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Cancan, fru-frus e uma lição de História com "Berliner Luft – it’s in the air!"

Foto: Berliner Luft © Immoral Babylon Productions

Sentado nas mesinhas do histórico Ballhaus Berlin, o público apinhado delira com as peripécias e aventuras de quatro raparigas de há cem anos à procura de um lugar ao sol. Entre cancan e Moulin Rouge, striptease integral, um guarda roupa glamouroso e muitas lições de História, o humor é a constante de ”Berliner Luft it’s in the air!”, o espectáculo de variedades ao estilo vintage que está em cena em Berlim até 24 de janeiro.

Concebido, realizado e produzido pela companhia Immoral Babylon Productions, liderado pela portuguesa Lúcia Vicente, este espectáculo (falado em inglês e portanto perfeito para um público internacional) conta  a história de duas bailarinas que na viragem para o séc. XX decidem sair de Nova Iorque e partir à descoberta da Europa dos Années Folles – os míticos anos loucos, em que a boémia parecia ter tomado de assalto as ruas de Paris, Viena fremia entre a psicanálise de Freud e os frisos da Secessão, e os cabarets berlinenses pululavam em cada esquina. E paralela a esta história, mais conhecida, está a outra: a da emancipação das mulheres, a luta pela posse do próprio corpo e por um lugar numa sociedade igualitária.

 

Entre fru-frus e perucas, aprendemos como as mulheres nos primeiros anos do séc. XX eram proibidas de mostrar o corpo em teatros, nomeadamente, era-lhes vedado dançar, cantar ou representar despidas. As pioneiras da emancipação feminina inventaram uma forma de ludibriar a lei e mostrar o corpo como bem lhes apetecesse: os chamados Tableaux Vivantes, ou quadros vivos, nos quais as artistas posavam sem sem mexer imitando quadros famosos, como por exemplo o nascimento de Vénus, de Sandro Boticcelli, e outras obras primas. Os teatros enchiam-se de Lordes e académicos, muitos acompanhados de suas excelentíssimas esposas, todos desejosos de ver aquelas apresentações eróticas. Mas a lei era para cumprir à letra, e ai da bailarina que se mexesse nem que fosse para limpar o suor da testa: a polícia sentava-se nas primeiras filas à espera do menor descuido, e quem se movesse nem que fosse por um segundo era imediatamente presa e levada para a cadeia, por atentado aos bons costumes e prostituição.

Esta e muitas outras histórias da emancipação feminina são contadas com muito humor e inteligência pela Immoral Babylon Productions, ou não fosse a mentora do projeto, a portuguesa Lúcia Vicente, aliás Luky Lu, licenciada em História pela Universidade Nova de Lisboa, e uma estudiosa da História das Mulheres em particular. Quatro talentosas e muito divertidas atrizes – Champagne Sparkles, Luky Lu, Little Miss Piss e Syren Joey – juntam-se a um mâitre de cerimonies – um maravilhoso Ferkel Johnson com um humor dandy  altamente contagiante – para fazer as delícias do público, que respondeu com palmas, gritos, pedidos de bis.  Já para não falar do guarda-roupa, que por si só já merecia uma visita.

Toda a produção foi financiada através de uma campanha de Crowdfunding lançada há alguns meses atrás na internet. O famoso Do It Yourself berlinense soma e segue e possibilita assim um  show singular, ao qual se espera e deseja que seja reposto com brevidade num espaço porventura maior, e com mais apresentações.

Em resumo: um espectáculo muito bem conseguido, coeso, visivelmente fruto de muito trabalho e muita pesquisa. Aqui,  o entretenimento alia-se ao conhecimento e cria um ambiente mágico em que o público é transportado para outras eras. 

Berliner Luft – it’s in the air!
(Falado em inglês)
22, 23 e 24 de janeiro, sempre às 20h (portas abrem às 19h)
Entrada: 25 Euros
Duração: cerca de 2h, com intervalo
Ballhaus Berlin
Chausseestr. 12
10117 Berlin

 

  

 
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