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“Ein Schritt zu Weit” - a nova curta de Sam Gillen traz uma mensagem político-social muito actual I entrevista

28/06/2020

Foto: ©Samuel Gillen

O documentário sempre fascinou Sam Gillen, realizador, operador de câmara e fotógrafo nas horas vagas a viver em Berlim. O assassinato de Walter Lübke foi o mote para fazer a curta-metragem “Ein Schritt zu Weit”, que aborda a questão da crise migratória e os riscos que os extremismos podem representar para a sociedade. A curta foi filmada em dezembro do ano passado e estreou a 10 de Maio, em pleno período de confinamento, através do Facebook. 

PT Post: Qual foi o teu percurso até à realização? 

Sam Gillen: Nasci na Alemanha, mas cresci em Portugal. Estudei jornalismo no ensino superior, mesmo que aquando da escolha do curso já tivesse vontade de, talvez, um dia, fazer filmes documentais: tanto que durante a faculdade fiz um módulo de documentário. Experimentei escrever o meu primeiro guião nesse módulo e acho que foi muito bem aceite, mas foi só um exercício – não cheguei a filmá-lo. Na altura, comprei também uma câmara. Fui aprendendo a mexer numa câmara, a fazer fotografia, por mim mesmo, com ajuda do Youtube, etc. Quando acabei o curso, tinha começado a mexer em coisas de vídeo e ganhado interesse na edição e arte de vídeo. Comecei a fazer projecções de vídeo com amigos que tinham bandas de música e nas quais me integrei. Com uma banda de improviso com alguns temas de carácter social, político ou ambiental, tentei passar essa mensagem através da arte visual. Com outro amigo, que era DJ, formei um duo em que eu misturava vídeos live que iam de encontro à música que estava a passar. A certa altura, senti que estava um pouco estagnado e que queria começar a fazer filmes, embora não tivesse aprendido muito sobre isso. Andava a misturar visuais, mas a maior parte dos materiais que usava eram recortes de filmes, retirados da Internet. Foi então que descobri um curso de cinema em Londres, que decidi tirar. Foi um curso de seis meses muito prático e intensivo, que deu para experimentar um bocado de todas as posições no trabalho em cinema: gravar som, fazer edição, escrever guiões, realizar.  De Londres fui para Berlim, que achei uma cidade interessante, mais acessível e com bastante cinema. Fiz um estágio numa empresa de aluguer de equipamentos de cinema, mas por motivos familiares tive de voltar a Portugal e não cheguei a entrar no mercado de trabalho local. Fiquei dois anos em Portugal, onde tive a sorte de conseguir arranjar um emprego como editor de vídeo para o projecto ’A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria’. Paralelamente, comecei a fazer projectos como freelancer, como vídeos para eventos, para bandas e afins. Depois disso, senti que a situação não estava fácil para mim face à dificuldade de trabalhos nessa área. Como tinha vontade de experimentar mais Berlim, mudei-me e arranjei trabalho numa filial da escola onde tirei o curso em Londres. Conheci quem me precedeu nesse trabalhou, que começou a trabalhar como assistente de câmara. Como nós mantivemos em contacto e nos demos muito bem, ele começou a arranjar-me trabalhos. Desde então tenho estado a arranjar trabalhos de assistência de câmara, o que me tem possibilitado trabalhar em cinema mesmo. Agora, paralelamente, tem crescido a vontade de gravar as minhas próprias coisas. Ainda faço uns trabalhos de freelancing, em que sou eu que faço o trabalho de câmara, edito e produzo vários tipos de curtas para empresas, entrevistas e coisas semelhantes. Só que senti mesmo, nos últimos tempos, que quero é começar a criar ideias próprias e a filmá-las. Esta curta surgiu dessa forma, tendo-me deixado também com vontade de regressar à faculdade para estudar mais a fundo parte argumentativa ou teórica de cinema. O curso em Londres foi muito prático: isto são as ferramentas, esta é a base, experimentem: ganhem prática para poder depois ir trabalhar numa equipa de cinema. Mas faltou-me o tempo para estudar, analisar filmes, aprender os vários géneros, história do cinema, que gostaria agora de aprofundar. Esta curta acabou também por servir para apresentar na candidatura às faculdades.

 

PTP: Já tinhas um interesse pelo documentário. Donde surge esse interesse? 

