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O passado dia 8 de março foi um dia marcante na história de Berlim. Celebrámos o primeiro Dia Internacional da Mulher como feriado oficial. A data ficou ainda assinalada por ter sido o primeiro concerto de Conan Osíris num país que não fosse de expressão portuguesa. E a estreia não poderia ter sido mais calorosa.

A Berlinda esteve presente na noite do concerto intimista, que foi recebido de forma muito positiva e entusiástica pelo público berlinense, composto por muitos portugueses e por outros fãs locais. No dia seguinte tivemos a oportunidade de nos encontrarmos com o Conan Osiris, João Reis e o resto da equipa no Mano Café, em Kreuzberg, para uma entrevista relaxada entre chá de menta e uma fatia de cheesecake (ele adora mesmo bolos!).  

 

O concerto de ontem foi incrível, apesar de sabermos que estavas muito cansado. Ainda assim como é que foi esta primeira experiência em Berlim?

Conan Osiris - Foi brutal. Um dos fatores por que eu estava um bocado chateado no fim, pelo qual me senti mal foi realmente, eu estava tão excitado para fazer isto, e... acabou por ser too much e achei que não dei a minha melhor performance, estás ver? Mas ao mesmo tempo estava a ver o pessoal que estava presente e pensei que fui way hard on myself, mas depois comecei a pensar tipo acalma-te. Há sempre os meus standards e do pessoal na altura fixo sempre quando corre bem, o que é mais injusto é quando corre bem eu fico normal, nunca festejo. Mas quando corre mal, sou bué mau para mim e desculpa a algum pessoal que eu possa não ter cumprimentado ou assim, mas eu adorei … e por eu querer tanto estar com vocês e tipo estar e dar tudo é que eu fiquei um bocado mais chateado comigo próprio, porque não foi da forma que eu mais queria. Mas foi fixe na mesma, a vossa energia, ya.

 

Mesmo com a lesão que mencionaste no início do concerto, dançaste e deste tudo no palco. Viu-se que a certa altura estavas um bocadinho cansado, mas donde é que veio aquela energia toda, foi também do público?

Conan Osiris - Ya, sem dúvida, acho que se a energia do público não tivesse sido aquela, ainda tinha sido pior. E teria cortado montes de músicas. A cena foi essa, ya, eu quis dar tanto ao pessoal que acabei por cair ali uma beca nas minhas forças. Mas eu também acho importante ressalvar isso: eu curto bué cultivar a experiência familiar dentro dos shows e, isso é uma cena que o pessoal todo de Portugal, onde eu toquei já sabe. E uma das cenas que eu mais curti foi ver bué pessoal português e não português a conectar-se de uma forma que quase parecia que estávamos todos num ambiente, como se estivéssemos ali numa tenda que tínhamos criado do nada para estar ali a celebrar alguma cena em familiaridade, estás a ver? E ya, isso foi o que ficou.

No final acabaste por cantar “Telemóveis”, mesmo já estando farto da canção, fizeste o esforço. E como é que tem sido esta atenção toda, desde o Festival da Canção e agora como representante da Eurovisão. Qual é o significado disto tudo para ti?

CO – Nunca na vida eu tinha repetido tanto a mesma música… eu nunca tive um single, que fosse “ok agora só canto esta música”. Sempre cantei várias do meu repertório. O facto dessa música ter tanta atenção é uma cena que eu tenho que digerir até para mim próprio. Eu gosto bué, porque a música é minha, só que ao mesmo tempo é tipo, imagina que tens um filho, e tens tipo três, dois deles nunca recebem atenção e um é tipo “ai o teu filho é tão lindo”, sabes? Ficas tipo, olha mas os meus outros filhos também são lindos. Ya, é um bocado isso. O festival está num pé, está a ser povoado por tanto público diferente, por tantas coisas diferentes. Tens o pessoal bué antigo, que adora o festival, e tens o pessoal de hoje em dia, que segue o festival por alguma razão específica, nem que seja para fazer os memes na net, estás a ver? Então, tipo, tu tens tantas vertentes diferentes que tens de respeitar o festival até como uma coisa transformadora, que pode ser uma ferramenta. Era como o João estava a dizer há bocado, recebemos mensagens de pessoal bué novo, de miúdos, a dizer obrigado por mostrares à minha mãe isto para ela me aceitar a mim próprio um bocado melhor e a partir do momento que isso acontece qualquer plataforma é viável e nobre para conseguir esse fim, estás a ver?

 

E ao receberes essas mensagens sentes orgulho e alegria ou também sentes muita responsabilidade?

CO – Não sinto como um fardo, mas sinto como uma honra. Ou seja, se amanhã me apetecer fazer a parte dois da “Quem me dera que fosses para o caralho”, não estou a pensar que não vou não dizer caralho só porque miúdos também ouvem a minha música… até porque acredito plenamente que há muita coisa pior que uma asneira, que está tão infundida na nossa cultura: a falta de informação, a falta de aceitação das pessoas, a falta de clemência, de conivência. Há falta de companheirismo entre as pessoas, é uma coisa tão mais grave para mim, a corrupção, o machismo são coisas tão mais graves do que a palavra caralho, por exemplo, que tipo não passa por aí. Passa por tu passares a mensagem correta de uma forma que é neutra. Eu não estou a impor nada. Estou a passar a minha história, estou a dizer o que é que eu acho. Se concordares comigo, fixe, se não concordares comigo e gostares só da batida, estamos bem. Se não gostares da batida e gostares da minha voz, amigos sempre amigos, como nunca. Imagina, é o que é. Não sinto toda essa pressão, embora sinta a honra de ver que essa mensagem pode ser algo construtivo, ya.

