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Fora do gueto cultural: um diálogo sobre política, rap e estereótipos

Foto: Mc Diamondog e Edney Pereira de Melo n' A Livraria ©Berlinda.org

O rapper Diamondog (nome artístico de Diamantino E. C. Feijó) nasceu em Luanda, capital de Angola. Os seus textos são marcados pela sua própria história.

Desde cedo sentiu na pele as marcas da guerra civil em Angola. Para não se tornar soldado com apenas 19 anos, exilou-se no Brasil em 1999. As experiências colhidas em Angola e a confrontação com as desigualdades sociais do Brasil levaram-no a entrar para um curso no âmbito das ciências da comunicação com enfoque em jornalismo e política. Nas suas músicas, Diamondog não só tematiza os conflitos resultantes da experiência em Angola, como também se dedica às questões sociopolíticas do Brasil, como a desigualdade social, a discriminação e o racismo. Em 2007 realizou workshops de rap para jovens na Alemanha e na Polónia, no âmbito do projeto peaceXchange. Matthias Fischer, do WDF (Serviço para a Paz Mundial), acompanhou-o durante duas semanas e conversou com Diamondog sobre as suas experiências e sobre o papel que o rap pode ter na sociedade.

 

O que é que os jovens alemães podem aprender com o rap de Angola?

 

Podem aprender mais sobre os conflitos no contexto de cada país. Acima de tudo, podemos dar-lhes uma perspetiva diferente dos conflitos. O rap pode contribuir para a resolução de conflitos internos, criados no mundo exterior e manifestados dentro de cada um. A música ou o hip-hop poderão servir como meio de expressão ou como meio pacificador desses conflitos. O rap está mais enraizado na América do Sul e em África. As suas mensagens são mais nativas e políticas do que, por exemplo, no rap nos EUA, que retrata de preferência as festas e os valores materiais. Na América do Sul aborda-se mais a insatisfação e o desagrado perante determinada situação.

 

Deverá esta mensagem ser entendida como um convite para os jovens refletirem sobre o rap como meio de expressão política e dos seus próprios conflitos?

 

A música é uma linguagem universal. É indiferente se se trata de rap, reggae, samba ou de outro género musical. Trata-se de expressar desagrado ou de transmitir sentimentos negativos. As pessoas que vivem no outro hemisfério vão poder ouvir, identificar-se, ter compaixão. No fundo, trata-se de criar uma sensação de bem-estar depois de cantar ou de ouvir música.

 

Achas que o facto de seres músico é vantajoso quando tentas confrontar os jovens com a situação de Angola ou do Brasil?

 

O facto de eu ser músico não é um fator decisivo. Muito mais será o facto de a minha arte ser urbana, até porque existem outras formas de arte urbana, como os graffiti, que conseguem cativar os jovens mais facilmente. Nos workshops também é importante que eles me vejam não como professor, mas como jovem que partilha o estilo de vida urbano, como skaters e bikers. Quando os jovens se confrontam com eles perguntam-lhes muitas vezes: “Porque é que fazes isto? Porque é que tens este estilo de vida? Como é que isto te faz feliz?” É uma das maneiras de criar uma base mais forte para comunicar com os jovens.

 

Qual é o potencial do rap na resolução de conflitos sem recorrer à violência? Que papel desempenha o rap na tua vida?

 

Hoje em dia, felizmente, o rap está representado em qualquer parte do mundo. Toda a gente pode retirá-lo do seu contexto e usá-lo como forma de expressão. Em Angola o rap ainda é um instrumento relativamente recente para ter representação. Pode-se recorrer ao rap para expressar sentimentos, pensamentos e críticas, mas também serve para falar sobre a última festa. Em Angola, ambas as variantes estão representadas: tanto se relatam dificuldades como o extremo oposto. O rap apresenta-se, no quadro da resolução não violenta de conflitos, como forma de protesto sobre o que corre mal no meu país. Eu uso o rap como forma de protesto e como forma de diversão. E às vezes pode ser também só uma maneira de desanuviar.

 

Podes fazer um breve paralelismo entre as tuas experiências com jovens no Brasil e com jovens alemães e polacos?

