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Entrevista com José Eduardo Agualusa

Foto: José Eduardo Agualusa © Divulgação

José Eduardo Agualusa nasceu em 1960 no Huambo, Angola. Vive tripartido entre Angola, Lisboa e Brasil. Tem publicados oito romances, vários volumes de contos e um livro de poesia. Os seus livros já foram traduzidos em mais de vinte línguas. Adepto da novela histórica, os seus temas passam por África, ou talvez seja mais correto falar na maneira como as áfricas se vêm misturando desde há séculos na Europa e no Brasil. Algures entre a ficção e a realidade, ora dando asas à fantasia de escritor ora alicerçadas num sólido fundamento histórico, as suas personagens mostram muitas vezes como o absurdo se instala na nossa sociedade, sem que alguém pareça dar por isso.

 

Foi galardoado com vários prémios, entre os quais o Prémio de Conto Camilo Castelo Branco da Associação Portuguesa de Escritores, o Grande Prémio de Literatura da RTP e o Grande Prémio Gulbenkian de Literatura para Crianças e Jovens. Recebeu também em 2007 o prémio de Ficção Estrangeira do diário britânico The Independent pelo romance O Vendedor de Passados, cuja génese remonta a Berlim, como explicou nesta entrevista. No final deste ano deslocar-se-à a esta cidade para promover a tradução em alemão do romance Barroco Tropical.

 

Na sua casa na Lapa, em Lisboa, o escritor falou à BERLINDA sobre o ano que viveu em Berlim, a sua incomodidade com a escuridão dos invernos, os sonhos que lhe valeram livros e a imagem de simpatia que a cidade lhe deixou.

 

BERLINDA: Como foste parar a Berlim?

JOSÉ EDUARDO AGUALUSA: Eu fui parar a Berlim com uma bolsa de criação literária do DAAD [Deutscher Akademischer Austauschdienst], que eu acho que é das melhores bolsas que há no mundo, não tenho conhecimento de outras bolsas assim. É uma bolsa de um ano – normalmente as bolsas são de menos tempo -, e é claro que exige disponibilidade para poder ir naquele ano. Eles têm cinco apartamentos para escritores, contando com as famílias. O apartamento onde nós ficámos era realmente grande, ainda por cima numa zona da cidade que sendo central é bastante sossegada, na Ku’Damm, ao pé de um lago...

B: O Tiergarten?

JEA: O Tiergarten fica por trás do apartamento, portanto é uma zona super privilegiada. Nós [o escritor e a sua família] fomos muito bem tratados. Deram-nos uma mensalidade boa, e eu para além disso continuava a viver dos direitos de autor. O meu filho teve de ir para uma escola alemã...

 

B: Em que ano foi isso?

JEA: Deve ter sido lá para 2000. Eu fiz um coisa errada, do ponto de vista estratégico: fui para lá de inverno a inverno, de Janeiro a Janeiro. Apanhei com dois invernos.

 

B: Custou-te muito?

JEA: Custou muitíssimo. Mais do que o frio, custou a escuridão. As casas são aquecidas, é um clima quase tropical, mas a escuridão... Mas tinha muito boas condições para trabalhar. Tinha um escritório enorme, tínhamos a dois passos de casa um ginásio, onde eu ia muito... trabalhei muitíssimo. E depois, Berlim tem uma comunidade lusófona muito grande, tem muitos alemães que falam português, com uma ligação ao Brasil ou a África. Há muita gente da antiga DDR que esteve em Angola, muitos angolanos que foram estudar para a Alemanha Democrática e depois ficaram, e também muita gente com ligação ao Brasil, que é muita gente. Então não foi uma integração nada difícil. Ainda por cima, no andar de baixo estava um escritor chileno, o Carlos Franz, e o embaixador do Chile na época era o [Antonio] Skármeta, o grande escritor. A gente acabou por fazer amizade com o Carlos Franz, através do Franz com o Skármeta, que conhecia todos os escritores latino-americanos que passavam por Berlim, e nós integrámo-nos nesse meio.

