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De Portugal para a Alemanha para fazer investigação no nordeste do Brasil - entrevista com José Miguel Delgado

Foto: © José Miguel Delgado

José Miguel Delgado vive em Berlim e faz o seu pós-doutoramento na Universidade de Potsdam. Formou-se em Engenharia Civil no Instituto Superior de Agronomia  em Lisboa e deixou Portugal em 2007 para seguir um novo rumo profissional.

A propósito da sua participação na EGU- Assembleia Geral da União de Geociências Europeia no mês passado em Viena, Áustria (8-13 de Abril), a Berlinda teve a oportunidade de falar com o engenheiro português que vive na capital alemã e trabalha em diferentes projectos de investigação que o levam numa constante viagem pelo mundo fora. A partir da Alemanha, Miguel Delgado está permanentemente em contacto com o nordeste do Brasil, onde desenvolve actualmente o seu trabalho de modelos de previsão de precipitação e disponibilidade hídrica.

 

Estás fora de Lisboa desde 2007, primeiro como research assistant no GFZ, e desde 2012 como investigador pós-doutorado na Universitdade de Potsdam. Como surgiu a oportunidade de ir para a Alemanha?

Logo a seguir à licenciatura estive um ano a trabalhar como engenheiro civil em projecto ferroviário. Ao mesmo tempo escrevi a tese para a equivalência a mestrado pós-bolonha. Aí reparei que o fosso teórico e técnico entre a prática de engenharia e a investigação era enorme. Não me senti satisfeito em termos científicos com o que fazia e precisava de um desafio maior. Ao mesmo tempo queria maior liberdade para definir o meu ritmo e metodologias de trabalho. Prosseguir para doutoramento foi uma opção natural. Escrevi a várias instituições em Berlim e perto de Berlim até que apareceu uma oferta interessante que combinava o GFZ Potsdam e a UNU-EHS em Bona. Na escolha também pesaram questões pessoais.

Que balanço fazes destes anos na Alemanha e da tua evolução de carreira?

Foram anos bons, embora tenha muitas vezes pena da distância que se foi criando entre mim e Portugal. Por outro lado, a minha carreira beneficiou da facilidade com que aqui se estabelecem convénios internacionais desde cedo num doutoramento (Vietnam, China, Brasil). Os projectos são frequentemente muito internacionais, com trabalho de campo e participação em conferências em todos os cantos do mundo. Há apetência e meios financeiros dentro das instituições alemãs para estudar o que há lá fora, noutros continentes, noutros climas. Penso que essa terá sido a maior diferença em termos de experiência.

 

Em que consiste o teu trabalho e como é um dia típico para ti na Universidade de Potsdam? Estás envolvido em vários projectos no Brasil, podes explicar em que consistem?

O meu trabalho actual consiste em desenvolver mecanismos (modelos) de previsão de precipitação e disponibilidade hídrica no nordeste do Brasil. Temos uma equipa de quatro pessoas que desenvolve métodos de verificação das previsões, visualização online e tenta integrar toda informação gerada pela cadeia de modelos de previsão (desde modelos atmosféricos até de gestão de barragens).

Grande parte do tempo é passado a programar ferramentas  de computação para destilar informação útil à gestão da água em regiões semi-áridas a partir de conjuntos de dados gigantescos ou resultados de modelos. Por vezes temos de recorrer a super-computadores dada a dimensão do problema ou a região pretendida. Por exemplo: se há imagens de satélite regularmente sobre o Ceará onde é possível reconhecer espelhos de água, como é que vamos quantificar o volume de água armazenado nesses espelhos de água de forma automática? E como guardar esses milhares de formas todos os dias de forma estruturada? E como retirar informação útil desses dados para a previsão?

Vives em Berlim ou em Potsdam? Do que gostas mais e menos?

Vivo em Berlim. Gosto da vida a pé e de bicicleta, os meus filhos estão no infantário e gosto muito de os poder levar e buscar a pé nas calmas. Também gosto de ter um horário reduzido de 32 horas por semana e poder ter tempo além do trabalho.

Podes explicar um pouco mais sobre SecaVista – a aplicação que o teu grupo apresentou na EGU em Viena?

