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Entrevista com Georgina Benrós de Mello, uma economista a serviço da língua portuguesa

14/06/2018

Para a diretora geral da CPLP, é importante que as línguas nacionais e as culturas de origem sejam preservadas e valorizadas em qualquer parte do mundo, inclusive em metrópoles como Berlim. Foto ©Enio Moraes Júnior

Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste são os nove países que integram a CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa). Fundada em 1996, a Comunidade tem por objetivo fortalecer os laços entre os Estados-membros que a constituem, estimulando as atividades econômicas e o desenvolvimento humano dos seus povos.

A diretora geral da entidade, Georgina Benrós de Mello, é uma cabo-verdiana que viveu e estudou no Brasil, em Portugal e nos Estados Unidos. Formada em Economia, ela é mestre em Patrimônio, Turismo e Desenvolvimento pela Universidade de Cabo Verde. Há poucas semanas, a diretora participou de uma conferência em Berlim, onde falou do potencial da CPLP.

Nesta entrevista, Georgina volta ao tema, conta quais são os seus autores preferidos em língua portuguesa e fala da importância de preservar as identidades em metrópoles como Berlim. “Ao estarem bem integradas e reconhecidas pelas sociedades de acolhimento, as nossas diásporas serão mais capazes de dar contributos decisivos”, avalia.

 

Recentemente, em um evento em Berlim, a senhora avaliou que os países que compõem a CPLP formam um espaço linguístico e cultural com forte potencial geoestratégico e geoeconômico. Entretanto, reconheceu que as trocas comerciais entre estes Estados ainda são pouco expressivas. O que precisa ser feito para ampliar estes laços? Quais as estratégias da Comunidade nesse sentido?

Se soubermos dotar-nos das políticas públicas apropriadas, e criar ambientes de negócios amigáveis, e se as nossas empresas se prepararem e forem capazes de cumprir os critérios de qualidade mais exigentes, prevalecentes no mercado internacional, poderemos sonhar com uma intervenção alargada nos mercados das organizações regionais a que nossos países pertencem, e cujo potencial combinado aproxima-se dos 2 bilhões de consumidores, se incluirmos a Associação das Nações do Sudeste Asiático a que Timor-Leste aspira aderir num futuro próximo. O caminho a percorrer para lá chegarmos requer um forte compromisso político para a conceptualização de metas conjuntas, para a implementação de ações e medidas necessárias, exequíveis e promotoras da ação empresarial: facilitação e supressão de vistos para circulação dos cidadãos entre os Estados-membros; acordos de promoção e proteção recíproca de investimentos; acordos para evitar dupla tributação; criação de mecanismos de mediação de conflitos e de arbitragem; desenvolvimento de sistemas de garantias à exportação e de qualidade; criação de sistemas de crédito às PME, etc.

 

A Torre de Babel é uma metáfora que descreve bem, hoje, muitos centros urbanos do mundo. Berlim é um deles. É importante que a identidade cultural e linguística dos estrangeiros seja preservada nestas metrópoles contemporâneas?

Nas nossas diásporas, em qualquer continente, em qualquer país, e portanto também nas grandes capitais como Berlim, é importante que as nossas culturas de origem sejam preservadas e festejadas, e que nossas línguas nacionais sejam valorizadas. Uma forte identidade das comunidades que compõem as diásporas representa um contributo importante para o enriquecimento das sociedades de acolhimento, para o reforço da autoestima dessas comunidades. Concomitantemente, uma forte identidade cria as condições para uma bem-sucedida integração nas sociedades de acolhimento. Ao estarem bem integradas e reconhecidas pelas sociedades de acolhimento, as nossas diásporas serão mais capazes de dar contributos decisivos, a um tempo, para o crescimento das sociedades de acolhimento e para o desenvolvimento dos seus países de origem.

 

A CPLP compromete-se a impulsionar o desenvolvimento econômico e humano dos Estados que a integram. Mas parte da população destes países vive no exterior. Em muitos casos, por conta da pobreza, esses cidadãos migram sem conhecer o idioma do país-destino. Existe, por parte da Comunidade, projetos que visem orientar, ou mesmo acolher, estes imigrantes em países não lusófonos?

A integração dos imigrantes nos países de acolhimento passa pelo seu próprio esforço de aprendizagem da língua nacional do país onde decidiram (re)fazer a sua vida. Refiro-me tanto a um esforço individual, de cada pessoa e de cada família, como também a um esforço das organizações associativas das nossas comunidades na diáspora. Não vejo outro caminho. A CPLP não tem projetos neste particular. Os esforços da CPLP são feitos através do seu Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), e vão no sentido de reforçar a identidade das diásporas, fornecendo às nossas comunidades os instrumentos que permitam manter viva a língua portuguesa, aquela que cimenta a comunicação entre os nossos povos, e que fixa a nossa identidade comunitária. Isso é feito disponibilizando no portal do IILP e através da sua página PPPLE, um conjunto de materiais didáticos que apoiam os esforços das organizações associativas das nossas diásporas, das representações diplomáticas dos nossos países e de outras organizações do país de acolhimento no ensino do português. O PPPLE (Portal do Professor de Português Língua Estrangeira / Língua Não Materna) é uma plataforma online, que tem como objetivo central oferecer à comunidade de professores e interessados em geral, recursos e materiais para o ensino e a aprendizagem do português como língua estrangeira / língua não materna. Nele pode-se encontrar uma diversidade de materiais, de entre os quais cito os materiais para o ensino de Português Língua de Herança / Português para Crianças, que têm como público-alvo privilegiado as nossas crianças, nas comunidades das nossas diásporas. Além dos materiais didáticos de suporte para o ensino de Português Língua Estrangeira / Língua Não Materna, muito úteis para sociedades como a minha, a cabo-verdiana, onde a língua nacional, a língua materna, é o cabo-verdiano e não o português.

