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Art Kreuzberg, um passeio artístico pelo bairro a culminar na exposição de Sérgio Pimenta

Foto © Copyright Sérgio Pimenta

Chove. Estamos em Setembro, e o Inverno chegou. Ainda é cedo, e poucos são os transeuntes que se aventuram pelas ruas nesta manhã cinzenta. Diz-se, que nesta cidade desenvolve-se um profundo conhecimento do extenso gradiente dos cinzentos. Hoje, este é leve e com isso instala-se uma paisagem homogénea de tranquilidade curiosa. À porta duma loja de molduras, debaixo do toldo da entrada, aguardam, duas senhoras, a badalada do meio-dia, hora para a qual está marcada a inauguração do festival Art Kreuzberg. Ladeadas por duas mesas cheias de copos de espumante, prontos para celebrar a abertura do evento, estas duas organizadoras emanam um merecido nervosismo de orgulho, à medida que vêem aproximar-se a hora de dar início à oitava edição deste festival que dá a conhecer as artes dos bairros (Kiez) Bergmann- e Greafekiez. É da iniciativa voluntária local e da disponibilidade de artistas, galerias, lojas, restaurantes e bares sediados nestes dois bairros, que nasce o Art Kreuzberg; um festival que pretende abrir as portas à intimidade dum dos mais importantes epicentros artísticos na história de Berlim.

 

O passeio começa, e a primeira paragem é o Atelier Tatiana Sophia Sainz. No chão, defronte ao portão dum prédio cor-de-rosa ruço, estão distribuídos, em jeito de pegadas, panfletos do festival; convidando os passantes mais distraídos a entrar num dos muitos recantos palpitantes, escondidos dos olhares menos atentos nas traseiras dos edifícios da cidade. Ao entrar no atelier, o visitante é surpreendido por uma cornucópia de cores, acompanhada pelo doce sorriso duma senhora repleta de ternura jovial. Apresenta-se de imediato estendendo a mão e oferecendo um chá, o qual prepara sobre um fogão salpicado de tintas alegres e o serve numa delicada taça de porcelana. Não reprime a felicidade de receber a sua primeira visita e, sem embargo, quer saber a quem deve a honra; uma delicadeza à qual o visitante não hesita em retribuir. Assim, deixam dois estranhos de o serem. Iluminados por um chão completamente salpicado pelas tintas vivas que contam a história do seu percurso como pintora e na companhia de quadros seus, uns pendurados na parede, outros cuidadosamente distribuídos por diversas mesas com o meticuloso auxilio da sua filha, ela conta-lhe como o bairro tem vindo a mudar com os tempos, como os ateliers têm vindo a ser ocupados por cafés, mas que o facto do tempo transformar a paisagem, não perde a disponibilidade para se encantar com as novas vidas que o sítio vai adquirindo. E sorri. Antes do visitante partir, anuncia-lhe que, ao final do dia, a sua filha fará uma apresentação de dança. O visitante acabará por não a conseguir ver, mas lamenta, pois o amor que colora os olhos desta mãe merece toda a atenção; é que este visitante perde-se com facilidade ao longo do tempo que passa sem aviso, nas estórias daqueles que vai cruzando nas várias paragens que o festival proporciona. Defeito particularmente agudo naquele que carece de ubiquidade.

 

Seguem-se duas galerias: Alon Halit Art e Bunter Hund Berlin. Muda o tom. Deixa a recepção de ser calorosa e intimista, passando a uma cordialidade profissional; não por isso menos genuína, mas curando-se o visitante de uma particular sensibilidade pela intimidade humana, vê-se ele menos confortável (e até algo condicionado) durante estas paragens. Não obstante, reconhece o valioso investimento destes dois espaços na promoção das artes. Além da exposição de trabalhos, a primeira galeria oferece programas educativos e de aconselhamento a jovens artistas, e a segunda apresenta-se como um espaço promotor das artes através do encontro entre artistas, desenvolvendo uma série de eventos e actividades nesse sentido. Ao lado da Bunter Hund Berlin, há um pequeno restaurante italiano que integra o festival, Tirelli’s, azafamado com gentes que satisfazem a sua gula. É tal o movimento que o visitante não se atreve a entrar. Em sua vez, detém-se do lado de fora mirando através da larga montra pequenos quadros expostos no alto das paredes, ocupando o mesmo lugar que os (frequentemente numerosos e barulhentos) televisores ocupam em tantos restaurantes em Portugal – uma opção mais serena. Distraído, o visitante deixa-se contemplar todo o quadro vivo, emoldurado pelos bordos da vitrine.

