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Dona Ana, uma mulher de raízes

"Ana Cândida Correia Andrade Tavares Coelho de Mendonça (risos). É um nome grande, porque eu fiquei com o nome do pai, da mãe e do casamento. Normalmente, tira-se e fica-se com o do casamento, mas eu fiz questão de manter o meu nome todo”, diz Dona Ana.

Dois nomes e cinco sobrenomes são uma metáfora da ligação dessa senhora, nascida na Guiné-Bissau há 60 anos, com a sua história. “Mas a família e os amigos me chamam de Eta”, acrescenta. Ela elegeu Berlim seu lugar de morada, mas não esquece o lugar onde nasceu. É como uma árvore cheia de raízes.

Em um final de tarde de verão, nos encontramos na Katharinenstift, uma igreja católica que fica na Greifswalder Straße, no bairro de Prenzlauer Berg. O espaço, que vez ou outra Dona Ana frequenta para assistir às missas, agrega a Comunidade Católica de Língua Portuguesa em Berlim.

- Você não conhece? E uma igreja com missa em português. Tem um padre brasileiro, padre Tarcísio, que é mesmo muito bom. Vem gente da Guiné-Bissau, do Brasil, de Angola, de Moçambique e de Portugal. Em cada sábado do mês, uma das comunidades é responsável pela celebração.

No pátio da igreja, cercados por plantas e tranquilidade, conversamos por quase duas horas. Vestindo um casaco verde-água, que combinava com a vegetação do jardim, Dona Ana parecia familiarizada com aquele lugar. Aliás, família é um traço importante na vida dessa senhora simpática e cheia de entusiasmo.

Filha de Donana Correia e Alfredo Tavares, Dona Ana nasceu em Bigene, uma pequena cidade da Guiné-Bissau. Mas foi com as ilhas de Bijagós que construiu maior identificação. “É o paraíso guineense, com muitas praias”. Foi em uma das cidades do arquipélago, Bubaque, que cresceu e estudou. Antes de arrumar as malas e partir para o mundo, no entanto, Dona Ana morou na capital do país, Bissau.

- De lá, fui para Portugal. Primeiro para Lisboa, depois para Coimbra, onde fiz um curso técnico de análises clínicas e saúde pública. Depois, consegui trabalho em Portimão, no Algarve.

A passagem por Portugal foi como uma lufada de ar para se encher de coragem e ficar de vez na Europa. Era tempo de se mudar para a Alemanha.

Família e Berlim

Em cada um dos três países onde viveu, Dona Ana gerou frutos, consolidando sua passagem. O filho mais velho, Ricardo Alfredo, de 38 anos, nasceu na Guiné-Bissau. Luana Patrícia, hoje com 29, é portuguesa. A caçula, Désirée, de 22 anos, é alemã.

Numa dessas reviravoltas da vida, Dona Ana se separou do primeiro marido, pai do casal de filhos mais velhos, e mudou de país. Em 1994, armou-se de coragem e de fé no futuro e decidiu viver em Berlim, onde está há quase 25 anos.

- Primeiro, comecei a aprender a língua alemã. Mas, assim que fiz a língua, logo comecei a trabalhar. Não tive problema com isso. Fiz a tradução dos documentos, entreguei e deram-me equivalência.

Na Alemanha, ela também arrumou um novo amor. Seu Manuel, que sempre estivera na sua vida como amigo, estava para se tornar seu marido. “O nome dele, na verdade, é Manuel Coelho de Mendonça, mas toda gente só o conhece como Nhomba”.

Doutor em medicina veterinária pela Karl Marx Universität, em Leipzig, Nhomba é um homem apaixonado. Chapéu na cabeça, vestindo uma camisa jeans e bastante atencioso, ele se diz feliz ao lado da esposa. "Ela tem defeitos, como todos os seres humanos, mas tem também qualidades. Muitas".

Nhomba relembra uma canção que cantou para Dona Ana no dia do casamento. “Era uma música brasileira que dizia: ‘procurei em todas as mulheres a felicidade...’”. A canção, uma das mais populares do sambista Martinho da Vila, resume o sentimento de um homem devotado à mulher amada e termina com um verso que é pura declaração de amor: “você é tudo que um dia eu sonhei pra mim”.

Dona Ana reconhece que a presença de Nhomba foi sempre fundamental na sua vida na Alemanha. Ela conta que, assim que a filha do casal, Désirée, nasceu, foi ele quem assumiu grande parte dos cuidados com o bebê.

- Ele tinha horários flexíveis no trabalho e me ajudou muito, porque eu havia encontrado um emprego e estava ansiosa para trabalhar. O meu medo era não poder ser, na Alemanha, ativa como sempre fui.

