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From Buraca to Berlim: Entrevista com Kalaf Ângelo

Foto: © Promo / Buraka Som Sistema

Kalaf Ângelo, músico, poeta e cronista angolano, é o homem forte do grupo Buraka Som Sistema, essa espécie de world music das pistas de dança que alia os ritmos eletrónicos europeus com o kuduro angolano. Após o sucesso estrondoso dos álbuns From Buraka to the World e de Black Diamond, lançaram em 2011 o albúm Komba. Em outubro de 2013 estarão em Berlim para mostrar o documentário “Off the Beaten Track”.

Kalaf Ângelo fala pausadamente, num discurso ponderado como se quisesse encontrar a elegância em cada frase. Quem ouça a sua voz serena dificilmente imaginará que o dia a dia deste jovem é levar milhares de pessoas ao rubro pelos palcos desse mundo fora. Viveu um ano em Berlim e guarda uma imagem muito carinhosa da cidade.

BERLINDA: Como foste parar a Berlim?

KALAF ÂNGELO: Eu estava  a fazer algo no programa Próximo Futuro da Fundação Calouste Gulbenkian que por seu turno tinha uma colaboração com a Akademie der Künste em Berlim. Nesta colaboração pedia-se a alguns performers, poetas, músicos de Lisboa para participar num programa sobre Europa e identidade europeia, e convidaram-me. Essa foi a minha primeira visita. Passei lá três dias e fiquei fascinado. No ano seguinte voltei, a convite do Festival de Poesia de Berlim, que em 2008 foi dedicado à língua portuguesa. Dessa vez fiquei mais tempo e achei a cidade maravilhosa. Eu tenho uma particularidade com cidades: gosto de cidades que são difíceis de se dar, ou seja, que exigem de quem visita um pouquinho mais de tempo, um pouquinho mais de vagar, e que não são  imediatamente generosas. Berlim não é propriamente a cidade mais generosa do mundo, em parte porque não falamos a língua e então ficamos um bocadinho no “hall” de entrada. Mas é encantadora, e ainda não sendo uma cidade que convide a entrar, o facto de ser uma cidade difícil para pessoas curiosas, como eu, é muito interessante. É uma capital europeia cheia de história. A história do mundo moderno passa por ali, há um antes e um depois, e Berlim está nessa fronteira. Para pessoas que se interessem pela História, e de como o mundo se regenera depois de episódios tão marcantes como guerras – e vindo eu de uma sociedade marcada por conflitos – Berlim mostrou ser muito interessante. Fiquei curioso e fascinado.

B: E como passaste de visitante a morador?

KA: Anos depois, eu estava outra vez a viver em Lisboa – Lisboa é sempre a minha base, posso sair  e passar meses ou mesmo um ano fora, mas regresso sempre. E eu estava um pouco decepcionado com Lisboa – é uma cidade que se dá, é generosa, mas facilmente caímos em desamor por ela, porque não é tão dinâmica como achamos que poderia ser.  E na minha cabeça eu tinha duas escolhas possíveis: Londres ou Berlim. A minha parceira da altura detestava Londres. Não que tivesse um amor especial por Berlim, apesar de ser alemã, mas Londres não era opção. Então fomos para Berlim. Isso foi em finais de 2009. Vivi na Immanuelkirchstrasse, em Prenzlauer Berg. Isto porque na minha primeira visita à cidade eu tinha ficado num hotel perto da Friedrichstrasse, que era muito perto da Akademie der Künste. Eu nessa altura tinha explorado um pouco a cidade a partir de Prenzlauer Berg, vi aquelas ruas e imaginei-me a viver lá. De dois em dois anos eu escolho um destino novo, e calhou estar nesse período de escolher a cidade para me abrigar por uma temporada. Nunca penso que as coisas são para sempre, pelo contrário enquanto tivermos energia para explorar novos sítios, temos de ir. E fui. Fiquei um ano em Berlim, até ter compromissos que me chamavam para Lisboa e não conseguir manter-me dividido entre as duas cidades.

B: E nesse ano a tua vida ficou-se por Prenzlauer Berg ou foste descobrindo mais coisas?

KA: Uma coisa que eu descobri é que a cidade é enorme. Kreuzberg e Friedrichshain eram também bairros onde eu passava muito tempo porque tinha amigos que viviam lá. Toda a gente me desaconselhou a ir para Prenzlauer Berg, diziam que era demasiado burguês, que havia demasiados bebés… mas eu gostei, foi assim que Berlim se revelou para mim da primeira vez que lá estive, foi o meu primeiro sítio na cidade. Não sou rápido a explorar uma cidade, aliás demoro anos a varrê-la de ponta a ponta. Em Lisboa também faço isso, exploro muito lentamente e prefiro primeiro familiarizar-me com um ponto e depois lentamente estendê-lo.

B: Qual é a particularidade de Berlim que mais te chamou a atenção?

