MAGAZINE

19/01/2019

Foto: ©Mariana Martinho

“Saltito entre Lisboa e Alemanha. E dentro da Alemanha saltito por vários sítios”. Mariana Martinho, 26 anos, esteve pela primeira vez naquele país em 2014. Desde esse ano, começou uma vida itinerante entre Alemanha e Portugal. É licenciada em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e viveu em Barcelona durante um semestre em Erasmus. Regressando a Lisboa, esteve envolvida em projetos relacionados com arte e educação e estagiou na Direção-Geral do Património Cultural. “Estas experiências fizeram-me perceber que o património cultural e artístico são um mundo único e com muito por explorar. Por isso fui para Roterdão tirar o Mestrado em Cultural Economics & Entrepreneurship”. O Mestrado permitiu-lhe especializar-se na área da gestão do património, sobre a qual escreveu a sua tese.

 

“Ainda indecisa e pronta a acumular mais um curso, tirei uma outra Pós Graduação em Arte Contemporânea e Curadoria. Mas aqui pelo meio, em 2016, fiz um voluntariado de duas semanas em recuperação de património que me fez tomar a decisão de ir mais nesta direcção”. Foi em 2016 no Vale do Alto Médio Reno, parte do Rio Reno entre as cidades de Koblenz e Bingen que é Património Mundial. Mariana participou de uma acção de reconstrução de paredes de pedra danificadas que assinalam os caminhos e separam as vinhas, elemento integrante da paisagem local. “Dois anos depois, passei de voluntária a coordenadora de grupo, para estar atualmente a trabalhar na organização European Heritage Volunteers, sendo maioritariamente responsável pelos projectos que acontecem na Alemanha”.

 

Mariana mantém, contudo um “pezinho” em Lisboa, onde desenvolve um projeto de educação patrimonial e ambiental para crianças do 1º ciclo no Externato O Lar da Criança.

 

 

Entre duas – ou mais – culturas

 

Vive actualmente em Kaiserslautern, a sua base na Alemanha, de onde parte para os vários projectos da European Heritage Volunteers. “Uma vez que foi bombardeada na 2ª Guerra Mundial, nota-se que é uma cidade industrial e militar, com uma presença americana muito forte”. Confessa que não é das suas cidades preferidas na Alemanha, essas são a vizinha Heidelberg e, uns bons quilómetros a noroeste, Quedlinburg. “E, claro, gosto muito de Berlim. O rio, o ritmo, os eventos, a noite, os diferentes espaços da cidade, faz-me lembrar Lisboa!”

 

O trabalho levou-a à capital alemã em Julho passado, onde participou no European Cultural Heritage Summit. “A organização trouxe voluntários para dar apoio aos eventos e vieram também voluntários do Heritage Times para fazerem reportagens. A minha função era mais de logística, mas também consegui participar nalguns eventos! Se Berlim já tem sempre tanta coisa a acontecer, com o Summit parecia que estava com um ritmo ainda mais acelerado! Houve momentos incríveis como dançar na Gendarmenmarkt e beber um copo de vinho com vista para a catedral de Berlim”.

 

Em Novembro de 2018 passou ainda por Leipzig, onde participou na Conferência “Volunteering for Heritage”, integrada na Denkmal Fair, uma das mais conceituadas feiras europeias de conservação de património, promovida pela European Heritage Volunteers. “Tive algumas tarefas de logística. Contudo, o momento alto foi a oportunidade de falar sobre a importância do voluntariado e da presença dos jovens nesta área, num dos painéis da conferência, em conjunto com quatro colegas de diferentes nacionalidades. E ainda tive a honra de fazer uma pequena apresentação sobre o programa da organização e partilhar a minha experiência na reunião de stakeholders e representantes nacionais do Ano Europeu do Património Cultural”.

 

Como quem desenha um itinerário turístico, Mariana já viajou por várias dezenas de cidades na Alemanha: “Já passei por Freudenstadt, Rhens, Schneeberg, Albersdorf, Oßmannstedt, Freiberg... Resumindo, já conheço os comboios regionais alemães quase todos!”.

 

Trabalho, viagens e as saudades de casa

 

Ainda que não se sinta “100% emigrante”, Mariana sente falta de Portugal. “A comida... Na Alemanha sou maioritariamente vegetariana, em Portugal não resisto ao peixe. O sol, que tanto adoro em Portugal, transforma-se em neve e, confesso, ainda não domino a técnica de andar no gelo. Sinto-me sempre na banda sonora do Dancing Queen dos Abba cada vez que saio à rua no Inverno“, conta em tom irónico.

