MAGAZINE

27/02/2019

Foto: © Camila Freitas

“Chão“, de Camila Freitas - um retrato do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Brasil

“Chão” trata o tema da ocupação de terras do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) numa usina de cana de açúcar em Santa Helena, Goiás, e a sua luta pela reforma agrária. É a primeira longa-metragem de Camila Freitas, que passou no ano passado pelo Talent Campus, e estreou na secção Forum da 69. Berlinale.

O filme acompanha o dia-a-dia do árduo trabalho no campo, o activismo político dos trabalhadores, as manifestações, ocupações e construção dos acampamentos, bem como as suas conversas familiares, projectos e esperanças para o futuro.

 

No auditório cheio do HAU 1 em Kreuzberg, a realizadora falou sobre este projecto e trouxe consigo vários elementos da equipa. Começou por explicar que este documentário é fruto de um longo processo: “Vem de há muito tempo. Praticamente desde que eu era teenager e enquanto estudava na universidade, juntamente com o Leonardo e outros membros da equipa, tive um contacto muito intenso com os Sem Terra no Brasil”.

 

Camila Freitas já tinha realizado um documentário sobre o tema e não perdeu o contacto com o MST - “Passarim“, uma curta “sobre trabalhadores que são expulsos do campo por uma grande empresa que os suborna para eles deixarem as terras”. Doze anos mais tarde, a realizadora volta ao tema. “Depois de os Sem Terra terem ocupado essas terras no local onde eu filmei em 2002, isso conectou-nos. Eles pediram-me autorização para apresentar o filme na ocupação, como forma de mostrar a história daquelas terras”. A realizadora não pensou duas vezes e foi ela mesma acompanhar as ocupações que deram posteriormente origem a “Chão”. “Era um tema muito urgente na altura, era uma ocupação enorme”, lembra.

 

O documentário acabou por demorar quatro anos para ser concluído. “Começámos a filmar durante a fase de pesquisa para o projecto”. Para construir a narrativa principal, a realizadora recorreu a imagens de diferentes ocupações, captadas entre 2014 e 2017. “Começámos a filmar de forma mais estruturada em 2017 durante todo o ano”, explicou. O filme obteve todo o seu financiamento no Brasil, algo que Camila Freitas considerou ser impossível de conseguir se começasse agora as filmagens. Logo vieram algumas críticas ao governo actual no Brasil e seu impacto no cinema brasileiro. Quanto ao lançamento do seu documentário no Brasil, argumentou que talvez pudesse encontrar alguma dificuldade em ser aceite em certos festivais, mas que em outros com certeza conseguirá participar.  

 

Numa altura em que o Brasil atravessa forte instabilidade política e as questões dos Sem Terra voltam à ribalta, o filme ganha toda uma nova dimensão de premência. Ao estar presente no Festival de Cinema de Berlim, “Chão” chega a um público internacional e dá maior visibilidade à temática do direito à terra.   

 

Na discussão após a projecção do documentário, ficou claro que a situação em Santa Helena pouco se alterou, sendo que as famílias continuam com a área ocupada e delimitada, enquanto a usina ainda tem posse de todas as terras. Com este seu “Chão” - ou falta dele - Camila Freitas continua o seu trabalho de reflexão sobre a paisagem e a terra, procurando perceber a relação das pessoas com o espaço de forma subjectiva, afectiva e extremamente política.

NOTA:   Usina (português do Brasil =  Fábrica (português de Portugal)

Licenciada em Audiovisual e Multimedia pela ESCS – Escola Superior de Comunicação Social (Lisboa), chegou a Berlim em 2010. Depois de ter participado em vários projectos de voluntariado e iniciado o Shortcutz Berlim, juntou-se à nova equipa Berlinda em 2016 e é desde então editora do magazine, para o qual contribui com vários artigos e entrevistas. 

Rita Guerreiro

Freunde von Berlinda e.V. , Heimstr. 3, 10965 Berlin - info@berlinda.org 

BERLINDA 2019 · All rights reserved