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"Brazilian Sentiments" – as emoções de Cristiane Roncaglio

Foto: Capa álbum "Brazilian Sentiments". © Capriccio Digital

Poucas cantoras se poderão gabar de ver o seu álbum de estreia lançado por uma editora que representa artistas tão ilustres como o tenor Ramón Vargas. Mas para a soprano brasileira Cristiane Roncaglio, conseguir a chancela da editora Capriccio para o CD “Brazilian Sentiments”– uma compilação de bossa nova e canções clássicas brasileiras – é a coroação de muito trabalho.

 

Dividida entre duas culturas, Cristiane Roncaglio tem-se dedicado à divulgação da música brasileira na Alemanha. “Eu sinto a divulgação da música brasileira como uma missão. Nos meus concertos uso a parte popular, no caso a bossa nova, que é o que as pessoas conhecem, para chamar o público e depois poder apresentar a parte clássica”.

A mistura tem dado resultado. “Eu sou muito disciplinada, mas também espontânea. Tento combinar a disciplina alemã com o jeitinho brasileiro, que não é sempre negativo. Se a gente souber usá-lo, é uma mistura muito boa.”

De Blumenau para Berlim

O caminho até o reconhecimento foi longo. Começou em Blumenau, sua cidade natal, no Brasil, onde aos 13 anos começou a cantar. Aos 16 anos ouviu uma cantora interpretando a ária “Una voce poco fa” da ópera O Barbeiro de Sevilha de Rossini – e o fascínio pelas proezas vocais da cantora não lhe deixaram qualquer dúvida: “Disse para mim mesma: dá para fazer isso com a voz? Pois é isso que eu quero fazer!”

Desde então começou a dedicar-se seriamente ao canto, a aprender música, teoria, técnica vocal. Em 2003 aconteceu o grande passo: veio para Berlim estudar canto na Escola Superior de Música Hans Eisler, com o reconhecido cantor Roman Trekel, que mais tarde se tornaria também o seu parceiro. Desde então tem cantado em diversos palcos europeus, tanto em produções de ópera como em concertos com orquestra ou recitais intimistas com piano. A crítica reconhece-lhe a excelente técnica vocal e o enorme domínio do palco.

Lutando contra o preconceito

Na Alemanha encontrou muitos preconceitos em relação ao Brasil. “Existe a ideia de que as brasileiras são mulheres fáceis, ou que como brasileiro você só entende de samba e de futebol – se é que entende de alguma coisa”, comenta. Os seus concertos são também uma forma de luta contra este tipo de estereótipos.

Outro preconceito com o qual lida frequentemente é em relação às mulheres bonitas. “Eu sou muito vaidosa e não tenho vergonha de dizer isso. Aqui em Berlim as mulheres ficam envergonhadas, ser vaidosa é pejorativo. Mas no Brasil é algo positivo, seria negativo se dissessem: você é relaxada, não cuida da sua aparência.” Segundo Cristiane, no Brasil a vaidade está ligada à inteligência: “A mulher vaidosa é inteligente, sabe comunicar, sabre abrir os seus espaços, abrir as portas.” Esse cuidado com a aparência é algo que lhe serve como mantra antes das atuações. “Antes dos concertos, sento-me 40 minutos na minha mesinha de maquiagem. São 40 minutos que eu uso para rever o texto na minha cabeça, o que quero comunicar, o que vou cantar… é uma preparação.”

“Se você tem uma caixinha e essa caixinha é oca, sem nada lá dentro, então é só mais um rostinho bonito sem nada a dizer. Mas se você tem dentro muita coisa para oferecer,  aí as pessoas já começam a te respeitar. Graças a Deus eu consegui mostrar que dentro da caixinha tinha mais coisas, que eu não era só um rostinho bonito”, revela.

Espelho da alma brasileira

O disco “Brazilian Sentiments” é assumidamente autobiográfico. “A escolha do repertório foi minha. São canções que me acompanham desde sempre”. Por exemplo, a canção “Eu sei que vou te amar”, que Cristiane ofereceu em jeito de serenata ao seu primeiro amor. “Eu tinha 16 anos. Fiz uma serenata na janela da casa dele, com violino – a minha professora de teoria musical tocou para mim. Eu me arrumei como se fosse para um concerto, era meia noite e todos estavam dormindo na casa! [risos]” Outras peças marcaram períodos críticos da sua vida, como separações, perdas, mas também o novo amor que esta vivendo e a gratidão pelos pais. Cristiane Roncaglio resume assim: “Este CD é um espelho da alma brasileira: uma melancolia com um sorrisinho”.

E claro, há também a saudade, esse sentimento que a acompanha desde que há dez anos trocou a sua terra natal pela capital alemã. “Saudade eu tenho sempre. É um sentimento que não me deixa em paz. Saudade da minha família, das coisas, da comida, dos cheiros, do ar, do vento, de como as pessoas encaram a vida… saudade é uma coisa que eu tenho desde que eu vim para cá.”

Novos desafios

“Todo o cantor tem o sonho de um dia registar um pouco daquilo que fez. Eu canto desde os 13 anos. Este CD é uma coroação: agora eu posso registar a minha voz e não vou me arrepender do resultado porque eu sei o que estou fazendo. Sei que o resultado técnico e emocional combinam, estão em harmonia. Foi uma maneira que eu encontrei de dizer: eu estou preparada. Preparada para o que der e vier! [risos]”

O segundo CD sairá ainda em outubro deste ano, igualmente pela Capriccio, desta vez com um repertório totalmente dedicado ao Samba, fruto da colaboração com os músicos André Bayer, Harmut Preyer e Mariano Senna. Juntos são o quarteto Sambalá, que recria sambas antigos dos anos 30 a 70, desde Pixinguinha e Cartola até Martinho da Vila e Milton Nascimento, entre outros.

“O Sambalá abriu uma nova porta na minha vida, marcou um novo rumo artístico e vocal.  O samba é um estilo muito popular, é uma outra técnica. Quando os músicos me convidaram para o quarteto eu fiquei na dúvida, e nos primeiros ensaios ainda não sabia se ia dar certo. Tive de aprender como fazer para trabalhar a voz de um outro jeito, sem prejudicá-la, sem ficar rouca, sem cansar, e sem descaracterizar o repertório. Graças a Deus eu encontrei um caminho dentro do estilo, sem prejudicar a voz. Aprendi muito.”

O sonho do Brasil

Os sonhos para o futuro incluem trabalhar num teatro fixo (“Desde que me formei em 2007 sou autónoma e vou onde me chamem”) e  sobretudo, trabalhar mais no Brasil. Paradoxalmente, esse é um desafio nada evidente. “Não está fácil ganhar a confiança dos músicos, dos regentes de orquestra no Brasil. Infelizmente, o mundo da música clássica no Brasil é um mercado muito fechado.”

O “Brazilian Sentiments” foi gravado com o guitarrista André Bayer e o pianista Christian Peix e foi apresentado no dia 3 de junho na livraria Dussmann em Berlim.

 

  

 
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