SG: O que eu gosto no documentário é a possibilidade que se tem de entrar num meio desconhecido e entrar em contacto com pessoas no mundo real e aprender um bocado sobre a vida delas e os problemas delas. É uma boa forma de contactar com o meio, ir a algum lugar com uma ideia ou algo que se quer estudar e poder aproximar-se de pessoas. É como ter uma série de questões, ou um interesse específico, que se pode explorar através da câmara e do trabalho. E depois poder partilhar isso com outras pessoas.

 

PTP: Donde surgiu o ímpeto de quereres fazer coisas para ti e passares para uma parte de criação tua? 

SG: Uma coisa que estava a reparar ainda noutro dia, agora cada vez mais, é que estamos numa fase da História em que há muito conteúdo visual a ser produzido e muito acesso aos meios de produção audiovisual: qualquer pessoa faz vídeos com o telemóvel, há muitas pessoas interessadas em fotografia… Só que, às vezes acho que falta um bocado o lado da escrita e da concepção das ideias, está a ficar mais esquecido. As pessoas querem filmar e fazer fotografias porque é instantâneo, mas não querem ter o trabalho de realmente pensar num conceito, no que querem filmar… e eu acho que isso é que é realmente importante. Além disso sempre foi uma pessoa com jeito para as letras, estudei humanidades, gosto de filosofia, antropologia, sociologia, da escrita, da leitura. Essa também é uma das razões pelas quais acho que devo dedicar-me a isso, mais do que à questão muito técnica que está relacionada com o trabalho de câmara.

 

PTP: “Ein Scrhitt zu Weit” é a tua primeira curta de cinema? 

SG: Não foi a primeira, mas foi aquela que me deixou mais satisfeito.

 

PTP: Gostarias de a desenvolver para longa? 

SG: Quando mostrei o filme houve pessoas que sugeriram isso. Mas eu ,na verdade, tenho uma ideia para uma longa dentro do mesmo tema, mas em que a história é diferente. Isto aqui foi uma história que eu senti que se adequava ao formato de curta. A minha outra ideia é para a longa, não estava a ver como fazer uma curta a partir dela. À partida, o meu objectivo será desenvolver a outra ideia que tenho.

 

PTP: Como foi a experiência de fazer um lançamento online? 

SG: Acho que foi boa, optei por fazer no Facebook, para já, porque é onde tenho uma rede maior de pessoas. Decidi experimentar uma função nova que permite fazer uma première no Facebook, onde o vídeo é lançado numa hora e todas as pessoas podem ver ao mesmo tempo numa espécie de live. Tive algumas dificuldades técnicas com o sistema, mas como criei um evento e convidei todas as pessoas, acabei por ir fazendo divulgação desse lançamento. Mesmo que algumas pessoas não tenham conseguido aceder por causa do problema técnico ou àquela hora, estavam já atentas e cientes que eu tinha lançado o filme e que, depois, podiam ir lá ver à hora que quisessem, porque o filme continuaria a estar lá disponível. Houve bastantes pessoas que viram o filme e que depois me deram feedback, fiquei contente com isso.

 

PTP: Que feedback recebeste? 

SG: Na maioria dos casos foi feedback positivo, ou seja, por exemplo, houve pessoas que repararam na qualidade, comentando “muito bom, com actores a sério”. Houve outras que me disseram que “quem me dera ver mais, só queria que o filme continuasse, queria continuar a ver”. Fiquei contente. Houve apenas uma pessoa com feedback negativo, que considerou 

que o filme era ambíguo e poderia servir para assustar políticos, para não tomarem acções ou decisões pró-refugiados.

 

PTP: Como acompanhas a discussão em torno de questões identitárias? Crês que há um risco generalizado nas sociedades modernas ou crês haver um risco maior na sociedade alemã? 

SG: Pelo que tenho andado a ver, parece-me que está a haver um ressurgimento dos movimentos de extrema direita: estão a integrar-se, agora estão mais visíveis na sociedade e estão novamente a ter mais influência na política. Em parte, até estão menos radicais e estão a tentar aceder mais à normalidade. Não sei se a Alemanha tem maior risco… se calhar tem mais perigo pelo seu historial: foi o centro do nazismo e essas estruturas não desapareceram completamente desde a altura da guerra, foram para o underground e mantiveram-se activas. Hoje manifestam-se sob formas mais modernas, em partidos políticos, movimentos extremistas. Com a Internet também se tornou mais fácil organizarem-se e recrutarem novos membros, porque passaram a ter uma forma de o fazer sem terem que se manifestar nas ruas, algo que durante muitos anos lhes era difícil, de certa forma, por não ser aceite.. Actualmente, conseguem fazer muita dessa organização e recrutamento via online.