B: Tiveste alguma ligação especial com os alemães, fora desse meio?

JEA: No meu caso, só com os alemães que falam português. Tradutores alemães, e gente que tinha tido alguma ligação com a língua portuguesa.

 

B: De que é que te lembras mais quando pensas em Berlim?

JEA: Eu gostava de revisitar Berlim com mais calma, para perceber como é que as coisas mudaram desde aquela altura. Imagino que tenham mudado muito. Há dez anos Berlim tinha uma efervescência cultural, não sei se ainda tem. Por exemplo galerias de arte, Berlim tinha muito mais galerias de arte do que aqui em Lisboa, não há comparação. A gente fazia muito esse circuito das galerias de arte, tínhamos uma amiga artista plástica angolana, a Manuela Sambo, casada com um alemão. E enquanto estivemos lá aconteceram umas mostras de arte africanas e angolanas. Então eu acho que conheci melhor a cidade através disto. Na altura em que eu estava lá havia – mas já deve ter terminado, porque hoje em dia já ninguém compra discos – umas boas casas de discos africanas, que me interessavam. E evidentemente, depois estavam sempre a acontecer coisas, como o festival de cinema...

 

B: A comunidade lusófona em Berlim é de algum modo diferente lá, em relação aos seus países de origem? São sobretudo os artistas, uma elite, ou há uma grande mistura?

JEA: Eu sei que há diversos tipos de pessoas, mas é claro que nós também conhecemos mais um determinado tipo de pessoas com um certo nível cultural. Por exemplo a [Manuela] Sambo é filha de uma pessoa super conhecida em Angola, um ervanário [e grande especialista em medicina natural] que na época colonial era muitíssimo conhecido. Teve muitos filhos, vários deles médicos, um deles é diretor da Organização Mundial de Saúde em África, enfim, é uma família com certa cultura. É mais este circuito que conheci. É claro, há uma pessoa que conhece, outra que apresenta, enfim... Não conheci tanto o outro, dos outros angolanos. Na altura havia muitos angolanos fugidos de guerra. Ainda cheguei a ser convidado para ir a um evento organizado por essas associações de angolanos. Mas não era tanto com eles que nós estávamos.

 

B: No ano em que estiveste em Berlim, escreveste um livro.

JEA: Escrevi O Ano em que Zumbi tomou o rio.

 

B: Podias tê-lo escrito noutro sítio qualquer, ou teve alguma influência o facto de estares em Berlim?

JEA: Eu poder, podia, mas repara: aquelas condições obrigavam realmente a trabalhar. Por um lado, tinha muito boas condições para trabalhar. Por outro, o facto de estar num país estrangeiro, onde não tinha tantos amigos nem tanta gente conhecida, frio, que não convida muito a sair, escuro... eu trabalhei mais ali do que noutros lugares. Acho que foi o ano da minha vida durante o qual eu trabalhei mais. [O Ano em que Zumbi tomou o Rio] é um livro muito difícil de fazer, de construir, e talvez eu não o tivesse conseguido escrever noutras circunstâncias. Trabalhei muito durante aquele ano. Há quem não trabalhe, conheço pessoas que vão, dispersam-se e acabam por não fazer nada. Eu aproveitei bem a bolsa, e noutras circunstâncias teria levado dois anos para escrever este livro. Ainda por cima eu tinha acabado de viver dois anos no Brasil, mas não conhecia tão bem o Brasil, e este é um livro em que parte da ação se passa lá, por isso exigiu muito.

 

B: E justamente o livro que tu escreveste na Alemanha, não está traduzido para alemão.

JEA: Pois é, esse ainda não está em alemão, mas oxalá venha a estar.

 

B: Em Berlim passaste muito tempo em casa a escrever. Mas quando estavas fora de casa, na cidade, o que é que fazias?

