta lançam Conto de Iemanjá no dia 9 de junho, na Werkstatt der Kulturen. ©Enio Moraes Júnior / Imagem: ©Marta di Ronco

A partir de 09 de junho haverá um pouco mais de lusofonia nas ruas de Berlim. Uma dupla de amigos lança - em edição bilíngue alemão e português - Conto de Iemanjá: a deusa do mar. O lançamento integra a programação do Kimbuk, um evento de literatura dedicado a crianças, que acontece na Werkstatt der Kulturen. Era uma vez um português, uma italiana e um livro infantil com uma história afro-brasileira. Assim começa mais um conto para crianças...

Luís Pedro Vitorino Gomes nasceu em Porto de Mós, em Portugal, e estudou engenharia mecânica em Coimbra. A arquiteta e artista gráfica Marta di Ronco é uma italiana da região de Veneza. Por uma dessas coincidências, os dois já estiveram no Brasil, mas só vieram a se conhecer no grupo de maracatu Afojubá, em Berlim, há 2 anos. “A Marta é quase uma lusófona. Ela conhece o Brasil e fala português”, diz Luís Pedro, em tom de brincadeira.

“Meu pai mora no Brasil e eu viajo todo ano para visitá-lo. Por isso, comecei a me interessar pela cultura e a aprender português”, explica Marta. Ela diz que nunca estudou a língua em cursos ou escolas. “Aprendi português em Berlim, ‘na roda’, praticando capoeira e maracatu”. Luís Pedro também viveu em terras brasileiras quando cursou mestrado em Florianópolis. “No Brasil, fiz alguns meses de capoeira de Angola e um workshop de maracatu”, esclarece.

Deusa do mar

Iemanjá é uma das divindades de origem africana, ou Orixá, mais cultuadas no Brasil. Sua imagem de deusa do mar é representada por uma morena de longos cabelos negros. A história terminou por unir os dois idealizadores do livro infantil, que, embora não tenham filhos, compartilham o interesse pela cultura afro-brasileira.

A partir dos encontros no grupo de maracatu que frequentam em Berlim, o livro foi se consolidando. A ideia inicial era lançar a história de Iemanjá em formato comics. Com o projeto pronto, a dupla participou de uma competição na capital alemã, mas não ganhou. “Então eu e o Luís pensamos: vamos publicar o livro”, diz Marta. Com experiência em desenho, ela dedicou-se, principalmente, ao processo de ilustração da obra.

A narrativa ficou a cargo dos dois. A história que contam procurou respeitar as versões originais, mas os autores introduziram novos elementos. “A gente vai contar coisa que talvez não seja tão consensual porque vem de nós. De mim, que sou português, e da Marta, que é italiana”, diz Luís Pedro. “É uma tentativa de ficar o mais perto possível da cultura, mas algumas vezes a gente fez intervenção”, reforça Marta.

Crowd e público

Para custear o trabalho, os autores optaram pelo crowdfunding. Eles ressaltam que há dois segredos para o êxito desse tipo de financiamento. Primeiro, o apoio dos amigos. Segundo, procurar oportunidades para dar visibilidade à ideia. Com esse objetivo, a dupla tem participado de eventos de arte, onde Marta faz oficinas de desenhos e Luís Pedro encarrega-se de leituras. “São maneiras de encontrar as pessoas, divulgar o projeto e ver se elas querem participar”, fala a arquiteta.

Engana-se quem pensa que os brasileiros que vivem na Alemanha são o único público que os autores pretendem atingir. Marta avalia que este é um leitor potencial, mas que em Berlim há muitas pessoas que buscam referências que vão além dos padrões europeus. “O leitor é qualquer família interessada em outro tipo de cultura”, diz. Luís Pedro reforça: “O nosso público é qualquer pessoa que tem prazer de ler, contar ou ouvir uma boa história”, avalia.

Conto de Iemanjá: a deusa do mar é apenas o primeiro trabalho que os amigos pretendem colocar em circulação. “A gente quer fazer o Pantheon todo”, brinca Luís Pedro. O lançamento do livro acontece no dia 09 de junho, no Kimbuk, na Werkstatt der Kulturen, em Berlim. O projeto, que conta com o apoio de A Livraria, está em diversas redes sociais e tem uma página no Facebook com o crowdfunding e uma agenda.

 

Texto e foto: Enio Moraes Júnior (eniomoraesj@gmail.com)

 

  

 
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Enio Moraes Júnior

Enio Moraes Júnior é um jornalista e professor brasileiro que vive em Berlim desde 2017. Na capital alemã, trabalha com produção de conteúdo online e escreve sobre estrangeiros que povoam as ruas da cidade.

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