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“Mesmo em países onde é legal, o aborto continua a ser um tema tabu” - conversa com Maria Trigo Teixeira

19/04/2020

Foto: ©Maria Trigo

“Inside me” já passou pelo Interfilm em Berlim, pelo Festival de Cinema Independente de Barcelona ou ainda pelo festival Curtas de Vila do Conde, onde ganhou o prémio de “Melhor Realização”. O sucesso que a curta está a ter foi uma grande surpresa para a realizadora, que confessou não ter imaginado uma recepção tão boa. "Para mim era somente importante que conseguisse passar em alguns festivais, para ter algum público", disse Maria Trigo Teixeira em entrevista ao PT Post. Vários festivais e prémios depois, falou ao PT Post do seu percurso académico, do seu gosto pela animação

e do aborto.

 

Maria Trigo Teixeira deixou Lisboa em 2014 e fixou-se em Berlim para estudar animação naquela que é uma das mais consagradas escolas de cinema alemãs.  "Inside me" é a primeira curta que realizou e fala da experiência de Anna, uma jovem que se depara com uma decisão delicada e bastante inesperada: fazer ou não um aborto. O tema é o processo complexo e duro de tomada de decisão que comporta sentimentos contraditórios. A animação, com ilustrações em forma de esboços feita num estilo bastante minimalista, acompanha o relato desta história pessoal. "A voz que ouvimos no filme é o áudio original", contou ao PT Post. Pode ser visto online na mediateca do canal ARTE até dia 4 de Junho deste ano.

 

A questão da interrupção voluntária de gravidez, especialmente sensível para o público feminino, é ao mesmo tempo uma discussão sob uma perspectiva de saúde pública. "Mesmo em países onde é legal, o aborto continua a ser um tema tabu, há pouca abertura para falar dele”, disse Maria Trigo Teixeira ao PT Post. Escolheu assim focar-se numa experiência específica para contar a história “de alguém que tivesse abortado por sua livre vontade e num contexto em que fosse legal. Queria focar-me na experiência pessoal e em como uma mulher lida com essa decisão", concluiu.

 

No seu currículo é ainda de salientar “Drowning” (2018), do brasileiro Pedro Harres, seu colega da escola de cinema, na qual fez assistência de realização e ainda o Storyboard. O Deutscher Kurzfilmpreis foi um "grande empurrão", como nos conta a própria realizadora que já tem novos projectos em curso e, passe-se a expressão, segue assim o seu caminho muito animada.

 

Para começar, podes contar-nos qual é a tua formação? 

Tirei a licenciatura em Design de Comunicação na Faculdade de Belas Artes do Porto. Logo de seguida mudei-me para Dresden para fazer um estágio num atelier de design e no final ofereceram-me um contrato de trabalho, pelo que fiquei mais um ano. Depois entrei na licenciatura em animação na Filmuniversität Babelsberg Konrad Wolf em Potsdam que concluí recentemente.

 

Porquê a animação?

Quando era adolescente fui ver uma sessão de curtas de animação no Festival Monstra, em Lisboa, e não fazia ideia do que me esperava. Fiquei completamente fascinada. Cada filme tinha um estilo diferente, cada um criava o seu próprio mundo com as suas regras. As possibilidades de expressão através do movimento, das texturas, do som e da música... Vão ver um festival que passe curtas de animação e vão perceber! No entanto, quando acabei a escola não pensei que a animação fosse uma carreira possível, Portugal é um país pequenino e havia muito pouco a acontecer nessa área e também poucas opções de formação. Quando, no fim do curso de Design, vim morar para a Alemanha, apercebi-me que as condições para estudar aqui eram bastante boas e a oferta formativa também, pelo que decidi voltar à universidade. 

 

Já vives em Berlim há uns bons anos, o que gostas mais e menos da cidade? 

O que menos gosto neste momento é a dimensão. Em comparação com outras cidades onde morei, Berlim é bastante grande e por vezes  passa-se muito tempo em deslocamentos. A parte boa é que Berlim é uma cidade cheia de energia e com uma vida cultural muito rica. Quando cheguei tive a sensação de que aqui “tudo era possível”, não havia barreiras à criatividade. Uma das melhores memórias que tenho dos primeiros tempos foi organizar uma exposição com uma amiga no nosso “WG” (apartamento partilhado): convidámos amigos nossos a expor e, apesar de ser um evento privado, conseguimos um patrocínio de uma marca de bebidas.

 

Voltando aqui ao tema principal da conversa: também trabalhas em ilustração? Alguma vez pensaste em ilustrar um livro?

Já trabalhei com ilustração em diferentes contextos. Por exemplo, fiz ilustrações para o documentário "When Paul came over the Sea", de Jakob Preuss, que foram utilizadas para ilustrar partes da história em que não existia material de vídeo. Nunca ilustrei um livro mas, se a oportunidade aparecer, teria muito gosto.