Dona Ana confessa que o seu principal elo com Berlim está no marido e nos filhos. “Eu sou muito família. Está é a força para estar aqui. O ambiente familiar, além dos amigos que eu criei, ajuda”.

Para a técnica de análises clínicas, a integração ao mundo do trabalho sempre foi fundamental para se sentir em casa – na medida do possível – na cidade. Hoje, Dona Ana engrossa o grupo de profissionais da saúde, uma categoria muito valorizada na Alemanha. Há 18 anos, ela trabalha no requisitado laboratório IFLB, em Charlottenburg.

A guineense reconhece que as quase duas décadas e meia de vida no novo país moldaram seu jeito de ser:

- Uma coisa que eu acho muito interessante da minha vivência na Alemanha é a mistura da minha cultura, a cultura africana e portuguesa, que sempre está integrada a nós, e a alemã. Aqui, eles são práticos e não perdem tempo com pormenores. Essa mistura, em mim, fez-me hoje ser uma mulher mais solta, mais liberta e mais determinada.

Bissau inesquecível

Nos anos 80, ao trocar a Guiné-Bissau pela Europa, Dona Ana se afastava fisicamente não apenas da sua terra, como também dos pais e dos irmãos. Entretanto, sua conexão com as raízes permanecia intacta. “Eu sou muito família, acho que sou aquela que aproxima todo mundo”.

- Meus pais já faleceram e praticamente todos os irmãos estão espalhados pelo mundo. A mais velha esteve muito tempo fora, viveu em Nova Iorque, e agora está em Portugal. A seguir sou eu, a segunda. A terceira, faleceu. O quarto é meu irmão, que está em Angola. Depois, tem um que vive na Guiné e trabalha na área de música. E tem uma, a mais nova, que está na Suíça.

As visitas ao continente africano e à Guiné-Bissau lhe permitem regar com a água do afeto a árvore familiar cujos galhos insistem em crescer e se espalhar.

- Em junho passado, casou-se uma sobrinha, filha de minha falecida irmã. Como naquele preciso momento não havia nenhum familiar por lá – porque o meu irmão que vive em Bissau estava em Portugal – deram-me apoio para eu ir ao casamento.

Claudia Cristina, a sobrinha em questão, é mãe da pequena Ayanna, de quase um ano de idade. A jovem vive em Bissau e trabalha no Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas. “Tê-la no meu casamento era o que eu mais queria. Foi uma surpresa linda”.

A sobrinha não esconde o carinho especial que nutre pela tia:

- Temos uma relação muito forte, mais do que tia e sobrinha. Ela esteve presente no meu parto e me amparou como uma mãe. Não tenho palavras para agradecer o carinho e a atenção que tem comigo e com a minha filha, que ela ama de paixão. Ela é uma mãe para mim e uma avó “babada” para a minha filha.

Em Dona Ana, aliás, a ligação com a terra natal e com a família se percebe em todos os ângulos por onde se olhe. É como contemplar o céu estando sob a copa de uma árvore: os galhos são vistos de qualquer jeito!

- O meu sonho é voltar para a minha terra. Eu quero ir e fazer qualquer coisa por meu país. Quero dar uma contribuição, ajudar, diz, reconhecendo que a Guiné-Bissau vive um clima de conflitos e incertezas.

A doce Dona Ana é uma mulher politizada. Apesar de viver em Berlim, ela participa de grupos que discutem a política guineense e integra o Miguilan - Minjderis di Guiné No Lanta (Mulheres da Guiné-Bissau, levantemo-nos). A organização tem como objetivo lutar contra a instabilidade política e a pobreza na Guiné-Bissau.

Certamente, é a ligação com as origens que, mais uma vez, faz com que Dona Ana tenha um carinho especial pela Comunidade Católica de Katharinenstift. É onde ela rega suas raízes, encontra pessoas que falam a sua língua e que, mesmo distantes de sua terra, tentam se sentir em casa. Ali, como na vida em família, Dona Ana pode ser Eta.

Texto e Fotos: Enio Moraes Júnior

Enio Moraes Júnior

Enio Moraes Júnior é um jornalista e professor brasileiro. Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (Brasil), vive em Berlim desde 2017. Apaixonado por gente e por boas histórias, trabalha com produção de conteúdo online em língua portuguesa, cobre eventos culturais e escreve sobre estrangeiros que povoam as ruas da capital alemã.

“Eu sou muito família. Esta é a força para estar aqui”, diz a guineense que vive em Berlim há quase 25 anos. Perfil por Enio Moraes Júnior.

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