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Cachaça, feijoada, plumas e patês em Berlim

Maria-Grácia Guimarães

Fotos: © Nilda Bezerra

Entre tantas coisas boas que a cidade de Berlim oferece, sem dúvida, uma delas é a diversidade gastronômica. Nessa diversificação alimentícia, eu incluo todo tipo de gastronomia: os ambulantes vendendo linguiças, as lanchonetes, os cafés, os restaurantes, do mais simples e barato ao mais sofisticado e caro. Há para todo tipo de freguês, incluindo todo tipo de bolso, de estomâgo, de paladar, de preferência, de dieta, de tradição, etc.

Nos anos noventa, havia muitos restaurantes latinos e mexicanos em Berlim. O único local brasileiro não teve uma vida longa e já havia fechado quando aqui cheguei.

Trabalhando na gastronomia há 22 anos, já nos primeiros meses, eu e outras pessoas fomos inserindo a culinária brasileira na cena gastronômica de Berlim.

No início, era nas festas de rua, durante o verão ou em eventos, que o sabor da comida brasileira chegava ao paladar dos/das alemães e de outras nacionalidades também. Servíamos desde o pão de queijo, coxinha & cia., moqueca de peixe, até a feijoada – hoje tão apreciada por todos que já provaram – e outras iguarias brasileiras. Tínhamos dificuldade em encontrar certos ingredientes, recorríamos sempre às lojas asiáticas, africanas, turcas e a alguns produtos alemães para substituir o que realmente ainda não existia por aqui.

Não somente as comidas salgadas, mas também os doces, como pudim de leite condensado, manjar de coco, torta de limão e de maracujá, brigadeiro, beijinho, entre outros, faziam parte desse investimento que fazíamos para divulgar nossas especialidades.

Sem esquecer-me da hoje famosa caipirinha, um drinque obrigatório em quase todos os bares e restaurantes do mundo. Independente de como ela é preparada, a caipirinha caiu no gosto internacional, mas vale lembrar que na receita tradicional deve ser usado gelo em cubo (pedras de gelo), não o gelo picado (crushed eis) e para cada drinque, um limão, por favor.

Nos anos noventa, os principais ingredientes da caipirinha, a cachaça e o limão eram bem difíceis de serem encontrados. O limão era caríssimo e tampouco achava-se facilmente. A cachaça era uma relíquia por aqui, sendo encontrada somente em alguns revendedores ou em algumas lojas de bebidas, a cachaça industrializada, a mais conhecida pela propaganda, mas nem sempre a melhor. Portanto para a preparação da caipirinha, o custo era bem alto. Atualmente existe aqui uma variedade de marcas de cachaça, indo da mais comum até as artesanais e orgânicas. Cachaça, aguardente, caninha ou pinga (como se diz também no Brasil), o Schnaps brasileiro feito da cana de açúcar (Zuckerrohr), é vendida em quase todos os supermercados, revendedores alimentícios e lojas de bebidas de Berlim.

A caipirinha foi se modernizando e hoje a bebida adquiriu várias versões com a variedade de frutas e gerou descendentes como a feita com vodka, rum, saquê ou conforme a imaginação de cada um. Ela é um símbolo nacional e se reinventou com os anos.

A bebida é ideal para acompanhar uma boa feijoada, o que os/as alemães já sabem, mas se tiver também algumas plumas e paetês, a alegria é geral. Portanto, para quem gosta, a melhor combinação é essa: Caipirinha, feijoada e carnaval!

Nilda Bezerra

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Nilda Bezerra

Nilda Bezerra está em Berlim desde abril de 1991. Trabalhou na gastronomia brasileira durante anos. Atualmente trabalha num Jardim de Infância, – “Integrations-Kinderladen Wildblume e.V.” em Kreuzberg, cozinhando para dois grupos de crianças. É responsável pela compra e planejamento alimentar vegetariano com produtos orgânicos.
Foi cozinheira do saudoso Botequim Carioca, em Berlim, desde a sua abertura até ao fecho em 2011. Por este local de comida brasileira passaram inúmeras personalidades da comunidade de língua portuguesa em Berlim, e também da cena internacional, como o escritor angolano José Eduardo Agualusa, que nele escreveu o seu conto “Dê aos seus filhos um passado melhor”.

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