 

Que técnicas costumas usar? Que técnica usaste em "Inside me" ?

Gosto muito de animação 2d em todas as suas vertentes: seja animação frame a frame (tradicional ou digital), bem como técnicas de animação em que o trabalho acontece por baixo da câmara, seja pintura sobre vidro ou animação de recortes.  “Inside me” foi feito em animação tradicional 2d. Desenhei cada frame com pincel e tinta da china sobre papel. Os frames foram depois digitalizados. Algumas sequências do filme foram compostas digitalmente a partir de vários desenhos.

 

Quanto tempo demorou esse processo? 

Depois de gravar as entrevistas e seleccionar uma, demorei alguns meses a editar a gravação, que originalmente tinha uma hora. Entretanto fui fazendo alguns testes de animação e desenhando ideias que tinha. Quando já tinha a estrutura da história, algumas imagens-chave e um storyboard muito solto, comecei a animar. Demorei cerca de oito meses a animar tudo e esta foi sem dúvida a parte mais intensiva do projecto. Paralelamente, fui trabalhando com a minha designer de som, Aleksandra Landsmann, e com o meu amigo Falk Meutzner, que fez a música. 

 

E quanto ao tema da curta, o aborto, como surgiu esta escolha? Qual foi o ponto de partida para a história de “Inside me”?

Interessou-me explorar este tema de um ponto de vista íntimo - o de alguém que teve essa experiência - para perceber melhor as questões e sentimentos com que uma mulher se vê confrontada e a complexidade do tema.  A interrupção voluntária de gravidez é muitas vezes analisada de um ponto de vista moral, social ou religioso e é dada pouca relevância a relatos pessoais. Mesmo em países onde é legal, o aborto continua a ser um tema tabu, há pouca abertura para falar dele. Este estigma só traz ainda mais problemas a alguém que já está numa situação complicada. Creio que a falar é que nos entendemos, especialmente com temas delicados. A história que me interessava contar era de alguém que tivesse abortado por sua livre vontade e num contexto em que fosse legal. Queria focar-me na experiência pessoal e em como uma mulher lida com essa decisão. Comecei por me encontrar com várias mulheres e gravar as suas histórias. Depois, durante a edição, decidi que seria melhor focar-me só numa dessas histórias, de forma a criar uma relação mais íntima com a protagonista. A voz que ouvimos no filme é o audio original.

 

Esta foi a primeira curta que realizaste, certo? 

Sim, que realizei e animei. Fiz alguns pequenos exercícios antes, mas este é a primeira curta "a sério".

 

"Inside me" esteve este ano em vários festivais. Este teu trabalho de final de curso superou as tuas expectativas em termos de sucesso que está a ter?

Superou nem é a palavra certa... Acho que explodiu com as minhas expectativas. Não fazia ideia de como o filme iria ser recebido e para mim era somente importante que conseguisse passar em alguns festivais, para ter algum público. A estreia em Vila do Conde foi um momento muito bonito mas também bastante assustador... Depois de passar mais de um ano submersa no filme, tinha ali uma sala cheia e nao fazia ideia como iriam ser as reações. Tem sido muito bom falar com o público e sentir que os sentimentos que tentei expressar com o meu filme chegam a quem o vê.

 

E como foi ganhar o prémio alemão de "Melhor Animação" com a curta "Inside me" em Novembro passado? Foi o maior prémio até à data?

Foi simplesmente inacreditável e maravilhoso! O Ministério da Cultura e dos Media mostra um grande apoio ao formato curta metragem com este prémio. É um grande empurrão, porque ganhamos apoio financeiro para realizar um novo filme. Para além disso todos os filmes nomeados fazem agora parte do "kurz.film.tour", um programa de curtas que vai passar por cinemas em toda a Alemanha, e quanto mais público melhor! 

 

Entretanto ganhaste mais prémios, foste entrevistada várias vezes em alemão e inglês. Em Março “Inside me” passou no canal ARTE… Achas que o público está a receber bem a mensagem que querias passar?

Creio que sim. Para mim é reconfortante ver que há uma resposta emocional por parte do público, quer feminino quer masculino. E claro, também há pessoas que passaram por uma situação semelhante ou têm alguém próximo que passou por isso, e naturalmente se sentem mais próximas do filme.

 

Por fim, podes contar-nos algo sobre os teus projectos futuros?

Neste momento estou a trabalhar numa curta de animação chamada “Tako Tsubo”, de Eva Pedroza (artista plástica) e Fanny Sorgo (guionista). No final do ano gostaria de começar um novo filme de minha autoria.

Rita Guerreiro

Licenciada em Audiovisual e Multimedia pela ESCS – Escola Superior de Comunicação Social (Lisboa), chegou a Berlim em 2010. Depois de ter participado em vários projectos de voluntariado e iniciado o Shortcutz Berlim, juntou-se à nova equipa Berlinda em 2016 e é desde então editora do magazine, para o qual contribui com vários artigos e entrevistas. 

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