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“Foi uma aventura incrível”: Karim Aïnouz sobre o seu documentário “Zentral Flughafen – THF”

Foto: "Flughafen Tempelhof -THF ", Karim Aïnouz © Juan Sarmiento

Karim Aïnouz realizou o seu primeiro filme em 2002, “Madame Satã”, que teve estreia mundial em Cannes e lhe valeu vários prémios em diferentes festivais de cinema. Seguiram-se “O Céu de Suely” em 2006 e “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”, co-dirigido com Marcelo Gomes, em 2009. “Praia do Futuro”, uma ficção que fez parte da competição do Festival de Cinema de Berlim em 2014, é talvez um dos seus filmes mais conhecidos.

O realizador brasileiro com raízes argelinas radicado em Berlim voltou este ano à Berlinale, onde estreou o documentário “Zentral Flughafen – THF” na secção Panorama. O documentário foi distinguido com o prémio Amnistia Internacional, que o realizador aceitou não deixando de mencionar a situação política que se vive no brasil atualmente, lendo um texto que começou “Estamos em Berlim, mas temos que falar do Brasil” onde referiu a corrupção e crise na democracia no país. “O resultado pode ser visto ruas no Brasil, com o aumento da violência e miséria. Eu queria dizer que não vou aceitar isso”, assim terminou Karim Aïnouz.

A Berlinda esteve à conversa com o Karim Aïnouz no Berlinale Palast sobre o filme e sobre os seus novos projectos e ficou a conhecer um pouco mais sobre a sua perspectiva incisiva acerca das desigualdades sociais do mundo em que vivemos, que o realizador procura transpor na tela com os seus filmes.

Como encontraste a linha narrativa para o filme? O que era importante documentar e preservar da História que não estava a ser retratado nos media alemães naquela altura (2015)?

Eu fiquei com muita raiva no Verão daquele ano, parecia que estava vendo uma invasão de Marte, as pessoas chegando em Marte, atacando Marte. Era uma cobertura muito sensacionalista, e eu nunca vi uma história de verdade sobre aquelas pessoas. É uma sensação horrorosa. Aconteceu a mesma coisa com a cobertura de Calais, parece que são selvagens que estão atacando a Europa, comendo, pulando muros, quebrando cercas. E eu dizia: “Mas gente, essas pessoas estão vindo da guerra, é outra coisa, será que podemos absolver?”. Tenho muita vontade de fazer um outro projecto com alguém que venha do espaço sub-saariano, que também são os mais discriminados. Foi um pouco essa insatisfação que me fez encontrar essa linha. Eu encontrava com as pessoas e pensava que era preciso contar essas histórias desse momento tão impressionante que estamos vivendo. Então a linha narrativa veio muito dessa insatisfação e do desejo de fazer um retrato íntimo de um abrigo, um diário de um personagem nesse lugar. Fiquei muito incomodado também com o filme do Ai Weiwei, “Human Flow”, que teve muito protagonismo nesse último ano. Achei um absurdo, fiquei com ódio quando saí do filme. A gota de água mesmo foi o atentado em 19 de Dezembro. Eu estava chegando de viagem nesse dia e soube que o menino que fez o atentado estava morando em Tempelhof, acusado de ser paquistanês. Fiquei muito impressionado porque a polícia entrou lá dentro, mas no dia seguinte soube-se que não era ele. Aí tive uma convicção grande de que o filme tinha que ser feito naquele lugar.

O filme desenrola-se por meses, mostrando imagens de um aeroporto muito diferente a cada estação do ano. Essa foi uma forma de acentuar o lento passar do tempo para os refugiados em Tempelhof?

Foi. Na verdade o filme fala muito de espera, uma espera aflitiva, em que você não sabe o que vai acontecer no dia seguinte. Eu acho que tinha uma coisa importante que era a marcação do tempo pelas estações, e de como o próprio objecto central do filme, que é o aeroporto, se comportava naquelas estações. A gente criou uma estrutura por estações, mas depois criou uma estrutura por mês, muito nesse passo-a-passo dos protagonistas esperando. A marcação por mês me pareceu uma forma adequada de falar de espera.  

 

Conhecias a realidade dos refugiados antes de fazer o filme?