 

No Brasil trabalhei em diversos projetos sociais com jovens e pude constatar que eles sabem expressar-se melhor. De modo geral, tenho a sensação de que os jovens brasileiros se mobilizam mais. Nesses workshops, os jovens concretizaram os seus problemas com a polícia, o racismo ou a vida nas favelas. Comparativamente, os jovens alemães ou polacos emigrantes de segunda ou terceira geração revelavam problemas semelhantes, porém mostravam-se mais passivos, conformistas e não tão ativos na procura de uma melhoria da situação. Falam sobre o tema, mas não chegam a mobilizar-se e a entrar em ação. No entanto, estou há pouco tempo na Europa e por isso não posso ainda fazer afirmações assertivas sobre este tipo de comparações.

 

No entanto, sentes a diferença. De onde é que achas que ela vem?

 

Acho que falta aqui um modelo a seguir ou uma estrutura suportada por pessoas mais velhas que tenham passado por algo semelhante. No Brasil, existem muitos projetos que foram realizados por pessoas vindas das favelas. Estas pessoas servem como modelo para os jovens, uma vez que partilham as mesmas experiências e podem convencer os jovens de que existe uma alternativa real. Ninguém tem de ser um criminoso para ter uma vida melhor. Existem artistas famosos como MV Bill e jogadores de futebol do Brasil, como Ronaldinho e Cafu, que também viviam em favelas. Estas personalidades têm consciência política, manifestam-na na praça pública e envolvem-se em projetos sociais.

 

O rap pode então contribuir para uma mudança na consciência política em Angola?

 

Saber é poder. Alguns rappers em Angola, como MCK, General 10 Pacote e Bob Da Rage Sense, entre outros, transmitem os seus conhecimentos sobre a sociedade e a política através da música. Esta é uma das formas de provocar uma mudança nas consciências.

 

Geralmente cabe aos jornalistas exercer essa tarefa. Terá a música vantagens sobre a palavra escrita no âmbito da crítica social?

 

O jornalismo em Angola tem vindo a sofrer alterações nos últimos anos. A situação social do país tem tido cada vez mais relevo nos meios de comunicação independentes. As informações propagam-se mais rapidamente através da música e da dança, uma vez que se aprendem e se cantam as letras das músicas. A troca e o processamento de informações decorrem de forma mais rápida e em proporções maiores do que no jornalismo. Em Angola existe um músico muito popular, Bonga, que viveu muitos anos exilado. Durante essa época, escreveu músicas sobre a situação política do nosso país. As suas músicas eram tão explosivas que raramente eram transmitidas pela rádio. Dançavam-se bem e eram fáceis de cantar, mas continham críticas muito polémicas, algumas foram mesmo proibidas. Isto prova como a música é um meio muito poderoso.

 

Consegues avaliar o papel económico da música em Angola ou no Brasil? Na Europa e nos EUA a música é uma indústria que gere muito dinheiro.

 

Hoje em dia já se pode equiparar estes países com o Norte, no que respeita à música. Em Angola ou no Brasil existem artistas que se querem expressar ou intervir com a sua música e outros que só querem fazer dinheiro. Nos últimos anos, a importância comercial da música aumentou, tornando-se num negócio para muita gente. Surgiu uma grande concorrência entre vários estilos musicais coexistentes em África, para disputarem a entrada na Europa. O caminho para o sucesso económico na Europa é muito difícil para os músicos africanos, especialmente se não quiserem cumprir os estereótipos de músicos africanos com instrumentos de percussão.

 

Na tua opinião, qual é o papel da indústria da música na divulgação da música de Angola/do Brasil aqui na Europa?

 

Assim como existem guetos sociais, também existem guetos culturais. A África e a América do Sul são, de certa forma, guetos culturais da Europa, que lentamente abre as suas portas. Os músicos destas regiões são muitas vezes associados a imagens estereotipadas que não consideram a existência de rock, rap, tecno ou eletro nestes países. É muito difícil acabar com essa imagem e, ainda assim, ser bem-sucedido como músico africano. Como músico africano geralmente só se é convidado para participar em festivais africanos. Porque é que ninguém me convida para um festival de música normal? Os festivais africanos raramente revelam a heterogeneidade da cena musical de todo um continente. Porque é que não se mescla muito mais nestes festivais!? Nada o impede em termos estilísticos ou musicais. Assim, os festivais não passam de meros guetos culturais.

 

Anne-Sophie Weihe traduziu a conversa de português para alemão.

 

Texto: Matthias Fischer

Tradução: Margarida Camejo

Publicação: peaceXchange - Weltfriedendienst e.V peace prints, 07/2007, como suplemento do jornal TAZ, Outubro de 2007.

 

http://www.peacexchange.eu/doc/TAZBeilageOkt2007Rap.pdf

 

 

  

 
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