 

PTP: Com a curta quiseste dar visibilidade ao tema dos refugiados e a riscos em termos de políticas de integração. Como surgiu a motivação para tratar estes assuntos? 

SG: A questão dos refugiados, como todos sabemos, foi uma problemática muito grande – e ainda continua a ser, esta questão de quem é que pode entrar no país ou como lidamos com estas pessoas que estão a querer a entrar na Europa , quem tem o direito de ficar e não…  Mas, acima de tudo, como é que as pessoas são tratadas durante este processo todo. Isso é uma questão que é problemática e, por exemplo, agora, com o Covid e suas consequências,  essas pessoas e esses problemas ficaram um pouco esquecidos, não estão a aparecer nos media e para muita gente, esquece-se o problema. Mas as pessoas não desaparecem, essas pessoas continuam retidas nesses campos, num limbo que não é vida, nem para trás nem para a frente, não têm nada para fazer, estão em condições más… e isto é uma coisa que é importante ser falada e ser pensada, ver como qual será a melhor forma de gerir esta situação. Em 2018 estive na Sérvia, fui fazer um intercâmbio musical de jovens e aproveitei, depois, aproveitar cerca de três semanas de férias que tinha ainda para ficar lá e viajei até algumas das fronteiras, onde contactei com pessoas que estavam a trabalhar em organizações não governamentais, a ajudar, a prestar serviço humanitário. Estive lá e tive oportunidade de estar nesses sítios, de ver em primeira mão onde é que as pessoas atravessavam as fronteiras, como é que eram as condições e que tipo de pessoas é que lá estavam. Isso impactou-me bastante, ver aquelas correntes de pessoas, famílias, umas atrás das outras, a arrastar as crianças pelos braços, porque as crianças já não tinham energia para andar…  Mesmo a tentarem por uma questão de sobrevivência, fazendo fogueiras junto das linhas de comboio, horas à espera de um comboio que passasse e que nem sabiam para onde iria… impactou-me bastante. Aquelas pessoas de certeza que não estavam ali por escolha… E contaram-me muitas histórias de como foram enganadas, muitas pessoas que pagaram somas elevadas de dinheiro, milhares de euros, para os traficantes as levarem a atravessar a fronteira de um país qualquer… Isso acontecia várias vezes, e em muitos casos foram simplesmente enganadas, andavam um bocadinho num carro, num porta- bagagens, e eram depois atiradas para o meio da rua, levando-lhes o dinheiro ou entregando-os à polícia, que também estava frequentemente metida nesses esquemas... Muito sofrimento no meio disto tudo, depois já não tinham dinheiro... Muitas deitavam os passaportes fora, porque às vezes era mais fácil e cada um fazia o que achava que seria o melhor… Era possivelmente mais fácil conseguirem continuar se não tivessem identificação… Se quisessem vir para a Alemanha, não podiam ser registados na Hungria, senão já não poderiam… Este filme veio a propósito de eu querer trabalhar estas temáticas de racismo.  Vim a descobrir o caso do político, Walter Lübcke, assassinado na Alemanha no ano passado e inspirei-me nisso. Reparei que a história quase que me ia passando ao lado e que haverá muitas pessoas que não lêem as notícias sempre.  Achei importante trabalhar esta história.

 

PTP: Cruzei-me com o teu pequeno documentário Batman Elektroniks, que aborda a questão da subida das rendas em Berlim. Pareces ter uma grande preocupação com temas sociais actuais, isso é algo que move aquilo que queres criar? 

SG: Para mim, os filmes, as criações audiovisuais e artísticas, têm sempre uma utilidade social. É sempre uma forma de conseguir levar as pessoas à reflexão e de apresentar uma certa temática. É isso que me interessa nestes meios, mais do que, por exemplo, fazer um filme de acção ou de entretenimento, não vejo muito valor nisso, nem é o tipo de filmes que eu gosto de ver. Por isso é que escolho estas temáticas, são coisas que me interessam e, automaticamente, vou atrás delas.

Esta entrevista foi feita por Tiago Pais e é uma colaboração PT Post/Berlinda

Tiago Pais

Natural de Leiria, vive em Berlim há 7 anos. Atual morador do bairro de Kreuzberg, é formado em Gestão pela Universidade Nova de Lisboa. Desde Julho de 2016 é o presidente da associação Berlinda e contribui com diversos artigos para o magazine.

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