Conhecia; eu moro do lado do Aeroporto. Estava fazendo um projeto sobre o parque e o prédio (de Tempelhof) porque eu sempre me interessei muito pelo parque, acho que é uma conquista de cidadania maravilhosa. Mas, coincidentemente, foi na época em que as pessoas estavam chegando. Começaram a morar ali em Outubro ou Novembro de 2015, foi uma situação de emergência em que as pessoas tiveram que ir morar ali de uma horar para a outra, e eu fiquei muito impressionado. Eu achava: “Como é que isso pode estar a acontecer no meu quintal e eu não saber?”. Era difícil entrar, porque você tinha que ter uma permissão de segurança, mas eu me engajei muito, acho que é uma questão muito urgente. Lembrava-me um pouco dessa coisa das cidades grandes brasileiras, onde sempre há um gueto, que é onde as pessoas pobres moram, e que é muito perto das zonas ricas. Achei que era importante expor isso. Tinha um lado fascinante que era onde isso estava a acontecendo, que é um lugar cheio de fantasmas da 2ª Guerra Mundial, e senti que era um documento importante de ser gerado, porque muita gente não via o que estava acontecendo ali dentro. Achei que era importante usar o cinema como se fosse derrubar uma parede.

 

Mencionaste em entrevista que “THF não é um filme sobre refugiados, mas um filme sobre antípodas”, ou seja, opostos ou contrários. Quais são, na sua opinião, os principais opostos que existem actualmente em Berlim?

Especificamente em Tempelhof, eu acho que tem um lugar do parque, que é o do lazer, onde nada está em jogo, só o lazer; e o prédio, onde tudo está em jogo - a vida está em jogo. Para mim era importante construir esse retrato muito por conta de que eu acho que na verdade os antípodas estão no mundo. Este foi um jeito que eu encontrei de dizer: “Olha, está aqui também. E por favor fiquem atentos, porque tem coisas muito piores acontecendo em lugares mais longe daqui.” E eu não acho que o lazer seja um lazer fútil ali, acho que é uma coisa de conquista de um espaço, que era um espaço militar, para um uso comunitário. E então eu queria muito juntar esses dois lugares porque eu achava que tinha algo de singular. De um lado, você tinha vidas em jogo, do outro, uma re-invenção da vida. Eu acho que há uma última questão com relação a isso que é: como Berlim se re-inventa e a reutilização dos espaços para outras funções.

 

Como foi o processo de casting e a escolha do jovem protagonista Ibrahim Al Hussein como linha principal da narrativa?

Filmámos com muita gente. Tivemos algumas questões de processo, a primeira era que eu achava que era muito importante documentar o lugar por um ano. A gente seguiu muitos personagens, muitos eram assistentes sociais, mas o que aconteceu com o Ibrahim foi muito curioso para mim e muito natural;  ele estava muito confortável com a câmara, entendeu que era importante documentar a experiência não dele, mas de quem estava morando ali, para que fosse possível a construção de um retrato daquele lugar. No final das contas, ele ficou lá quase até ao final do segundo ato, então achámos que faria sentido. Foram decisões que eu fui tomando também durante a filmagem e na montagem, ligadas a outra coisa que achei importante: ter um protagonista que fosse muito jovem. O jovem é o demônio, é um cão que está chegando na Alemanha para tomar o meu trabalho, para explodir bombas, então eu achei importante olhar para essa personagem de um outro lugar.

 

Ficaram relações destas pessoas que viveram em Tempelhof? Achas que houve amizades que se preservaram dentro do aeroporto?

Muito. Eu acho que eram pessoas que vinham de lugares muito diferentes do mundo, mesmo dentro da Síria, pessoas que eram muito diferentes e se encontraram lá e hoje em dia eles são muito próximos. Foi engraçado que na premiere do filme todo o mundo estava lá, vieram à festa, e você vê que é um grupo, uma família que se foi montando numa situação de crise. Mas eu acho que sim, há uns laços que continuam e outros que não. Há alguns meninos que o Ibrahim nunca mais viu. Algumas pessoas também se vão perdendo na cidade, mas algumas formaram grupo mesmo.

 

As tuas raízes argelinas contribuíram para um maior interesse ou proximidade sobre este tema e para uma maior proximidade com os protagonistas?