 

Queria perguntar-te ainda sobre a canção da “Celulitite”. Que à superfície pode parecer ser uma coisa quase que mais na brincadeira, mas que tem uma mensagem que eu acho que é muito importante, muito forte, de aceitação e positivismo corporal. Quando escreves as tuas músicas, tens isso em mente? Ou queres usar a tua música como um veículo de passar uma mensagem?

CO – Sabes que a cena com esses temas é que, imagina, a única coisa que joga aqui é que eu não tenho de pensar, olha não vou fazer música sobre isto. É só isso. Porque essas coisas eu já as penso. Então é do género, quem é que quer mesmo saber, isso é uma coisa que eu diria na vida do dia-a-dia. Estou a falar contigo aqui no café e digo: pá, ninguém mesmo quer saber dessa merda. O que eu canto é o que eu falo, basicamente. Só que simplesmente é transformado numa música. Para poder ter aquele fator de repetição e o fator de earbug e tudo o mais. É uma coisa em que eu realmente acredito e nunca vou cantar uma coisa que não faça nexo para mim a todos os níveis e a nível global. Muito mais quando é uma coisa que afeta o corpo das pessoas. Imagina, sabes, é basicamente isso, o que eu canto são as coisas que eu penso no dia-a-dia e se transformam em músicas e não the other way around, estás a ver?

 

Ao ouvir a tua música faz todo o sentido que sejas acompanhado pelo João. Como é que começou a vossa colaboração?

João Reis – A nossa colaboração começou quando o Tiago lançou o “Adoro Bolos”. De repente esse álbum teve um grande buzz e muita gente começou a falar sobre isso, e ele nos primeiros convites para apresentação em programas de televisão e depois em salas de espetáculo achou que fazia sentido ter, porque a música dele tem a componente preponderante que é a dança, é música de dança. Nós conhecemo-nos bem a dançar, e é uma coisa que nós partilhamos e temos esse gosto. E temos os mesmo interesses, em música e em dança também, e entendemo-nos bem nessa parte. Ele achou que fazia sentido ter essa componente no espetáculo e convidou-me e nasceu aí o nosso espetáculo que acontece até agora.

E qual é o processo criativo na parte cénica, coreográfica?

JR – É uma influência natural, porque, como eu disse, nós temos muitas influências em comum e temos mais ou menos a mesma escola cultural. Ele tem muito mais, porque pesquisa muito mais coisas na net, e eu tenho muito mais o que aprendi na escola, de facto. Nós sabemos mais ou menos qual é a onda de cada um, o que gostamos e por onde ir, mas nunca tivemos uma reunião de como vai ser o espetáculo. É sempre uma cena de vamos para o palco desde o primeiro e vemos o que vai acontecer lá.

 

O que também é libertador para ti, enquanto dançarino…

JR – É libertador para mim e é libertador para ele. É uma coisa bué calma e plena que pode ser exatamente aquilo que nós quisermos, porque ele nunca cantou igual a mesma música. Tipo, se naquele dia lhe apetece estender uma nota, ele estende, se apetece acelerar o ritmo, ele acelera, em vez de cantar ele ri. E eu se me apetecer mandar para o chão, mando, se me apetecer fazer pontas faço, é mais por aí, ya.

 

O que é que gostarias que viesse a seguir, a nível de carreira, a nível de vivência pessoal?

CO – Não sou aquela pessoa que tem objetivos muito muito marcados, nem por timeline nem por achievements. Para mim, o meu achievement é sempre ser feliz na forma mais construtiva possível para toda a gente possível. Ao mesmo tempo a tentar escudar-me de coisas tóxicas e negativas que eu não admito mesmo na minha vida. Estás a ver? Mas não sou aquele samaritano que quer converter todas as pessoas em bué boazinhas. Não, pelo contrário, consigo mesmo ser bué defensivo. Por exemplo, consigo ser mais defensivo, sobre as pessoas que gostam de mim e que me vêem como um protetor do que contra mim próprio, estás a ver? Estou-me mesmo a cagar, mas não ataquem os meus miúdos, não ataquem as minhas crianças, estás a ver? Pronto, é isso.

 

O que é que te faz feliz?

CO - O que faz feliz é ver as pessoas mudar, ver as pessoas a serem cada vez mais construtivas, ver as pessoas serem mais aceitadoras de tudo, em geral, ver as pessoas a não precisarem de celebrar comportamentos autodestrutivos para poderem ser felizes também. Isso são coisas que me fazem super feliz. O próprio caminho em si é uma coisa que faz super feliz - o simples fato de vir aqui viajar e estar a ver coisas diferentes, uma realidade diferente, desconstruir a minha própria formação sobre o que era Berlim, estás a ver. Houve sempre histórias sobre tudo, e não há nada como ires ao sítio e conheceres as pessoas para entender o que é que é. Ouve-se tanta coisa. O que é bom é mesmo conhecer e acho que é essa felicidade geral faz um bocado parte disso. Let´s get to know each other, estás a ver, primeiro, ya.

 

Conan Osíris promete continuar nas bocas do mundo e nem tão cedo sair das nossas cabeças. Ele é uma lufada de ar fresco no panorama musical português, que veio desafiar o convencional e estimular as pessoas a pensar, a terem a mente mais aberta e a celebrar a diversidade.

"O que eu canto é o que eu falo" - Conan Osiris em entrevista após concerto de estreia em Berlim

28/03/2019

Fotos: ©Rita Couto

Mariana Lima

Mariana é fascinada por línguas e expressões idiomáticas. Tradutora de profissão, tem um espírito de curiosidade aguçado. Por vezes sente-se culpada por não aproveitar melhor a oferta cultural da cidade. Chama casa a Berlim desde 2014. 

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