JEA: Basicamente o meu dia era escrever e ir ao ginásio. Mas também íamos ao cinema, íamos a exposições, algumas delas muito boas que passaram na altura em Berlim, e fomos ver os museus mais relevantes. E nós apesar de tudo pouco a pouco fomos conhecendo gente, recebíamos em casa, íamos a festas... Tive contato com o meio artístico, por exemplo com o brasileiro Alex Flemming. Foi muito agradável, eu tenho muito boas memórias de Berlim.

 

B: O que é que gostaste mais e menos de Berlim?

JEA: O que gostei mais foi o facto de haver gente de todo o lado, esse convívio possível entre as pessoas de vários lugares, essa vida cultural. Eu como gosto muito de artes plásticas, gostei muito das galerias de arte, que aqui em Lisboa infelizmente não há tanto. Na Holanda por exemplo há imensas, eu estive quatro meses em Amsterdão com uma bolsa, e havia até mais galerias de arte do que em Berlim. Como eu gosto muito de ver exposições, esta foi uma coisa de que eu gostei realmente em Berlim.

 

B: E do que é que não gostaste?

JEA: Da escuridão, evidentemente. O frio e a escuridão, mas sobretudo aquela escuridão que é uma coisa horrível. Eu não tive problemas nenhuns, mas a Noelma [a companheira de então do escritor] foi insultada na rua. Ela foi aprender alemão, porque nós tínhamos a possibilidade de aprender alemão. O professor ia duas vezes por semana a casa. Ela aprendeu um bocadinho, eu não falo nada de alemão. Por isso, ainda que alguém me tenha dito alguma coisa na rua, eu só sabia agradecer, danke schön [risos]. Ninguém vai continuar a agredir a quem agradece. Mas a Noelma chegou uma vez a casa a chorar, porque lhe tinham chamado preta na rua. Ela ficou a olhar para todos os lados para ver onde estava a preta, até perceber que era ela, porque nunca lhe tinha acontecido isso na vida. Eu disse-lhe, a culpa é tua porque foste aprender alemão [risos]. Mas foi uma coisa mesmo à alemã, porque logo a seguir apareceu alguém para a defender. Lembro-me também de uma vez, de ter saído de casa e haver polícia em todo o lado, carros de polícia e mais carros de polícia. Fui à estação e a estação estava ocupada por polícias. Voltei para casa assustadíssimo, pensando que tinha havido um golpe de estado, e estavam os nossos amigos alemães a telefonar-nos a dizer para nós não sairmos de casa porque havia uma manifestação de neo-nazis, que começava ali onde nós morávamos. Mas devo dizer que não vi nenhum neo-nazi, só vi polícias. E Berlim tem isso, por um lado essa coisa dos neo-nazis, por outro há logo dez mil manifestantes anti-nazis. E isso é Berlim também.

 

B: É uma cidade com muitos opostos.

JEA: Sim. Mas o que me lembro de Berlim é precisamente o contrário, o que eu senti mais em Berlim foi essa possibilidade de convívio, de aceitação. A Gay Parade, por exemplo, o Festival das Culturas de Berlim, que foram eventos que eu achei muito simpáticos.

 

B: Desde a tua estadia em Berlim já passaram muitos anos. Entretanto já viveste noutros lugares, por exemplo á passaste muito mais tempo no Brasil. Voltarias a passar um ano em Berlim?

JEA: Não. Muito menos de inverno a inverno. Quando muito nos meses de Verão, mas no inverno não.

 

B: Ficaste vacinado.

JEA: Fiquei. Não passaria o inverno em nenhum outro país frio. Acho muito difícil viver em países frios, não entendo como as pessoas conseguem. É muito difícil para mim viver sem sol. É absolutamente assustador, devastador. Mesmo esse lago perto de casa, eu lembro-me que no meu desespero cheguei a nadar nesse lago, numa água absolutamente gelada. Agora, as pessoas eram muito simpáticas, no lago aquilo era praticamente uma família, toda a gente se conhecia... eu acho isso bonito. Berlim é uma cidade muito simpática. E é uma cidade grande, mas tu não sentes que estás numa cidade grande, não há engarrafamentos, nem muito barulho, é tranquilo, nunca senti medo... uma vez perdi-me. Perdi-me na parte leste. Fui ver uma exposição que gerou muita polémica na altura, um maluco que expunha corpos...

