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Gonçalo M. Tavares: “odeio a ideia de que tudo o que se faz seja novo”

Foto: Gonçalo M. Tavares © Teresa Sá

Nascido em Luanda, o professor de Epistemologia da Universidade de Lisboa fala do seu romance premiado Jerusalém e porque demorou tanto tempo a ser publicado.

Após um passeio matinal, pouco antes de um aguaceiro se aproximar, Gonçalo M. Tavares, de 38 anos, entra no Lobby do Hotel em Liubliana. As suas feições assim como os seus movimentos são tão suaves quanto a sua voz. O auto-designado citadino compara a capital eslovena com Aveiro, cidade onde cresceu antes de se mudar para Lisboa aos 18 anos. Os seus pensamentos são rápidos e ligeiros. “Gosto de cidades pequenas”, afirma, e os seus olhos sorriem.

 

A escolha de uma identidade

Barbara Jursic, a tradutora dos seus livros para esloveno, junta-se a nós. Gonçalo M. Tavares ora fala em inglês ora em português e conta que a Europa não lhe adiantou nada enquanto leitor e escritor — as traduções literárias para português ainda são muito raras — apesar de unir muitas identidades. “Mas, na sequência da crise económica nasce uma identidade mais multifacetada do que apenas uma mera identidade europeia”, afirma.

M. Tavares compara a sua própria identidade com a de um empreiteiro. O seu pai, um engenheiro civil, levou-o muitas vezes com ele para o trabalho. “Os empreiteiros abrem buracos, constroem alicerces e, pouco a pouco, constroem mais e mais. Para mim, o momento mais bonito era quando tudo estava pronto, nós partíamos, e a casa permanecia no mesmo lugar. Com o tempo comecei a gostar da ideia de construir algo que se tornasse independente também.” O seu amor pelos livros nasceu na biblioteca do pai. “Hoje estou aqui, e algures por aí alguém está a ler os meus livros,” diz com um sorriso nos lábios. “Vivem a sua própria vida.”

Como convidado no Fabula — o festival internacional de histórias na capital eslovena — Gonçalo M. Tavares apresenta o seu romance Jerusalém e a série de histórias O Bairro. Cada um dos sete volumes desta obra é dedicado a um certo senhor Brecht (O Senhor Brecht, 2003) ou a um senhor Walser (O Senhor Walser, 2006), escritores em cujos trabalhos encontrou “um especial e alegre brilho.”

A primeira escritora, a senhora Woolf, também está prestes a estabelecer-se. Marcado pelo estilo e tópicos de um Henri ou de um Calvino, cada história de Gonçalo M. Tavares pertence, porém, ao seu próprio mundo dos pequenos disparates. “Nunca planeio o que vou escrever, as peculiaridades vão surgindo e eu simplesmente desenvolvo-as.” Com este método pretende, com a teoria e história da literatura como pano de fundo, criar algo pessoal. “Odeio a ideia de que tudo que se faz seja novo”, explica apaixonadamente, inclinando-se sobre a mesa. “É leviano. Apenas alguém que não se dedique à História e não tenha lido muito acha que tudo é novo e primordial.”

Ódio e futilidade

Durante anos, Gonçalo M. Tavares “adiou” a publicação das suas obras literárias, porque temia que fossem demasiado desconcertantes. Demorou seis anos até publicar, em 2006, outra colectânea de histórias —  água, cão, cavalo, cabeça — porque relia e re-editava as histórias muitas vezes, acabando por escrever livros totalmente novos. “Só depois de ter escrito dessa maneira e de ter relido o texto vária vezes, me apercebi do ponto em que me encontrava. Estava convencido que ou iria ser bem recebido ou então fortemente criticado.” Em 2001, teve sorte com a publicação do seu conjunto de poemas Livro da dança. Os seus trabalhos foram recebidos com admiração e carinho por pessoas como o Nobel da Literatura, José Saramago, que ― depois de ter atribuído, em 2005, o Prémio Literário José Saramago ao romance Jerusalém ― afirma, que “Gonçalo M. Tavares não tem o direito de escrever tão bem apenas aos 35 anos: dá vontade de lhe bater!”

Jerusalém, um romance sobre violência, insanidade e dor, foi considerado “um livro, que pertence à grande literatura ocidental” e venceu, em 2007, o Prémio Portugal Telecom. No centro da história está uma mulher num hospício. Gonçalo M. Tavares ri-se quando lhe falamos sobre a sua fascinação por “pessoas estranhas”. Heróis não são apenas aqueles que fazem coisas significativas – no final de Jerusalém Mylia, a heroína da história, encontra-se diante das portas de uma igreja, perguntando: “Matei um homem. Posso entrar?” Tal como os antigos gregos, M. Tavares acredita em heróis que formulam um grande pensamento no momento em que se encontram num acontecimento sem precedente. Gonçalo despreza a simbologia. Segundo ele, o Hospital Georg-Rosenberg, que é descrito em Jerusalém, “pode ser ligado” ao ideólogo-nazi Alfred Rosenberg, apesar de não ser intencional. “Mas talvez o nome esteja relacionado com arquitectura — cabe ao leitor, perguntar-se sobre estas questões. Não tenho uma resposta, e mesmo que tivesse, seria um mero entrave.”

Open source-Tavares

As suas obras servem de inspiração a instalações, óperas e peças de teatro — por último em Belém e Porto Alegre, no Brasil. Segundo ele, não tem ligação sentimental com o seu trabalho, considerando-o uma obra moderna, do tipo open-source. “Foram criadas obras impressionantes. Encorajo os artistas a distanciarem-se dos textos, caso o considerem necessário. O trabalho é deles. Tem a sua própria importância.” A arte contemporânea comove-o em especial, porque está “repleta de ideias. O que interessa são as questões e os pensamentos que são suscitados nas pessoas, e não a sua forma.”

Quando perguntamos se considera que os livros continuam a ser uma forma de expressão de moda, ele pausa para pensar antes de se erguer e responder. “A internet não é um problema, quando as pessoas pagam o que lêem. Mas gosto mais do papel — é bom tocar num livro e segurá-lo nas mãos. Dito de forma muito geral, a ideia da escrita e das palavras nunca deixará de existir. No caso dos livros, enquanto objectos materiais, é diferente. Homero não escrevia da mesma forma como eu escrevo hoje, também não escrevia livros, tal como os conhecemos hoje. Apesar disso, as obras dos poetas sobreviveram aos séculos. São necessárias para saber o que se passa no mundo.” E a escrita é igualmente uma necessidade:  “Não se trata necessariamente de uma correcção de erros ou de substituição de quaisquer experiências traumáticas. Sabe-se que não há nada que nos possa transmitir o que a escrita nos transmite: o prazer de construir casas e lugares.”

Texto: KRISTINA BOZIC

Publicado originalmente em alemão em: Café Babel

Com um agradecimento especial a Kristina Bozic e ao Café Babel pela cedência do texto, à Agência Literária Mertin e a Teresa Sá pela cedência da foto, e a Rita Raimundo pela tradução em português.

 

 

 

 

  

 
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