 

A próxima paragem é o Atelier Georg Jenisch. Atrás de uma enorme montra virada para a Katzbachstraße, vê-se uma sala de tectos muito altos, cheia de quadros em tons austeros e um homem alto, de olhos claros e muito abertos, uma figura bem-disposta e carácter curioso. Sem perder tempo oferece-se para partilhar um copo de vinho austríaco, terra que o viu nascer, com o recém-chegado. Sentados em torno da sua mesa de trabalho, a conversa flui sem embaraços. Fala da sua relação com a antiguidade clássica, e como ela influência o seu trabalho. Ambos admiram a intemporalidade do juízo sábio que os antigos deixaram gravados para eternidade sobre a condição e a natureza humana, sobre o bem e o mal – e eterna como se têm mostrado validos estes juízos, invariável se tem mantida esta natureza; para o bem e para o mal, e lamentam o mal. São estas intimidades, estes momentos de concordância, de filosofia partilhada, que fazem deflagrar confidências: relatos de vidas passadas e sonhos de vidas futuras, e, nas entrelinhas, surge o presente, esta nuvem incógnita em forma de interrogação. Em todo o momento se deixa acompanhar por um cigarro; uma relação que, ainda que permanente, manteve com uma calma muito elegante. No momento do visitante partir não se despedem, fica acordada uma nova visita para breve. Lança um último olhar a Édipo agarrado ao seu destino, e parte.

 

Se a possibilidade de poder ser dado a conhecer a intimidade de alguém é uma experiência deliciosa, incluir, numa mesma maratona, galerias, ou espaços por excelência de comercialização da arte, resulta numa tarefa muito árdua não percepcionar tais locais como assépticos. Assim, resta ao visitante desfrutar de pequenos deleites para lhe alegrar o espírito. A título de exemplo, a porta da Galerie Sievi forrada a posters de exposições passadas; isso e o escritório imerso no caos eram as mostras de maior encanto, pois beneficiavam de uma relação, naturalmente, simbiótica com a galeria; a outra arte nela exposta estava perdida numa terra de caras, língua e hábitos desconhecidos.

 

Um pouco cansado de se molhar, o visitante começa a questionar a sua vontade. Instante pertinentíssimo para que o destino venha repor vigor ao passeio. Assim o é, e com o seu jeito diáfano, leva o visitante até uma porta com uma enorme boneca sorridente feita de pasta de papel, a loja da Tutu. Dentro, reina uma sinfonia de cores vibrantes; é tal a intensidade que o visitante se vê entre uma ode à felicidade e um aterrorizante temor de que esta escape, onde a cor é o estuque que tenta cerrar todas as vias de fuga. É um lugar de intensos contrastes, entre peças de uma beleza e inocência delicadíssimas e o temor de que tudo se dilua; assim o é a Tutu, uma senhora com tanto de doce como de frágil. Todas as peças na sua loja foi ela que as fez; sentada numa escrivaninha à janela, vai pintando a história da sua infância, a história daquele que foi o confim ocidental mais oriental da Guerra Fria, pois Tutu nasceu e cresceu numa rua de Kreuzberg onde passava o muro. Enquanto pinta a história do seu Kiez num jeito muito infantil, é recebida por crianças que, passando à sua porta, entram para se servirem de guloseimas e ouvirem as histórias dos seus desenhos.

 

Com o entardecer, as ruas, as galerias e os ateliers vão-se enchendo de gente curiosa. Sendo cada vez menor a oportunidade de receber a atenção dos anfitriões, o visitante deixa-se passar despercebido entre as gentes. Decide, então, terminar o seu passeio pelo Art Kreuzberg no 7 Mares, um bar de vinhos português. Aqui, está marcada para as 19 horas a inauguração da exposição do jovem pintor Sérgio Pimenta. Ainda falta dar os últimos toques, o que se faz com calma, uma calma que é tão natural ao visitante. Sente-se confortado. Regozija poder dialogar sem ter de pensar, sem ter de traduzir línguas, gestos ou silêncios. Com a alma cheia de histórias, o visitante dá por encerrada a sua visita ao festival e faz-se ao caminho para casa. Lá fora espera-o um verdadeiro entardecer de final do Verão, o céu está azul forte e as ruas pintam-se de laranja. O sol brilha.

Sobre o evento:

O Art Kreuzberg aconteceu nos dias 9 e 10 de Setembro e teve a participação do artista português Sérgio Pimenta que criou no espaço 7 Mares a exposição "Limites", patente até 9 de Outubro. 

Sobre a exposição:

 

Um espaço imaginário tridimensional onde existem plataformas e água acessíveis, sobrepondo-se a um fundo incerto, abstrato, desconhecido e incerto. O sentimento que está instalado é o medo de queda, no vazio ou na água, onde não há terra, ou pelo menos não se vê.
A transparência dessas plataformas, ou melhor, a natureza ou a técnica de como elas foram pintadas, mostrando ao visitante o que se encontra abaixo, faz com que se sinta um pouco frágel, gerando uma sensação de medo e insegurança / perigo mas cujo contraste com o fundo, parece-nos o único lugar estável onde se tem pé firme.

 

 

  

 
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Édi Kettemann

O Édi é uma pessoa muito curiosa, que se interessa por tudo aquilo que vê. Adora observar pessoas, os seus movimentos e interacções. Este é provavelmente o principal motivo que fez despertar nele, já desde pequeno, a paixão pelo cinema, teatro, pela escrita e fotografia. De formação engenheiro electrotécnico, algo que lhe deu a oportunidade de viver em diferentes países, interagir com diferentes culturas e familiarizar-se com várias línguas, dedica-se à cultura e à educação. Vive em Berlim desde 2016.

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