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Instantâneos de Ismael Miquidade

No pátio de uma escola em Moçambique, oito ou nove meninos sorriem, parecendo estar bem à vontade diante de quem os fotografa. Este instantâneo de descontração bem poderia ser um autorretrato de Ismael Miquidade. No entanto, ele é o sujeito que está do outro lado, que dispara o botão da câmera e registra a imagem.


Fotógrafo por paixão e por convicção, Ismael tem um reconhecido trabalho iconográfico em Moçambique, onde nasceu e viveu a maior parte de sua vida, e na Alemanha, onde mora há nove anos. Em uma tarde ensolarada de quinta-feira, nos encontramos nas proximidades da estação Frankfurter Allee, em Berlim, cidade onde mora há três anos.


“Então, meu camarada, vamos tomar uma cerveja e conversar?”, propôs, assim que chegamos a um imbiss, um típico bar e restaurante alemão. Não foi uma nem foram duas cervejas. Foram quatro rodadas de Berliner e quase duas horas de conversa.


Nascido em Xai-Xai, ao sul de Moçambique, Ismael viveu também em outras regiões do país. Mas foi em Maputo, a capital, que fez sua formação. Primeiro, em fotografia, na Escola Nacional de Fotografia. Depois, em relações internacionais, no Instituto Superior de Relações Internacionais.


A partir de 2007, vieram recomeços e muita história para contar. Apesar da distância, a família Miquidade é seu o porto seguro. Aos 33 anos, ele está solteiro – “mas já fui casado” – adverte. Não tem filhos – “mas sou um bom tio” – garante, em meio a uma generosa gargalhada, referindo-se a Iunara, de quase 5 meses, e Zuber, de 11 anos, filhos do seu único irmão, Arfe.


“Apesar de estar longe de casa, o Ismael não perdeu as nossas raízes; é um autêntico moçambicano da gema por dentro e por fora”, reconhece a prima Gisela da Costa, que vive em Moçambique, onde moram também Aquissuassue e Catija, o pai e a mãe de Ismael.


“Meu pai tem sete irmãos e minha mãe, nove”, diz o fotógrafo, ressaltando que os Miquidade, além de serem uma família grande, são unidos e afetuosos. Mas ele parecia estar em casa também naquele imbiss em Lichtenberg, região central de Berlim. Cumprimentando um ou outro garçom e um ou outro conhecido que passava na rua, seus gestos revelavam um homem cheio de empatia e cordialidade.


Momento decisivo


“Na fotografia, existe um tipo de plasticidade, produto das linhas instantâneas tecidas pelo movimento do objeto. O fotógrafo trabalha em uníssono com o movimento, como se este fosse o desdobramento natural da forma, como a vida se revela”, afirmou Henri Cartier-Bresson. A constatação, feita em meados do século passado, tornou-se um clássico e imortalizou o francês na história da fotografia.


Entretanto, Ismael reconhece que não é a preocupação com o que Cartier-Bresson conceituou como ‘momento decisivo’ que determina seu trabalho fotográfico. ‘Decisivo’, para ele, é experimentar. Prova disso é que as fotos entraram na sua vida por acaso. Nas festas e nas reuniões em família, Ismael era o menino com a câmera nas mãos brincando de registrar a vida em família, as pessoas, os instantes.
Com a curiosidade e a formação, vieram as imagens profissionais e as exposições. Em 2011, Ismael recebeu da Accademia Apulia, no Reino Unido, o Certificate of Commendation do Photography Award.

 

Em 2016, participou da Kunst am Spreeknie: Art Festival e da Richtung Karlshorst, ambas em Berlim. Além disso, ele tem levado imagens de Moçambique para cidades com Turim, Aachen, Londres e Budapeste.


Enquanto crescia, o menino com a câmera nas mãos tornava-se um adolescente interessado em falar diferentes idiomas. O português é a língua materna. Na escola, vieram o francês e o inglês. Depois, o espanhol, com o gosto pela música cubana. Em seguida, por causa de trabalho e do interesse pelas canções de Fabrizio De André, o italiano. Finalmente, o alemão. “Porque eu moro aqui e tinha que ser, não é?” (risos). “E estou a aprender grego”, acrescenta.


Um pouco depois – ou, quem sabe, tudo ao mesmo tempo – a fotografia e os idiomas começaram a plasmar o interesse de Ismael pelas pessoas. Não é por acaso que, desde 2015, ele trabalha na Deutsches Rotes Kreuz (DRK), a Cruz Vermelha da Alemã. “Incialmente, eu estava ligado ao setor de acolhimento. Hoje, estou na administração”.


