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Berlinale: O paralelo entre o Brasil colonial e o Brasil actual em “Joaquim”, de Marcelo Gomes

Foto: Joaquim", Marcelo Gomes © REC Produtores e Ukbar Filmes. Equipa de "Joaquim" durante a conferência de imprensa ©Berlinda

A Berlinda esteve na conferência de imprensa do filme “Joaquim”, do realizador brasileiro Marcelo Gomes na Quinta-feira dia 15 de Fevereiro, assistindo a uma conversa bastante aberta e algo política sobre o filme e o estado do cinema no Brasil.

Esta co-produção Brasil-Portugal está em competição para o Urso de Ouro. A conferência de imprensa contou com o realizador Marcelo Gomes, os produtores Miguel Vieira, Ernesto Soto e co-produtora portuguesa Pandora da Cunha Telles. O protagonista Julio Machado esteve também presente, tal como os actores Isabél Zuaa e Welket Bungué.

 

Joaquim é uma coprodução luso-brasileira inspirada na história de Joaquim José da Silva Xavier, um dos heróis da independência brasileira, conhecido por Tiradentes. O Filme é ambientada no século XVIII, mas tem muita coisa do Brasil contemporâneo: ”O fim do colonialismo não foi necessariamente uma melhoria da vida no Brasil”, referiu o realizador logo ao início da conversa com os jornalistas. Marcelo Gomes explicou “À medida que eu ia lendo livros sobre o colonialismo, eles falavam da vida privada, saúde, quotidiano - mas eu via o Brasil de hoje”.

 

“Temos que construir um processo de descolonização”, Marcelo Gomes

 

O realizador, que esteve presente na competição pelo Urso de Ouro em 2014 com o filme “O Homem das Multidões”, falou da sua visão do colonialismo e o seu impacto na sociedade brasileira. Defendeu que “passaram 250 anos e infelizmente as coisas não mudaram. Todas essas fraturas sociais do colonialismo estão presentes no Brasil neste momento”, acrescentou. Nesta linha de pensamento, considerou a colonização como uma ferida que não está ainda fechada e sublinhou que “temos que questionar o papel de Portugal e África e no Brasil”. O filme fala de amor impossível e ganância. “Onde há muita riqueza, há também muita pobreza”, referiu o realizador. Marcelo Gomes fez muita pesquisa para o filme, sobretudo sobre o quotidiano da vida no tempo do colonialismo, “e depois eu encontrei o Joaquim, uma pessoa com o sonho da libertação, que eu penso que é um pensamento que se mantém hoje”. O que eu queria fazer era desconstruir esse herói, ninguém pede para ser herói”, explicou.

 

O personagem principal é um trabalhador empenhado num posto de controlo português onde faz para o tráfico de ouro. Começa por ser um fiel servo da coroa portuguesa e trabalha com portugueses, brasileiros e o seu escravo africano (Welket Bungué). Joaquim tem um relacionamento com a escrava do seu superior, que todos chamam de “Preta”. Com a esperança de subir na vida que tarda em chegar, Joaquim vai pouco a pouco revoltando-se contra o sistema e acaba por tornar-se quase obcecado pela libertação do seu país. “Eu gosto de fazer cinema sobre coisas que não conheço. Interessou-me esta mudança de paradigma - como o Joaquim muda de paradigma numa sociedade cruel e estilo ´salve-se quem puder`”.

Posteriormente explicou ainda a importância da cena do corte de cabelo de Joaquim para assinalar essa mudança de paradigma do personagem, que no início tinha cabelos longos e que os vê cortados por “Preta”, tornando-se quase numa outra pessoa.


 

Julio Machado

 

“Nós actores tentamos nos adequar ao que nos está a ser proposto”, referiu o protagonista de “Joaquim” sobre a sua preparação para o filme. A maior preocupação do actores não foi tanto a parte de desenvolvimento dos personagens, mas a integração no set de filmagens em Minas Gerais, isto é, no cenário e na natureza. Os actores fizeram para isso várias actividades de preparação durante um mês inteiro. Os actores sentiram que aquele ambiente não mudou assim tanto deste o século XVIII e da altura dos garimpeiros: “Até hoje há pessoas que vivem na esperança de encontrar riqueza, algo que mude a vida delas” contou Julio Machado.

 

Isabél Zuaa

 

A actriz portuguesa com raízes angolanas explicou que "o que eu quero trazer para a tela são temas que são muito atuais, coisas que eu enfrento no meu dia a dia, e que são conectadas com a resistência e com a estratégia para sobreviver num mundo onde o meu corpo, a minha cor, é vista como inferior.” Isabél Zuaa sublinhou ainda que “ter a oportunidade de fazer uma personagem que promove uma revolução e que dá input ao Joaquim foi um privilégio”.


 

Welket Bungué

 

Já o actor luso-guineense referiu o orgulho que foi participar desta co-produção “Eu sinto que estou a representar muitos colegas que não tiveram este oportunidade. Estou no Brasil ha sete anos e têm-me dado muitas oportunidades de trabalho. Nasci em Portugal, mas foi no Brasil que encontrei as minhas raízes africanas”

 

De facto, Marcelo Gomes salientou que é necessário um “empoderamento da população negra no Brasil”. Segundo o realizador, “Foram os africanos que trouxeram a ideia de resistência e rebeldia contra os colonizadores. A herança cultural dos africanos é imensa, mas é levada muito para a música e a dança”

 

 

“Joaquim” é também um filme que fala do nascimento do Brasil a partir da interacção de diferentes raças e culturas “a cena em que Welket (Bungué) dança com o índio é o nascimento da nossa nação”, referiu Marcelo Gomes .


No final da conferência, houve ainda espaço para uma forte crítica ao governo Brasileiro, com Marcelo Gomes a ler uma carta que reúne assinaturas de vários cineastas brasileiros e internacionais contra o actual governo do país e alertando para os seus efeitos no cinema.

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