 

Nascida em Cabo Verde, a senhora viveu e estudou em Portugal, no Brasil e nos Estados Unidos. Além disso, viaja com frequência para outros países, onde tem contato com outras línguas. A partir da sua experiência, avalia que é importante que os jovens lusófonos de hoje aprendam outros idiomas? Até que ponto isso é determinante para crescer profissionalmente?

A aprendizagem de outras línguas é, no mundo de hoje, um instrumento importante para a vida profissional de qualquer um, mormente para as jovens gerações. Num mundo em acelerada mudança, o domínio de várias línguas é sem dúvida um fator diferenciador e valorizador em qualquer profissão. Um currículo que ateste competências em mais do que uma língua é seguramente, nas sociedades e organizações modernas, um fator diferenciador e de preferência em qualquer processo de admissão. Acresce que está demonstrado que as crianças que desde tenra idade aprendem a dominar várias línguas possuem uma facilidade maior na compreensão e no domínio da matemática, com todas as consequências positivas daí decorrentes na sua vida futura.

 

Em Cabo Verde, além da língua portuguesa, é falado também o crioulo. Como isso se traduz, em termos de produção cultural e, sobretudo, literária, para o país?

Vejamos. Por um lado, o processo histórico que conduziu à formação da nação cabo-verdiana, aliado ao facto de sermos um arquipélago isolado no meio do Atlântico, a 500 km da costa da África ocidental, determinou a mestiçagem, que representa o nascimento de uma nova raça, resultante da interpenetração de diversas raças e culturas. Por outro lado, os resultados da configuração da maior parte das ilhas – altas montanhas e profundos vales – foram acelerados pela proximidade do deserto do Sahara, sob cuja influência vivemos. Tudo isso determinou a existência de um país desértico, cujas condições foram agravadas pelo tipo de culturas (nomeadamente o milho) e pelo tipo de animais (sobretudo o gado caprino) introduzidos em Cabo Verde com a colonização e o povoamento do arquipélago. Um país que vive há séculos um acelerado processo de desertificação, com fomes e mortandades cíclicas. Foi assim gerada uma nação dotada de uma cultura vibrante, traduzida numa forte produção cultural, e numa literatura cada vez mais reconhecida além-fronteiras. Na realidade, a literatura cabo-verdiana é tão rica e antiga que costuma-se dizer que a independência literária de Cabo Verde foi declarada décadas antes da independência política, que só correu a 5 de Julho de 1975. Dito isto, importa sublinhar que a língua materna é o cabo-verdiano, o crioulo cabo-verdiano, e que o português, sendo a língua oficial, a que nos permite comunicar com o mundo, é dominada por uma elite da população.

 

Para terminar, como sugestão para os nossos leitores, pode citar os dois ou três autores lusófonos que mais gosta de ler e as razões dessa escolha?

Dois ou três? Fica-me difícil de escolher… Permita-me, antes de mais, falar de autores cabo-verdianos. Para começar, eu sugeriria aos vossos leitores Germano Almeida, romancista, a quem acaba de ser outorgado o Prémio Camões 2018, o maior prémio da literatura em língua portuguesa. Eu confesso-me, de há muito, fã da sua escrita. Um dos meus favoritos é “A Ilha Fantástica”, um livro absolutamente delicioso. Aqueles que preferem ler poesia, acredito que se deleitarão com os poemas de Arménio Vieira, também Prémio Camões, em 2009, e que este ano marcou presença na Feira de Leipzig, ou ainda, os poemas de Vera Duarte. Entre tantos outros, gosto também muito dos romances de Teixeira de Sousa, de que uma das obras, “Ilhéu de Contenda”, foi transposta para o cinema pelo realizador cabo-verdiano Leão Lopes nos anos 90. Indo além Cabo Verde, no mundo de língua portuguesa, poderia citar tantos outros nomes… Mas tenho de confessar uma paixão particular por Jorge Amado, do Brasil, cujos livros oferecem tantos pontos de contacto com a realidade do meu próprio país, e que tive o privilégio de conhecer quando visitou a Cidade da Praia, nos anos 80, acompanhado de sua esposa Zélia Gattai. Uma visita memorável, que deixou saudades.

Entrevista: Enio Moraes Júnior (eniomoraesj@gmail.com)

 

  

 
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Enio Moraes Júnior

Enio Moraes Júnior é um jornalista e professor brasileiro. Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (Brasil), vive em Berlim desde 2017. Apaixonado por gente e por boas histórias, trabalha com produção de conteúdo online em língua portuguesa, cobre eventos culturais e escreve sobre estrangeiros que povoam as ruas da capital alemã.

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