Sim. O meu pai fugiu da Argélia em 59, ele era da guerrilha, e teve que fugir senão iria ser morto. Eu morei em França, tenho passaporte francês, não me considero argelino porque nunca fui na Argélia, mas está no meu DNA e na minha experiência de vida. É uma situação a que eu sou muito sensível. A minha família inteira emigrou para a França em 1970, sempre viveu na periferia de Paris. Então é uma coisa que eu vivi na pele enquanto eu morava em França. Apesar de o meu nome poder ser de vários lugares em França, eu sou imediatamente identificado como argelino - e só. E isso nunca foi fácil. Foi uma coisa que sempre me incomodou muito. Eu acho que foi por isso que eu nunca consegui morar muito tempo em França. Isso foi um motor que me fez lembrar da primeira vez que eu cheguei a França para morar, dos 17 aos 19. Eu morava com a minha mãe e fui encontrar com o meu pai. Foi muito surpreendente aquilo tudo para mim, ocupar um lugar onde nunca tinha ido antes. E isso fez-me também identificar com os personagens mais jovens do Tempelhof.

 

Da tua experiência de vida em França, achas que a forma menos positiva com que algumas pessoas na sociedade francesa olham para os Argelinos e Marroquinos é a mesma forma como hoje se olham os Sírios ou Afegãos que chegam da guerra?

Eu acho que é bem diferente, porque tem um lastro do colonialismo. A gente nunca foi bem-vindo em França. Pelo menos até há 20 anos atrás. As coisas foram mudando, acho que hoje em dia tem uma geração, que eu chamo de 4o mundo, que é da periferia mas que nasce no centro. Tem sempre um lastro histórico, por mais que não se fale, houve uma guerra entre França e Argélia onde morreu muita gente. É claro que existe arabofobia, xenofobia, mas acho que é diferente da Alemanha. Eu acho que as pessoas estão-se entendendo. De um lado é muito negativo, não é à toa que a AFD tem 14% dos votos, construído completamente com base na xenofobia, no medo do outro. Mas ao mesmo tempo é uma relação que está em processo. A Alemanha não pode tratar ninguém mal, porque com o que eles fizeram não tem crédito por mais cinquenta mil gerações. Acho que estão exercitando uma solidariedade que é muito importante como processo de cicatrização histórica.

 

E quais são os teus próximos projetos?

Tou indo para o Brasil depois de amanhã para preparar um longa que vou filmar em Maio, que se chama “A vida invisível”, uma ficção inspirada num romance. É a história de duas irmãs no Rio dos anos 50, classe média-baixa, sobre a condição feminina naquela época. Uma delas é mãe-solteira, a outra é mãe de família. É uma saga de família, um melodrama bem clássico. É a vontade de fazer a historiografia da mulher desse momento, também por uma questão muito pessoal: a minha mãe me criou sozinha. Eu perdi a minha mãe tem dois anos e pensei que tinha que contar isso, ninguém sabe como foi, parece que foi tudo bem, mas não foi fácil.

Em Outubro eu estou indo para a Argélia pela primeira vez para fazer esse projeto que é um ensaio, que não sei o que vai sair direito. Estou saindo de Marseille, vou de barco para Alger e depois vou pegar o carro e vou até ao vilarejo do meu pai no nordeste da Argélia, nas montanhas. Sempre quis ir à Argélia, então acho que vai ser super emocionante. Vai ser um filme de estrada, mas eu queria muito olhar para o que aconteceu com a revolução. O meu pai voltou para a Argélia em 65, que era um país igual a Cuba - existia um sonho gigante de mudança, a revolução estava pulsando ali. Eu fico curioso em saber o que aconteceu agora, 150 anos depois: se esses sonhos foram alcançados ou não, através de uma observação mais quotidiana. Responder a essa pergunta é impossível, mas queria tentar adentrar essa pergunta.

Entrevista por Rita Guerreiro e Tiago Pais

 

  

 
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Rita Guerreiro

Licenciada em Audiovisual e Multimedia pela ESCS – Escola Superior de Comunicação Social (Lisboa), chegou a Berlim em 2010. Depois de ter participado em vários projectos de voluntariado e iniciado o Shortcutz Berlim, juntou-se à nova equipa Berlinda em 2016 e desde então contribui com vários artigos e entrevistas para o magazine. 

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Tiago Pais

Natural de Leiria, vive em Berlim há 7 anos. Atual morador do bairro de Kreuzberg, é formado em Gestão pela Universidade Nova de Lisboa. Desde Julho de 2016 é o presidente da associação Berlinda e contribui com diversos artigos para o magazine.

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