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“Uma arte muito generosa, capaz de abarcar tantas coisas” - conversa com Catarina Vasconcelos

19/03/2020

Foto: © Primeira Idade

Foi o único filme português presente numa secção competitiva do festival este ano. “O filme estar aqui é extraordinário. É uma grande felicidade, não estava a contar com isso”, garantiu a realizadora aquando da conversa com o PT Post no Hyatt Hotel em plena Potsdamer Platz. Não ganhou o prémio principal da selecção de filmes presentes em Encounters, mas ainda assim foi distinguido com o prémio FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema) constituindo, por isso, um motivo de orgulho para o cinema português. 

 

A Berlinale entretanto acabou, mas a longa de Catarina Vasconcelos ainda agora levantou voo: estará presente em vários festivais pelo mundo fora, de Nova Iorque à Sibéria. A realizadora, que já começou a fazer “uns rascunhos” para o seu próximo trabalho, garante que por agora vai aproveitar o momentum do seu filme. “Eu agora queria dar algum tempo para poder viver este trabalho todo, porque acho que ele merece que nós o aproveitemos. E ver também quais são as reações das pessoas. Acho que os filmes só ficam realmente terminados quando as pessoas os vêem. Até aí são objectos um bocado fechados. Por isso este filme precisa desse lado para poder viver”, disse ao PT Post numa conversa descontraída e ponderada, sempre num tom de voz muito sereno, bastante raro no âmbito de um festival desta envergadura. 

 

 

A primeira questão é sobre a tua formação - vens das Belas Artes e trabalhas em design. Como surgiu o cinema no teu caminho? 

Eu venho da faculdade de Belas Artes, que tinha uma coisa muito interessante no curso que eu fiz, que era a possibilidade de estarmos em várias áreas ao mesmo tempo. Ou seja, o meu curso era Design de Comunicação, mas, pelo menos na minha altura, tinha uma vertente multidisciplinar de podermos trabalhar com vários meios, pintura, escultura, inclusive multimédia. Havia este piscar de olho constante a outras áreas, e isso é muito importante. Eu ao mesmo tempo comecei a fazer teatro universitário no grupo de teatro do Instituto Superior Técnico. Sempre gostei de fazer várias coisas ao mesmo tempo. Depois da faculdade de Belas Artes, fiz uma pós-graduação em antropologia visual no ISCTE e aí comecei a filmar. E depois fui para Londres, para o Royal College of Art, onde fiz um mestrado e onde realizo a minha primeira curta-metragem. Mas já havia essa relação com outras áreas, creio que estas coisas não são estanques.

 

No fundo não mudaste de área, o cinema é uma parte integrante daquilo que já fazias.

Sim, exactamente. Embora eu ache que a minha formação não tem nada a ver com a escola de cinema, e isso também se nota um bocadinho no filme, que é feito com muita atenção quanto à parte plástica. Sou muito apaixonada pela pintura, por isso havia esta necessidade de o filme transmitir isto. Portanto acho que acaba por ter um grande peso esta formação. 

 

Podes contar-nos um pouco mais da tua experiência em Londres?

O mestrado chamava-se Visual Communication, e tinha três áreas: moving image, ilustração e design. Eu fiz moving image e estive dois anos neste ramo, portanto acabou por ser fundamental para estar aqui hoje.

 

Foi aí que realizaste a tua primeira curta, “Metáfora ou a tristeza virada do avesso”. 

Foi. O filme foi o meu projecto final, uma curta-metragem que também trata destas inquietações todas que eu tinha. Por um lado, a crise financeira em Portugal, que acabava por bater na minha própria crise de fazer 10 anos da morte da minha mãe. Portanto havia este lado de marcar esta data e fazer o paralelo com um país que estava em dificuldades tremendas. A Metáfora surge deste encontro, desta colisão. 

 

E ganhaste logo um prémio no Festival Cinéma du Réel – o Prémio Internacional de Curtas-Metragens.

Sim, na estreia do filme. 

 

Foi uma coisa inesperada, imagino?

Completamente. Quando o filme entrou no Cinéma du Réel foi uma grande alegria. E depois quando ganhei o prémio foi uma coisa ainda maior. Não estava à espera. Acho que a curta foi muito importante para este filme agora, porque me deu a oportunidade de começar a pensar os filmes, de começar a pensar em termos de cinema. “A Metamorfose dos Pássaros” só pôde acontecer porque existiu aquele anteriormente.

 

Demoraste cerca de seis anos a fazer este filme Podes dizer-nos como foi este processo e as diferentes fases pelas quais passou, desde a ideia inicial à concretização? 