 

B: Essa exposição está outra vez em Berlim [Körperwelten de Gunther von Hagen, até 14 de Agosto no Berliner Ostbahnhof].

JEA: É uma coisa impressionante, tem que se lhe diga. Enfim. A exposição era no leste, e eu perdi-me naquela parte cinzenta toda. Foi a única vez que eu tive medo em Berlim, porque tu andas ali e começas a ver skinheads, um ambiente escuro...

 

B: Hoje em dia já não é nada assim, a parte leste está cheia de turistas e uma das “movidas” berlinenses é na parte leste...

JEA: Deve ser muito diferente agora. Na altura ainda se sentia isto, a cidade ainda mudava de cor, ou melhor, sentia-se a sua ausência, porque o leste não tinha cor.

 

B: Apesar de não quereres voltar a viver em Berlim, é uma cidade à qual tens regressado. Há dois anos vieste promover a tradução para alemão do Vendedor de Passados [pela editora A1 Verlag, na tradução de Michel Kegler], e este ano regressarás para promover a tradução do Barroco Tropical [também por Michel Kegler]. É uma cidade que gostas de visitar?

JEA: Sim. De todas as vezes que fizemos estes eventos [para a promoção da tradução], corre muito bem. As salas estão cheias, as leituras são super simpáticas, há sempre muitas perguntas, vê-se que há interesse, as pessoas estão curiosas. Eu tenho feito isso com o meu tradutor que é excelente, o Michel Kegler. A gente diverte-se muito, o que é bom. Não é trabalho, é uma diversão. Conhece-se pessoas interessantes, é muito bom.

 

B: Eu tive a ocasião de assistir a uma dessas leituras, que pela maneira orgânica como decorre mais parecia um concerto, quase um dueto teu e do Michael, e fiquei com a sensação de que és muito acarinhado pelo público. Também partilhas dessa opinião?

JEA: Sim, de uma forma geral corre sempre muito bem. Os públicos são diferentes de cidade para cidade.

 

B: Como é o público em Berlim?

JEA: O público em Berlim... às vezes é mais difícil em Berlim do que noutras cidades mais pequenas. As cidades mais pequenas normalmente têm mais gente porque também há menos coisas. Em Berlim há cem mil coisas a acontecer. Quando eu fiz esta leitura na Embaixada do Brasil, teve muita gente também. Estava cheio de brasileiros, angolanos, moçambicanos... foi muito engraçado. Também fizemos umas coisas n’A Livraria.

 

B: Já escreveste alguma vez sobre Berlim?

JEA: O Vendedor de Passados, que é a história de um homem que vende passados aos novos ricos, surgiu-me em Berlim. Primeiro sonhei com este homem. Eu sonho muito, muitas das minhas histórias me aparecem em sonhos. Tive um sonho em Berlim, e a seguir escrevi um conto para publicar no [jornal] Público, eu na altura escrevia para o Público. E era a história deste homem, de um vendedor de passados, que o narrador conhece num bar brasileiro em Berlim. A história passava-se em Berlim. Depois escrevi a história, publiquei-a, ela foi muito bem acolhida e eu comecei a perceber que aquele homem era maior do que aquilo, aquele personagem podia crescer e fazer um romance, e fiz um romance. Foi a partir deste conto escrito em Berlim que nasceu O Vendedor de Passados.  

 

Entrevista realizada por Inês Thomas Almeida

 

 

  

 
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Ines Thomas Almeida

Inês Thomas Almeida nasceu na República Dominicana e cresceu em Portugal como bilingue e com dupla nacionalidade. Mudou-se para a Alemanha para estudar Canto na Escola Superior de Música e de Teatro de Rostock. Alguns anos depois de se instalar em Berlim, criou o magazine online Berlinda, e, mais tarde, o Festival Berlinda.

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