Foi na lida com refugiados que Ismael mais teve oportunidade de acolher pessoas, algo que não exige muito de quem tem empatia de sobra. Ali, ele desenvolveu a tarefa que considera uma das mais significativas da sua vida profissional, unindo sua paixão pela fotografia, pelos idiomas e por gente.


- Havia refugiados da Síria, do Afeganistão, do Iraque e até imigrantes vindos do Vietnã. Saímos para visitar e fotografar Berlim e depois fizemos uma exposição. Acho que foi um trabalho muito bonito, conta Ismael sobre a experiência realizada em 2016.


Talvez ele reconheça que registrar a cidade em fotos seja uma forma de se adaptar e de sobreviver à nova terra. Talvez ele tenha ensinado aos seus alunos o que já deve ter descoberto: cada um, do seu modo, faz de cada ‘instantâneo’ uma oração para que a nova casa lhe seja acolhedora e generosa.

Intensidade

A vida de Ismael na Alemanha começou em Colônia e teve uma breve passagem por Ulm. Nos primeiros tempos vivendo no país, ele fez amizade com a médica grega Olga Ntasi, que atualmente também mora em Berlim. Os dois permanecem amigos até hoje.


Para ela, Ismael é um exemplo do que os países africanos e europeus podem unir:
- Ele vive entre esses dois mundos, tendo saudades de seu país, da sua cultura e nunca esquecendo de onde vem. Mas também não lhe falta nada do que a Alemanha e Berlim têm para oferecer, diz Olga.
Ela destaca que o amigo é um sujeito sempre aberto a novas experiências, especialmente quando se trata de interagir com outras culturas. “Ele tem a cabeça e o coração muito intensos, o que o torna realmente otimista, aberto e muito generoso”.


Mas Ismael deixou saudades na terra natal. “É difícil no início, mas com o passar do tempo a gente se acostuma à distância”, diz a prima Gisela sobre a forma com a família lida com os forasteiros que vivem fora de Moçambique.


Embora reconheça que falar a língua alemã é um passo fundamental para sentir-se inteiro na nova casa, a Alemanha, Ismael diz que sempre esteve confortável em terras germânicas. “Se calhar, este é um país onde se pode ser livre. Onde se tem liberdade religiosa, de orientação sexual”.


Talvez seja exatamente por isso que o Karneval der Kultur, festa que acontece em Berlim todo mês de maio e congrega as nacionalidades que vivem na capital, seja o evento que ele mais admira e gosta de frequentar. Berlinenses de nascimento ou de coração sabem que conviver com diferentes culturas é a melhor forma de aproveitar a cidade. E Ismael, certamente, é mais um cidadão do mundo que se perde, se encontra e se reinventa em meio a este cosmopolitismo.


- A Alemanha é, se calhar, um país muito justo. Berlim tem alguns problemas, como a dificuldade de se encontrar emprego e, principalmente, lugar para morar. Mas quando se trabalha para isso, se leva isso a sério, tudo acontece, diz Ismael.


O fotógrafo moçambicano é um homem que conseguiu. Para ele, as coisas aconteceram e continuam a acontecer. É daqueles seres humanos que sabem que aquilo que dá sentido à vida é estar na companhia de outras pessoas. Daquele tipo de gente cujo coração está em constante festa.


Quem conhece Ismael sabe disso. “Esta cerveja é da nossa terra, Moçambique, e o Ismael adora”, escreveu a prima Gisela, referindo-se a uma foto, enviada pelo WhatsApp, da cerveja Laurentina. “Ele é apaixonado por boa comida, música e dança, especialmente kizomba ou qualquer outra que inclua contato corporal”, reconhece a amiga Olga.


Ismael se despediu de alguns garçons do imbiss. Nos despedimos também e fomos cada um para um lado da rua Rigaer Straße, mas tive a sensação de que aquela conversa não tinha acabado. Lembrei da foto dos oito ou nove meninos no pátio da escola, em Moçambique. Assim como as crianças, o falante Ismael é um sujeito de bem com a vida. Gente que é sempre bom encontrar e conversar, seja nas ruas de Berlim ou em qualquer parte do mundo.

Texto e Fotos: Enio Moraes Júnior

Enio Moraes Júnior

Enio Moraes Júnior é um jornalista e professor brasileiro. Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (Brasil), vive em Berlim desde 2017. Apaixonado por gente e por boas histórias, trabalha com produção de conteúdo online em língua portuguesa, cobre eventos culturais e escreve sobre estrangeiros que povoam as ruas da capital alemã.

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