O seca-vista é uma aplicação web onde se pode visualizar índices de precipitação mensal passada e previsões dos mesmos índices. É um produto FOSS (free and open source software), o que nos orgulha muito. É uma colaboração FUNCEME-Uni Potsdam. A FUNCEME é uma instituição muito importante e competente no Nordeste, porque concentra know-how e autoridade ao nível estadual que de outro modo só existe em instituições federais no Brasil.

Ainda está numa fase muito inicial e deverá juntar-se em breve ao conjunto de ferramentas utilizadas para a gestão da água no nordeste -- um processo intensamente participativo e que deveria servir de exemplo a muitos sistemas com frequentes crises hídricas.

Quais são os teus projectos futuros?

Queria até Junho fazer o lançamento oficial do meu sistema de detecção de volume de água em barragens através de imagens satélite da ESA. Está já em funcionamento como ferramenta de visualização de espelhos de água, mas há muitas arestas a limar para ser utilizado de forma produtiva. Há neste momento também uma proposta interessante a ser desenvolvida pela UNILAB ( Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira) e pelo ministério do interior do Brasil onde esta ferramenta deverá ser utilizada para apoiar a gestão local de recursos hídricos.

Pessoalmente gostaria de conseguir trabalhar a partir de Portugal, mas ainda estou a tentar perceber qual será a melhor forma.

Porquê o foco no nordeste do Brasil -poderia ser em qualquer outro lugar do mundo? Foste tu que escolheste?

O nordeste do Brasil é um sítio extraordinário onde vivem pessoas há milhares de anos em condições de seca crónica sem paralelo no resto do mundo. Para tal, os nordestinos desenvolveram hábitos e técnicas que lhes permitem aproveitar a água com máxima eficiência. Historicamente sempre utilizaram muito a açudagem de pequena escala ou a recolha de águas da chuva. Neste momento o Ceará, um dos estados mais pobres do Brasil, possui um arcabouço institucional no sector da água que faz inveja a muitos países desenvolvidos. A gestão da água é feita de forma participada e muito transparente.

Por outro lado, as regiões semi-áridas apresentam desafios científicos interessantes: a geração de escoamento superficial é muito menos linear nestes ambientes do que em regiões temperadas ou húmidas. O mesmo se aplica a outros processos como evapotranspiração ou a erosão. Foi com estes processos em mente que inicialmente se iniciou a colaboração. Neste momento estamos numa fase mais aplicada, em que tentamos implementar certas ferramentas previamente desenvolvidas à gestão da água. Por exemplo, a plataforma seca-vista utiliza determinadas ferramentas para transferir previsões de grande escala para a escala regional ou local. Outro exemplo é a utilização de modelos hidrológicos na previsão de nível em reservatórios ou a detecção remota para caracterizar a disponibilidade hídrica em pequenos açudes.

Neste contexto, muitas instituições tanto académicas como governamentais têm uma grande abertura para cooperações com universidades estrangeiras. Foi neste quadro que o grupo de hidrologia e climatologia da Universidade de Potsdam iniciou há mais de 20 anos uma cooperação com a universidade federal no Ceará, mais tarde com o Instituto Federal do Ceará e agora com ambas as instituições e com a FUNCEME. Eu já estava vinculado com a Universidade antes do actual projecto ter começado, mas obviamente que a afinidade cultural e linguística fez com que tivesse sido eu a escrever a proposta e a iniciar os contactos de colaboração.

Como é para tem sido a experiência de trabalhar com brasileiros a partir da Alemanha?

Tenho o prazer de trabalhar com muitos brasileiros. Para além da competência técnica e profissionalismo, uma grande surpresa para mim foi a visão de futuro e estratégica que todos os colegas do Brasil têm. Também entre os brasileiros e brasileiras de todas as áreas e trajectos se reconhece um posicionamento político muito forte. Parece que mudar o mundo ainda importa no Brasil. O cearense Belchior resume tudo: "amar e mudar o mundo me interessa mais".

 

  

 
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Rita Guerreiro

Licenciada em Audiovisual e Multimedia pela ESCS – Escola Superior de Comunicação Social (Lisboa), chegou a Berlim em 2010. Depois de ter participado em vários projectos de voluntariado e iniciado o Shortcutz Berlim, juntou-se à nova equipa Berlinda em 2016 e desde então contribui com vários artigos e entrevistas para o magazine. 

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