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Luta contra o preconceito feita em Berlim em português e alemão - Entrevista La By'le

O La By’le (pronuncia-se "la baile") é um coletivo criado em 2017 em Berlim, tendo a música como base para compartilhar ideias e experiências. A proposta é fazer shows e festas mostrando alguns dos ritmos periféricos brasileiros, começando com o funk carioca. Outro objetivo é combinar a luta contra vários tipos de preconceito com muito humor e alegria. De facto, o grupo tem um posicionamento muito claro contra o preconceito: "Sendo composto em sua maioria por mulheres, não são aceitos machismo, racismo e preconceitos de qualquer tipo. Muito menos o preconceito cultural contra os ritmos mais populares, como o próprio funk carioca, que não trata só de sexualidade e ostentação. Na sua raiz, o funk deu e dá voz às comunidades marginalizadas pela sociedade e tratadas como algo menor por um pensamento de que cultura só vem da elite", explica Tâmera Vinhas.

 

Entre as referências do La By'le estão várias artistas mulheres que abanam a cena musical no Brasil e demonstram o quanto o mundo precisa ainda mudar. "Um dos melhores exemplos do funk atual é a Mc Carol, que recentemente realizou um show no Gretchen em Berlin, com a casa lotada. Mc Carol é imbatível, por quebrar todos os tabus de uma sociedade hipócrita. Além dela, nomes como Tati Quebra Barraco, Linn da Quebrada, Mc Thaa, Karol Conka e Gaby Amarantos influenciam a gênese do La By'le com suas mensagens de enfrentamento e de autoafirmação", contam Tâmera e Cara.

 

Nesta entrevista,  Tâmera Vinhas e Cara Muru, integrantes do La By’le, falaram-nos um pouco do seu projecto La By'le Funk e da próxima actuação que vão fazer em Berlim, dia 11 de Agosto no EmpowAir Festival. Tâmera é brasileira e Cara Muru é Brasileiro/Alemão. Os dois moram em Berlim há 5 anos.


 

Como surgiu o grupo La By’le e o projeto La By’le Funk?

La by’le (leia-se: La Baile) é um grupo musical formado por Tâmera Vinhas, Cara Muru e Luana Madikera. Decidimos criar nossas músicas com as batidas do Funk Carioca e outras influências musicais, como por exemplo o Afro Beat e Hip Hop Alemão. Aproveitamos também pra criar o La By’le Funk que é o baile funk que aconteceu no dia 30 de junho aqui na cidade, no bairro de Wedding. Nesse baile fizemos nosso primeiro concerto com uma festa com Djs convidadas e também com uma performance.

O grupo La By’le fará parte do Festival EmpowAir, dia 11 de Agosto. O que vai acontecer nesse dia?

Fomos convidados pela parceira também do La By’le, Sanni Est, para participar do Festival como uma das atrações musicais. Achamos importante estar nesse projeto, porque dá protagonismo a grupos minoritários e permite uma visibilidade maior do nosso trabalho e conhecer outros artistas. É um evento que mistura música eletrônica com cinema, documentário, performance, arte e música com foco em pessoas de cor, queer, trans * e gênero não-conformes.

Porquê a mistura de línguas - português e alemão?

Achamos importante que o público que irá aos nossos shows ou ouvirá as nossas canções possa entender nossa mensagem. Nossas músicas em sua maioria têm mistura de frases em alemão e em português porque podem ser cantadas pelas pessoas que falam a língua alemã e também que falam português (países Lusófonos, por exemplo). Achamos essa mistura interessante e gostamos de criar essa alternativa. Pode ser algo novo paras pessoas que vão nos conhecer.

La By’le propõe-se a fazer do funk mais um meio de luta feminista. Porquê essa luta é tão importante nos dias de hoje?

Infelizmente sabemos que há muitas letras de Funk machista. Há músicas em que há ofensas e a ridicularização da mulher, a mulher é sempre o foco da música, mas que nesse caso para desvalorizá-la. Por isso, como temos consciência da luta feminista, não aceitaremos qualquer tipo de machismo, racismo e homofobia, seja nas nossas letras, ou no nosso baile. Também achamos importante a participação majoritária de mulheres no projeto. Homens também serão bem vindos, desde que saibam que é fundamental o respeito às lutas das mulheres, negros e LGBT.

 

Vocês foram buscar inspiração em nomes como Mc Carol de Niterói, Tati Quebra Barraco e Linn da Quebrada. O que mais vos inspira no trabalho dessas artistas?

Elas cantam funk e também tem histórias de muita garra e perseverança. Tiveram o início muito difícil da carreira e quebram barreiras dos preconceitos diariamente. São resistências! E ainda estão a cada dia ganhando mais força e mais admiradores. Procuramos sempre como exemplos mulheres que cantam, que compõem, que se comprometem com a sociedade também. E achamos que nossas referências vão além do Funk, podemos citar também Elza Soares, Elis Regina, Nina Simone, e claro Marielle Franco!

 

 

Entrevista feita por Rita Guerreiro

08/08/2018

Foto: Arnon Gonçalves

Rita Guerreiro

Licenciada em Audiovisual e Multimedia pela ESCS – Escola Superior de Comunicação Social (Lisboa), chegou a Berlim em 2010. Depois de ter participado em vários projectos de voluntariado e iniciado o Shortcutz Berlim, juntou-se à nova equipa Berlinda em 2016 e desde então contribui com vários artigos e entrevistas para o magazine. 

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