 

Talvez para contrariar essas saudades de casa, Mariana Martinho nunca está parada. Entre as viagens que faz entre as várias cidades onde coordena os projectos de voluntariado, ainda encontra tempo para escrever. Parte da organização-mãe e em parceria com a Europa Nostra, o Heritage Times é um jornal online onde uma equipa de voluntários internacionais escreve histórias pessoais sobre património. “É uma iniciativa muito criativa! É um trabalho de equipa onde há este sentimento de curiosidade pelos artigos uns dos outros, uma vez que falam normalmente de património menos conhecido, de iniciativas ou eventos e de vários países europeus. Faço parte desta equipa de voluntários e na versão online já publiquei três artigos”.

 

Mariana trabalha em inglês. Não domina completamente o alemão, mas serve-se dele para o dia-a-dia, e isto é quanto basta. “O inglês é essencial quando trabalho com os voluntários internacionais. Mas quando tenho de falar com os parceiros dos projectos preciso de falar alemão, pois muitos deles não falam inglês.” A vontade de melhorar o alemão é premente, e Mariana considera-a claramente uma mais-valia. “Quero aprender a dizer uma frase completa sem ter de recorrer a gestos e palavras de várias línguas até estarmos todos a rir sem ter a certeza de que percebemos a mensagem toda”, diz.

 

De forma relaxada e bastante terra-a-terra, Mariana descreve a sua experiência na Alemanha como uma oportunidade única de aprendizagem e desenvolvimento pessoal, não só a nível linguístico, mas também de organização de projectos, comunicação, e escrita. “Infelizmente ainda só escrevi um artigo sobre o nosso país, mas o engraçado é que há artigos escritos sobre Portugal por colegas meus que não são portugueses! E é muito interessante ver a perspectiva e forma de escrever de pessoas de outras nacionalidades sobre a nossa cultura. A única coisa difícil para mim é escrever em inglês sobre Portugal. Não consigo transmitir as emoções tão bem. Mas o mais curioso é que disseram que os artigos meus e da minha colega brasileira eram os que transpareciam mais sentimentos. Nós rimo-nos e pensámos o que seria então se escrevêssemos em português!”

 

As diferenças culturais notam-se em alguns momentos, e isso agrada-lhe “Penso que  o mais interessante é ver o tipo de património que as pessoas escolhem. Uns escolhem museus, outros monumentos ou edifícios industriais. Há artigos mais centrados nas comunidades locais, outros no estilo arquitetónico. Há uma grande variedade e diferentes perspectivas, que têm muito a ver com a importância que o património tem em cada país, no caso de ter havido ou não guerras por exemplo”.

 

 

Voltar a Portugal

 

“Sempre tive o bichinho de fazer um projecto internacional em Portugal. Quando me apercebi que ía estar muito envolvida nos vários projectos e que alguns seriam também fora da Alemanha, pensei ser a melhor altura! O mais difícil foi escolher o tipo de património para o projecto... e onde”. Sempre que pode, Mariana passa os olhos pelos projectos que acontecem em Portugal: “Tento realçar as iniciativas que acontecem em Portugal ou trazer outras diferentes”, assegura. Entre Agosto e Setembro passados, organizou um projecto sobre o restauro e a conservação preventiva de azulejos em Lisboa.

 

Realizado em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa – Divisão de Salvaguarda do Património Cultural, teve a duração de duas semanas e revelou-se uma experiência especial pelo facto de o azulejo ser um elemento característico português tão ameaçado actualmente. “Participaram oito voluntários internacionais, vindos da Hungria, Camarões, Espanha, Coreia do Sul, Reino Unido, Itália e Alemanha. Houve dias que estavam na oficina de restauro enquanto outros foram para o armazém fazer inventário dos azulejos. Infelizmente este património azulejar está em risco como podemos ver por algumas fachadas em Lisboa, pelo que foi reconfortante poder contribuir um pouco para a sua protecção”, refere.

 

E quanto a futuros projectos em Portugal, Mariana esclarece: “Estamos a desenvolver algumas parcerias. Em Lisboa para o próximo ano vai ser realizado um projecto semelhante sobre conservação de esculturas no espaço urbano. Mas também temos outros em vista, nomeadamente no Norte e Sul do país. Estamos sempre à procura de parcerias!”

Cá e lá entre Alemanha e Portugal

Licenciada em Audiovisual e Multimedia pela ESCS – Escola Superior de Comunicação Social (Lisboa), chegou a Berlim em 2010. Depois de ter participado em vários projectos de voluntariado e iniciado o Shortcutz Berlim, juntou-se à nova equipa Berlinda em 2016 e é desde então editora do magazine, para o qual contribui com vários artigos e entrevistas. 

Rita Guerreiro

Freunde von Berlinda e.V. , Heimstr. 3, 10965 Berlin - info@berlinda.org 

BERLINDA 2019 · All rights reserved