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The Legendary Tigerman, nome artístico de Paulo Furtado, músico blues português, estará em tour pela Europa a partir de 15 de Março e passará por França, Suiça, Alemanha e Espanha. A tour pela Alemanha é uma estreia para The Legendary Tigerman, que subirá ao palco em cinco cidades: Munique (26/03), Nuremberga (27/03), Köln (28/03), Hamburgo (30/03) e Berlim (31/03).

 

“Espero que corra bem e que seja a primeira de muitas. Adoro tocar para novos públicos e sentir que todas as noites tenho que dar o meu melhor, que nunca me devo dar por satisfeito ou deixar de dar tudo”, diz à Berlinda. Berlim já conhece de concertos anteriores. “A escala da cidade é impressionante, adoro perder-me nela. E continua a ser uma das cidades artisticamente (e não só) mais excitantes do mundo”, revela.

 

Nascido em Moçambique, Paulo Furtado guarda poucas lembranças de infância, mas assegura que os blues africanos e os ritmos tribais influenciaram a sua música. Regressou recentemente ao país “para um pequeno (enorme) papel no filme Ruth, de António Pinhão Botelho, como pai de Eusébio, e também como  consultoria musical e arranjos para uma cena gravada na Mafalala, com músicos locais”, contou à Berlinda. “Foi uma experiência incrível”, arrematou.

Aparições cinematográficas à parte, The Legendary Tigerman construiu todo um estilo de Homem-orquestra (One-man-band) que se tornou na sua imagem de marca. Conta já com quase duas décadas de carreira e nove álbuns editados, sendo o mais recente Misfit.


 

The Legendary Tiger Man costumava ser em formato one-man-band (Masquerade por exemplo) e agora actua ao vivo em formato banda. Foi uma evolução musical natural ou sentiste falta da altura em que fazias parte de bandas (Tédio Boys e Wraygunn)?

Acho que a certo ponto, depois do True, estava exausto e cansado do formato de one-man-band e com vontade de experimentar algo diferente, e isso foi acontecendo de uma forma muito espontânea ao vivo, até que entre mim, o Paulo Segadães (bateria) e o João Cabrita (sax barítono) se criou uma sonoridade que eu quis explorar em disco no Misfit... Mas não foi algo planeado, foi acontecendo.

Como descreves a tua evolução musical desde que começaste a carreira a solo até a este último trabalho, Misfit?

Eu tento sempre não me repetir e procurar novos caminhos em cada disco, mas creio que a raiz e coluna vertebral do projecto sempre foram os Blues, o Punk, o Rock´n´Roll... Mas de certa forma acho que todos os géneros acabam por ser uma influência e aparecer aqui e ali.

 

“Acho que o que me interessa realmente no mundo e na vida é sempre um pouco à parte”

 

Porquê este título? Sentes-te um caso à parte?

Sim, na realidade acho que o que me interessa realmente no mundo e na vida é sempre um pouco à parte... Desde a escola que as pessoas fixes de uma turma são poucas, ou os artistas e músicos e arte que mais me interessam são, de certa forma, outsiders ou pioneiros que um dia são absorvidos, ou não pela cultura popular. Tenho mais interesse num concerto pequeno num clube de cinquenta pessoas do que no Festival da Canção. No Misfit quero dizer que está tudo bem, não faz mal ser outsider, sempre foi assim, está tudo bem. Sigam em frente.

 

Sabemos que os Blues e o Rock n’ Roll são a tua predileção. Podes dizer-nos quais são as tuas referências musicais e artistas de eleição?

Há artistas que admiro muito, quase clássicos hoje em dia, mas que há 20 anos não eram exactamente assim. Gosto de gente com carreiras inteligentes, trajectos artisticamente sólidos, como o Nick Cave, ou o Jon Spencer. Mas na realidade eu ouço quase tudo, encontro sempre algo a aprender ou a gostar em tudo. Até na Britney Spears.

 

A música e sons africanos influenciaram-te de alguma forma? Como é que aconteceu esse fascínio pelos Blues tipicamente americanos?

Os Blues africanos e os ritmos tribais sempre tiveram um grande peso na minha música também, e sempre os integrei de uma maneira ou outra na música que faço... Quanto aos Blues americanos, sempre ouvi desde puto, mas acho que como músico, passou a ser uma grande influência a partir das primeiras tours de Tédio Boys na América, entre 97 e 99, onde aprendi afinações abertas e choquei de frente com os blues e me apaixonei.  

 

“Não há propriamente uma tradição de músicos portugueses a fazerem isto, ou a terem carreiras internacionais fora do Fado”.

 

E como foi fazer música em Portugal num registo tão diferente daquilo que é considerado música portuguesa?

Foi difícil, e ainda é, de certo modo. Mas isso é normal, creio. Não há propriamente uma tradição de músicos portugueses a fazerem isto, ou a terem carreiras internacionais fora do Fado. Felizmente acho que tudo isso tem mudado muito nos últimos anos, a música portuguesa nunca esteve tão forte e num momento tão criativo e válido como agora, em múltiplos géneros e línguas, e cada vez mais gente fora de Portugal se apercebe disso. É muito bom poder viver este momento.

Que artistas portugueses são exemplo disso para ti?

Tantos... Linda Martini, Sean Riley and the Slowriders, Capitão Fausto, Sam the Kid, Calcutá, The Poppers, Noiserv, Stereossauro, Dj Ride, Dead Combo, Samuel Úria. Todas as coisas da Príncipe Discos. Tanta coisa, podia dizer mais cinquenta com facilidade...

Na tua opinião, o que falta em Portugal para impulsionar e diversificar realmente a música? É uma questão de abertura de mentalidades, limitações financeiras… outros motivos?

Acho que no que respeita a diversidade não falta nada. De resto, acho que o público português já está muito ligado à música nacional e com vontade de a ouvir e descobrir... não somos é assim tantos, creio, e acho que será fundamental para o seu crescimento que uma internacionalização sólida aconteça. Muitos países (França e Canadá são exemplos) têm gabinetes de exportação de cultura com resultados positivos a todos os níveis. O Canadá é, neste momento, um dos países mais influentes na música popular mundial, fruto dos seus artistas, claro, mas fruto também de décadas de um estado a acreditar neles.

Entrevista por Rita Guerreiro e Nuno Dias

17/03/2019

Foto: ©Promo

The Legendary Tigerman - entrevista a Paulo Furtado

Rita Guerreiro

Licenciada em Audiovisual e Multimedia pela ESCS – Escola Superior de Comunicação Social (Lisboa), chegou a Berlim em 2010. Depois de ter participado em vários projectos de voluntariado e iniciado o Shortcutz Berlim, juntou-se à nova equipa Berlinda em 2016 e é desde então editora do magazine, para o qual contribui com vários artigos e entrevistas. 

Nuno Dias

Nascido em Guimarães, formou-se em 2007 pela Universidade do Minho. Vive atualmente em Frankfurt am Main, depois de 3 anos em Berlim e 4 anos em Bochum. Trabalha na área das novas tecnologias e é um apaixonado por tudo que meta rodas e movimento.

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