Bom, demorou muito tempo... Desde o início, desde ter a ideia até ela se tornar uma coisa mais física, demorou algum tempo. E depois também, como é um filme em que trabalho com a minha família e há uma junção de actores e não actores, há a voz da Cláudia Varejão, que faz de Beatriz, há esta relação: a minha família e não minha família. E para mim foi importante ir fazendo isto com muita delicadeza, porque ia falar de uma mulher, que eu não conheci, Beatriz, que é mãe do meu pai, dos meus tios, que é minha avó. Era um assunto delicado, no sentido em que levantava alguma tristeza, a morte de uma mãe é sempre uma coisa difícil. Então iniciei com uma série de conversas com eles, uma série de entrevistas. Daí até perceber o que queria fazer também foi um percurso um bocadinho longo, porque eu percebia nas conversas com a minha família que eles me contavam muitas coisas, mas existiam muitas outras que não me contavam. Eu acho que as famílias têm estes não-ditos, há coisas que não se dizem, são os mistérios e não é para nós sabermos. Se ao início fiquei muito frustrada com isso, depois pensei: ai não, eu se calhar posso usar isto a favor do filme. Ou seja, se eles não me dizem, então eu posso inventar. Então o filme começou a transformar-se, vinha de uma ideia de documentário e começou a transformar-se cada vez mais em ficção e de repente já era este híbrido. Portanto, estes anos todos também foram para isso e acho que este tempo foi muito importante. 

 

Quanto ao processo de escolha das personagens, como se articulou? Como foi essa mistura entre familiares e actores? 

Eu tenho uma família muito grande. (risos) Dá para ver no filme que eles são muitos. Eu percebi que para falar da perda de alguém tão importante eu tinha que explicar porque é que esta pessoa era tão importante na família. Ou seja, senti que era importante explicar como é que esta família se foi construindo, e depois como é que ela se desconstrói com a morte de alguém, um eixo fundamental. Para isso quis muito recriar essa ideia de infância, os meninos a correr nos corredores, uma infância banal, igual à de muitas outras crianças. E, nesse processo, como tenho vários primos, comecei a fazer uma espécie de casting com eles para ver quem encaixava onde. E acabou por ser muito fácil perceber quem é que ia ser quem. Depois, quem faz de Beatriz é a minha prima Ana, que de todos nós foi a que herdou as feições da minha avó. Isto é uma coisa que só para nós [família] é importante, o público em geral não nota. Mas para mim havia essa importância e achava bonita essa herança fisionómica. Portanto as coisas foram acontecendo de uma forma muito natural. Ao mesmo temo que isto acontecia, conheci a Inês Melo Campos [Teresa], porque eu precisava de alguém que cantasse e que tivesse determinados traços físicos […] De repente a Inês era a pessoa que casava perfeitamente naquele papel. E depois a Inês também já sentia que era parte da família. Todo o filme teve este lado muito familiar, mesmo a equipa que o fez, uma equipa muito pequena. Filmámos ao longo de quase três anos, espaçadamente, mas sempre que nos encontrávamos havia esta coisa quase de família que se encontra…

 

O almoço...

O almoço! (risos) Aquela coisa de xis em xis tempo. Foi duro, como acho que todos os filmes são na sua cozedura, mas acho que havia também este lado de celebração. 

 

E onde foi rodado o filme? 

Há partes que são rodadas em casa dos meus avós, ainda consegui filmar lá. Depois a casa foi vendida e tivemos de arranjar um outro decor que tivesse características semelhantes, uma casa também em Lisboa. Depois, as partes no exterior filmámos na Serra da Estrela. Gosto muito da Serra da Estrela, acho que é um local extraordinário em Portugal. E havia também esta questão: qual era o sítio em Portugal continental que ficava mais perto do céu, porque no filme falamos disso. 

 

Subir a montanha…

Essa coisa das montanhas…  trouxe uma grande dificuldade à equipa, porque houve momentos em que tínhamos que andar não sei quanto tempo com o material. Mas ao mesmo tempo, a Serra da Estrela ainda mantém uma paisagem natural que tem uma junção entre aridez e natureza que me interessava muito. Também filmámos na Serra de Montejunto. Houve muito esta procura de locais naturais para fazer esta justaposição da casa ao exterior. A parte do mar foi filmada numa viagem de Ponta Delgada a Lisboa no Navio-Escola Sagres. 

 

Como foram as filmagens no Navio-Escola Sagres?

Foi muito extraordinário. O meu avô esteve no Navio-Escola Sagres nos anos 40, enquanto cadete. Depois acaba por voltar mais tarde enquanto segundo-tenente e faz toda a sua carreira até almirante. Depois acaba por ser comandante de vários navios, mas a Sagres era um navio que ele guardava com grande carinho na memória, talvez por ter sido o primeiro.