KA: Há uma certa desconfiança do berlinense relativamente a quem o visita. Isso é, a meu ver, um handicap na relação entre o visitante e o visitado. Não fiquei tempo suficiente para perceber a razão dessa desconfiança. Não tanto em relação a mim, porque tenho o privilégio de trabalhar numa área onde os afetos são quase imediatos, as pessoas trocam e comunicam muito facilmente, a música quebra qualquer constrangimento, barreira linguística ou diferença cultural. O facto de trabalhar com música torna mais simples a comunicação. Mas essa desconfiança era uma coisa que habitava a cidade, tornava os locais menos cativantes. Era preciso nós estarmos mentalizados. Eu conheço pessoas que tiveram pequenos choques com essa atitude. Mas ao mesmo tempo, sendo eu uma pessoa que visita muitas cidades, que está sempre na estrada, essa também é uma característica que me atrai – é tudo difícil, eu preciso que tu te esforces um pouco mais para me entenderes antes de eu te entender a ti – esse desamor em relação ao turista… os berlinenses resistem a tornar a cidade demasiado turística, demasiado exposta ao mundo. Querem mantê-la algo reservada. O que é engraçado, atendendo a que há pouca atividade económica na cidade e que a maior parte das pessoas que lá está tem profissões liberais, são artistas, freelancers, que precisariam mesmo de quem visita, do olhar curioso de quem chega… é engraçado ver essa dinâmica na forma de estar da cidade.

B: Mas achas que uma vez vencendo essas reservas iniciais, é compensador?

KA: Completamente. Também me chamou a atenção a relação com os espaços verdes, a qualidade de vida. No bairro onde eu vivi, toda a rua tem uma qualidade de vida que eu em Lisboa não tenho. Uma pessoa consegue passar mais tempo fora do que dentro de casa, pelo menos quando o tempo assim o permite. Poucas cidades conseguem isso. E mesmo as casas estão bem preparadas para acomodar e sobreviver ao inverno rigoroso, há uma série de infraestruturas que são benéficas para quem gosta de habitar o espaço urbano.

B: O clima não foi um problema?

KA: Eu sou africano, vejo esse clima pelo lado exótico [risos]. Há quem vá para África à procura do exotismo, eu acho exótico ver dois metros de neve à frente, para mim é tudo muito novo. Eu gostava muito de ver a cidade coberta de neve.

B: Berlim está dentro dos circuitos internacionais na tua área, ou foi mais uma escolha pessoal?

KA: Berlim não é tão central quanto se imagina. É-o, no sentido de estar ligada à Europa do Leste, à parte eslava. Eu gostei de estar a explorar o espaço europeu de outra forma. Mas é preciso amar a cidade para se viver lá. Não é o lugar mais simples para se sair da cidade. Munique é mais central, pelo menos para mim, para quem a questão da mobilidade é absolutamente central. Em Berlim não há voos diretos, nem de Tegel nem de Schönefeld. Eu passava muito tempo em ligações aéreas, via Munique, Bruxelas… era difícil chegar a horas aos compromissos, e isso para mim é um fator importante. Mas a minha paixão pela cidade era maior que as questões práticas da mobilidade, que me condicionavam um pouco.

B: Usaste esse ano para compor, escrever, fizeste férias?

KA: Não, eu trabalhava e gastava dinheiro em Berlim [risos]. E fazia concertos, mas por via dos canais preexistentes que já estavam montados. Os meus agentes por exemplo estão sediados em Londres, mas tenho agentes na Alemanha, em Berlim, é toda uma máquina. Mas nunca travei amizade com nenhum. Eles mesmo sendo meus vizinhos tinham sempre que passar pelas entidades que gerem a minha atividade profissional. Nesse sentido, estar em Berlim era quase como estar na Amadora [risos]. Eu chamava-lhe casa, a minha casa era Berlim. Aproveitei os invernos para escrever e para refletir – a mesma rotina que fazemos quando estamos em casa.

B: O público de Berlim é diferente?

KA: Berlim não é tão jovem. A faixa etária do público que ia aos meus concertos é um pouco superior à da maior parte das cidades europeias que eu visito. Vai dos vinte e cinco até aos trinta e cinco anos, por vezes até um pouquinho mais, o que torna a dinâmica ao vivo um pouco distinta. As pessoas posicionam-se de maneira diferente. E os berlinenses têm a preocupação do cool, tudo tem de ser cool e de ter uma certa coerência… há essa condicionante. Não é o público mais efusivo de todos. É um público mais maduro, tem uma outra forma de estar, e um pouco mais reservado e sereno.

B: Mas gostas de tocar lá?

KA: Sim, é sempre uma experiência muito gratificante. Uma das coisas que torna a cidade interessante é a relação com as artes. Tem uma quantidade infinita de artistas por metro quadrado. Há uma ligação à arte que não é costume ver-se, uma atividade de galerias e museus que é única. Isso torna a cidade ultra-apetecível para um visitante.

B: Voltarias a viver em Berlim?

KA: Sim. A minha relação com Berlim ficou meio interrompida, não desenvolvi tudo o que tinha de desenvolver e quando estava a ganhar o ritmo tive de voltar para Lisboa. Gostaria de dar uma outra chance à cidade, e conto fazê-lo.

Para além da vivência em Berlim, Kalaf Ângelo tem muitos mais lados interessantes. Para conhecer mais este artista, leia o texto de fundo na revista BUALA.

Entrevista feita por Inês Thomas Almeida.

 

  

 
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Ines Thomas Almeida

Inês Thomas Almeida nasceu na República Dominicana e cresceu em Portugal como bilingue e com dupla nacionalidade. Mudou-se para a Alemanha para estudar Canto na Escola Superior de Música e de Teatro de Rostock. Alguns anos depois de se instalar em Berlim, criou o magazine online Berlinda, e, mais tarde, o Festival Berlinda.

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