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“Feminista, Baby!”

Foto © Marc Wathieu

“Feminista, Baby!”, em cena no Deutsches Theater (várias datas até 31 de Dezembro), leva três homens a interpretar o manifesto ultra-radical da feminista Valerie Solanas, de 1967.

 

"A maioria dos homens, autênticos cobardes, projectam na mulher as suas fraquezas intrínsecas, rotulando-as fraquezas femininas e fazendo-se acreditar na posse de virtudes femininas (…). Uma mulher não só toma a sua identidade e individualidade por adquirida, como sabe, instintivamente, que o único mal é magoar o próximo, e que o sentido da vida é amar." SCUM Manifesto, Valerie Solanas, 1967.

 

No metro, a caminho do Deutsches Theater, na Schumannstraße 13, enquanto passava, distraído, o dedo pelas notícias que me iam aparecendo no ecrã do telemóvel, dei comigo a ler um artigo sobre o orgasmo feminino. Desse artigo fiquei a saber que, fisiologicamente, a sexualidade dos homens não é mais que uma continuação, ainda na fase de feto, da evolução do clitóris.

 

Desígnio do destino ou não, tal artigo não poderia ser introdução mais apropriada para a peça que me esperava. “Feminista, Baby!” traz para cena uma interpretação do manifesto de Valerie Solanas; feminista radical, que em 1968 tentou assassinar Andy Warhol a tiro – ponto de partida para a sua missão de exterminar todos os homens: felizmente sem sucesso.

 

A peça inicia com três homens entrando em palco ainda com as luzes acesas e a cortina do palco fechada. Em silêncio, despem-se, fazem a barba e voltam a vestir-se; colocando cada um deles um vestido branco e uma peruca loira, fazendo lembrar Marilyn Monroe.

 

Daí para diante, estes três homens encarnam a voz de Valerie Solanas, interpretando um texto fortemente anti-sistema, onde o sistema é, na ideia de Valerie, o homem – o sexo masculino. Um texto de violenta ruptura e contestação de uma sociedade normalizada e dominada por valores ultra-capitalistas, onde a mulher continua a surgir como elemento submissivo ao homem.

 

O espectáculo mistura teatro com outros meios: vídeo, voz-off, música e um cenário minimalista, contudo opulento. A traços, esta mistura de meios resulta-me bem, outras vezes algo prepotente. Porém, tal miscelânea não impede a audiência de ser rir que é um regalo. Não sendo o manifesto de Valerie Solanas uma comédia, fico-me crente que o embaraço da redução das diferenças de géneros a clichês sexuais se alivia por meio do riso. Sim, rir é bom.

 

Ora, devo confessar que a exposição a um rol de actos de sensibilidade reservados ao sexo feminino e outro tanto de bestialidades reservada ao sexo masculino, me fez questionar se poderia eu ser uma mulher; mas não, e não por amor e adoração à mulher, pois é na distância de um género que encontro a sublimidade da sua beleza; assumo-me, sim, contestatário de um sistema normalizador e alienante, porém descrente que o problema resida na desenvoltura do clitóris.

 

  

 
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Édi Kettemann

O Édi é uma pessoa muito curiosa, que se interessa por tudo aquilo que vê. Adora observar pessoas, os seus movimentos e interacções. Este é provavelmente o principal motivo que fez despertar nele, já desde pequeno, a paixão pelo cinema, teatro, pela escrita e fotografia. De formação engenheiro electrotécnico, algo que lhe deu a oportunidade de viver em diferentes países, interagir com diferentes culturas e familiarizar-se com várias línguas, dedica-se à cultura e à educação. Vive em Berlim desde 2016.

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