 

É a escola deles, é uma coisa muito especial...

Sim, muito especial. E realmente a Sagres tem uma coisa muito incrível, e que me interessava também muito para o filme, que é: há uma relação muito directa com o mar. Como não é um navio fechado, é um veleiro, as condições climatéricas são colossais. Há esta ideia que existe nos vários navios-escola de que, se souberes trabalhar num navio assim, consegues trabalhar em qualquer navio. E realmente foi muito incrível para mim. Eu fiz uma primeira viagem, para perceber como é que era, e fiquei muito espantada porque o navio levava cerca de 150 pessoas; e o navio não é assim tão grande quanto isso. Mas depois começas a perceber para que são precisas todas aquelas pessoas, para puxar cabos, para por o pano, içar velas, tudo aquilo. E depois [interessava-me] uma segunda coisa, que era o navio manter as suas características originais. A segunda viagem que fizemos depois para filmar foi de oito dias em mar. Contámos com uma enorme generosidade do comandante Camilo Maurício, juntamente com o imediato José Sousa, que estão neste momento a fazer a volta ao mundo. Abriram-nos imenso as portas para podermos estar no navio, e sobretudo para podermos filmar como nós queríamos. Os marinheiros foram de uma generosidade extraordinária. Eu também contava que este filme tinha muito a ver com o meu avô, que, tal como eles, também foi marinheiro. Então acho que também houve ali uma grande empatia e foi muito bonito.  

 

E esses dias todos no mar como correram? 

Foi duro, para mim mais. Eles até gozavam comigo e diziam: nem pareces neta de um marinheiro. Fiquei super maldisposta. (risos) Mas a minha equipa, que foi o Paulo Menezes, director de fotografia, e o Rafael Cardoso [som], foi incrível. Portanto éramos uma equipa muito reduzida, três pessoas a filmar, mais esta tripulação de 150 marinheiros. Foi uma grande aventura. 

 

Voltando agora aqui à questão da avó como âncora e símbolo do inegável poder da matriarca na família. O filme acaba por não ser apenas sobre a tua avó, mas quase uma ode às mães – e às mulheres.

Sim. Isto era mesmo legítimo, esta coisa que eu tinha de querer trabalhar sobre esta mulher, esta Beatriz que eu não conhecia. Ao longo do processo do filme eu não entrava, era só uma família. Às tantas começou a ficar evidente, não aos meus olhos mas através de pessoas que estavam à minha volta e que me ajudaram muito, [e perguntavam]: Então mas onde é que tu estás? Porque é que esta história é importante? E isto pode parecer muito bizarro, provavelmente a psicanálise explica isto, mas eu só percebi a meio do filme como é que esta história se ligava à minha. Ou seja, que eu e o meu pai tínhamos uma relação não só de pai e filha, mas também de órfãos de mãe. E de repente era muito evidente que o filme também tinha que trazer isso. Era sobre as mães, mas também sobre a relação minha e do meu pai, a nossa relação com a ausência desta palavra. E, ao mesmo tempo, também tinha interesse pensar sobre o que é que era ser mulher durante o Estado Novo em Portugal. Houve muitas coisas que se modificaram, acho que se ganharam uma série de direitos, mas ainda há muitas coisas que não são justas. Em Portugal os homens continuam a ganhar 22% mais em relação às mulheres, portanto acho que continua a existir uma grande desigualdade. Sendo que na época do Estado Novo era bastante dramático. Interessava-me muito perceber o que era isto ser-se mulher nesta altura.

 

Certamente não estariam a fazer filmes como agora as mulheres podem...

Não, não estavam. Não podiam, ficavam em casa a tomar conta dos filhos. Mas eu sei, através do meu pai e dos meus tios, que a minha avó gostava de ter trabalhado. No final de vida fez voluntariado a trabalhar com prostitutas. De repente, como é que esta mulher que vinha de um contexto tão conservador e tão católico, consegue dar o salto? Era realmente muito interessante. Bom, eu vou sempre achar que ela é extraordinária porque é minha avó! (risos) Isso não entra no filme, mas são dados pessoais que me fizeram pensar que, tal como a minha avó, existiam mulheres que queriam ter feito mais na altura e não puderam.

 

Voltando ao papel da Natureza, podes falar sobre essa parte também muito forte no filme? 

O filme divide-se em duas partes, bastante distintas no seu aspecto formal. Na primeira temos muito a casa e o mar, e na segunda temos a natureza. Temos a natureza porque já não temos mãe, já não existem as mães. As mães, e as mães… onde é que estão as mães todas? Então existia a pergunta: onde é que podem estar? Eu não sou católica. E, não querendo entrar numa coisa muito esotérica e new age, existia uma procura espiritual. Então mas para onde vão, onde é que estão? Sim, esta coisa de dizer que as pessoas ficam connosco é muito linda, mas onde é que estão mesmo? Em que parte do corpo? Havia esta coisa, um consolo qualquer que a natureza nos podia trazer, pelo seu aspecto de rejuvenescer e de voltar a nascer. Há o Outono, o Inverno, e há a Primavera. E isso a mim dá-me muito consolo e muita esperança. E também o nosso tamanho em relação às montanhas, o que é que nós somos em relação àquilo que nos rodeia. Queria muito que o filme tivesse esse lado de comparação nossa com uma coisa maior, e [de imaginar] que talvez esses nossos mortos podem andar aí algures nesse espaço. 

 

Estou-me a lembrar agora da cena da árvore, caída e ao vento, mas que não está morta. Ela vive assim… 

Ela vive. Sim, ela está assim. Exacto, é um bocado isso, nós continuamos todos a viver, a vida continua. Eu também queria que o filme tivesse esta nota final de alguma esperança para aqueles que ficam. O que é que acontece aos que ficam? Porque a morte é uma questão dos vivos. Os mortos não estão a pensar nisso. 

 

Achas que faz falta falarmos mais da morte? Sabemos lidar com ela?

É aquela coisa, a morte é a coisa mais natural da vida, sim. Isso não impede que seja um grande sofrimento para os que ficam. É uma coisa horrível. Se eu pudesse, e acho que se todos nós pudéssemos, ninguém passaria por isso. Acho que se aprende muito, mas não sei se era necessário. Se eu pudesse escolher, preferia não ter passado por isso (risos). Há uma coisa que acontece quando alguém de quem gostamos muito ou com quem vivemos morre: é que há uma parte de ti que morre também. A parte de ti que eras com essa pessoa desaparece. Tem de haver uma reorganização das famílias, dos grupos de pessoas. Acho que são coisas que uma pessoa só consegue experienciar quando passa realmente por elas. Eu não penso nisso, não sei como vou lidar com a morte de determinada pessoa. São pensamentos que não temos, até porque não termos capacidade de prever isso. Então eu acho que muitas vezes também não falamos da morte porque não sabemos o que é que é - ou o que é que vai ser. Eu lembro-me quando era pequenina perceber que os meus pais iam morrer. E foi o horror, porque os nossos pais são o nosso mundo, as nossas referências. São coisas muito violentas e acho que os pais às vezes se inibem [de falar disso], porque sabem que vai acontecer. E mesmo para os próprios pais deve ser uma grande violência pensar que não vão estar cá. Não consigo condenar o ser humano por não falar mais de uma coisa que lhe é tão complicada, tão difícil e tão violenta. 

 

O teu filme é muito pessoal, mas não deixa de falar sobre um tema em que muitas pessoas se podem rever. Esta passagem aqui pela Berlinale deixou-te surpresa? O que vem aí a seguir?

Bom, o filme estar aqui é extraordinário. É uma grande felicidade, não estava a contar com isso. O que é muito interessante neste momento é que o filme também já entrou em vários outros festivais, Nova Iorque, Sibéria. Em muito pouco tempo, aconteceu isto tudo. Por isso agora acho que o filme agora vai ter um voo bonito, que é o que se quer para um filme que demorou este tempo a ser feito. Sim, já estou a pensar em outras coisas, assim uns rascunhos, mas queria dar agora algum tempo para poder viver este trabalho todo, porque acho que ele merece que nós o aproveitemos. E ver também como é que vão ser as reações das pessoas. Acho que os filmes só ficam realmente terminados quando as pessoas os vêem. Até aí são objectos um bocado fechados. Por isso este filme precisa desse lado para poder viver.

 

Então estás a gostar mesmo de trilhar esse novo caminho do cinema, estás focada agora nesta arte? 

Eu continuo a ser designer com muito prazer. Mas acho que o cinema me traz algum consolo para algumas inquietações. Acho que precisamos às vezes de encontrar algum consolo, algum espaço para poder pensar algumas coisas. E eu acho que o cinema dá isso. É uma arte muito generosa, capaz de abarcar tantas coisas. 

Rita Guerreiro

Licenciada em Audiovisual e Multimedia pela ESCS – Escola Superior de Comunicação Social (Lisboa), chegou a Berlim em 2010. Depois de ter participado em vários projectos de voluntariado e iniciado o Shortcutz Berlim, juntou-se à nova equipa Berlinda em 2016 e é desde então editora do magazine, para o qual contribui com vários artigos e entrevistas. 

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