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Incêndios em Portugal: a importância da aposta na investigação e criação de uma sociedade do conhecimento - Entrevista a António Ferreira

António Dinis Ferreira é professor da Escola Superior Agrária do Politécnico de Coimbra e coordenador científico do Centro de Recursos Naturais, Ambiente e Sociedade (CERNAS).  Participou em mais de 35 projetos financiados pela União Europeia e pelo Governo Português, e está frequentemente presente em eventos e conferências pelo mundo fora. Em Abril esteve em Viena, Áustria, onde participou da conferência de imprensa organizada no âmbito da EGU - Assembleia Geral da União de Geociências Europeia (8-13 de Abril). Falou sobre as características únicas da Região Centro de Portugal e os incêndios que deixaram um rasto de destruição sem precedentes no ano passado.

 

A Berlinda não perdeu a oportunidade única de falar com o investigador português sobre o tema dos incêndios, que em 2017 resultou em mais de 40 mortos e mais de 400 000 hectares consumidos no país. Mas os incêndios do ano passado não afetaram só Portugal - o ano de 2017 foi considerado o mais catastrófico de sempre também na Califórnia, com uma área ardida superior ao tamanho de Nova Iorque, mais de 40 mortos e mais de 200 feridos. Muitos investigadores apontam a importância de considerar o fenómeno das alterações climáticas como potenciador dos incêndios um pouco por todo o mundo.

 

 

Trabalha e faz investigação na área da Gestão Ambiental há mais de 30 anos, sempre com base Portugal. Porquê esse interesse pelo nosso território? Nunca considerou uma carreira no estrangeiro?

Antes de mais, gostava de referir que, embora tenha estado e pretenda estar sediado em Portugal, sou de uma geração que teve oportunidade de se internacionalizar, de durante algum tempo ter feito parte do percurso em outro país, de ganhar uma reputação a nível internacional. Comecei a minha carreira científica como investigador num dos primeiros projetos de investigação europeus que Portugal teve, logo a seguir à entrada na União Europeia, um projeto com uma Universidade do Reino Unido, que foi muito importante para perceber como funciona a comunidade científica a nível internacional. Hoje em dia, enquanto membros da União Europeia, e com acesso a financiamentos e parcerias europeias, é possível criar uma reputação a nível internacional. Quanto ao não ter procurado emprego fora do país, existem fatores importantes para lá do salário. Ficar em Portugal, para a minha geração e para as novas gerações, em termos de investigação, permite a internacionalização e a construção de uma reputação – e, mais importante, permite lutar por financiamento em ambientes competitivos, como os programas Europeus de financiamento da investigação. No entanto, para isso é necessário criar as condições que outros países já têm, e de adquirir o “know-how”, o saber fazer, saber como os sistemas funcionam, de forma a podermos reduzir a distância para outros países. Esse desejo de construir as competências, criar condições, de permitir que as gerações seguintes tenham bases mais sólidas ao nível da investigação, foi provavelmente a principal razão para não ter saído do país. Depois vem o desejo de ter um impacto positivo sobre o desenvolvimento da minha Região (a Região Centro) e do país, apesar de todos os constrangimentos. Considero que é minha missão contribuir para criar as condições para que a distância para com os países mais desenvolvidos se vá esbatendo.

 

 

Conhece bem a realidade Portuguesa. Que melhorias existem hoje em dia no país - investimento, competitividade, visão - e o que espera que mude com as novas gerações?

Começamos a ter a investigação mais apostada em contribuir para a competitividade e o desenvolvimento da estrutura socioeconómica, apostada na inovação enquanto forma de aumentar a produção, o valor e a competitividade do nosso tecido empresarial. Este é o caminho para uma sociedade mais próspera, educada, saudável e resiliente, e não tanto a criação de conhecimento para ficar apenas nas torres de marfim que são as Universidades. Esperamos que esta aposta na sociedade do conhecimento permita a construção de uma sociedade mais evoluída e consequentemente melhor para as novas gerações, com mais oportunidades, que permitam níveis mais elevados de realização pessoal e social para as futuras gerações.

 

 

Em Abril deste ano viajou até Viena para a EGU, pouco tempo depois já tinha em mãos a preparação de uma proposta para entregar para o programa PRIMA - Parceria para Investigação e Inovação na região do Mediterrâneo. Como é um dia típico de trabalho no CERNAS?

O CERNAS possui neste momento cerca de 50 investigadores integrados com doutoramento, a maior parte professores nas três Escolas Superiores Agrárias da Região Centro, mas também alguns doutorados que se concentram apenas na investigação. Além disso temos quase 100 investigadores colaboradores, sem doutoramento, entre os quais várias dezenas de jovens investigadores bolseiros que se encontram em processo de formação, que trabalham em projetos de investigação ou estão a preparar o seu doutoramento. O fato de estarem envolvidos num centro de investigação, dentro de um ambiente científico mais competitivo, capacitador e facilitador, permite-lhes uma aprendizagem mais rápida, e a colocação do foco na resolução de problemas que permitam a construção de uma sociedade mais justa, com maior qualidade de vida e resiliente e numa economia mais competitiva e sustentável a longo prazo.

O trabalho de um investigador integrado passa por tentar construir a sua equipa de investigação, a célula básica do processo de investigação. Tendo como objetivo a formação de quadros e a produção de saber inovador que possa ser interessante para a sociedade, procura encontrar fontes de financiamento, desenvolver trabalho de investigação de elevada qualidade e produzir produtos científicos, nomeadamente patentes ou artigos publicados em revistas internacionais de qualidade superior, que atestem a excelência do trabalho realizado.

 

 

E como se consegue obter financiamento para um centro de investigação deste tipo?

Penso que nunca existiu tanto dinheiro para investigação como agora, e provavelmente existirá mais no futuro, pois apenas através da investigação e da inovação conseguiremos aumentar a produção, competitividade, equidade e bem-estar face aos problemas que se vão colocando. Neste sentido, o financiamento da investigação é extremamente competitivo, pelo que investigadores, equipas e instituições com melhor desempenho têm mais hipóteses de conseguir financiamento. Neste sentido, existem vários programas de financiamento de investigação, desenvolvimento e demonstração da União Europeia, e em Portugal existem programas específicos a nível nacional e regional, em grande parte alicerçados pelos fundos estruturais.

Quanto aos Centros de Investigação, quando atingem um determinado nível de desempenho, têm direito a um financiamento plurianual, que por investigador é algo limitado, mas que permite a realização de algumas atividades, como pagar alguns consumíveis, algum pequeno equipamento, a participação em conferências ou o estabelecimento de redes científicas que poderão permitir aos investigadores começar paulatinamente a ganhar reconhecimento e a terem hipóteses de conseguir projetos de investigação mais bem dotados financeiramente.  

 

 

Pode explicar quais são as características do território português, e em especial da Região Centro, tão propícias aos incêndios?

Eu tenho defendido que a Região Centro é particularmente vulnerável às alterações climáticas, primeiro porque se situa na transição de dois tipos de clima, o Mediterrânico, que nos proporciona todo o sol de verão, e o Atlântico, que tem uma distribuição de chuva mais homogénea ao longo do ano. Por outro lado, as características fisiográficas fazem com que a diversidade seja a característica mais marcante da Região Centro. Como já escrevi, a Região Centro deve ser o único local do mundo onde se passa de uma paisagem escandinava para uma paisagem típica de savana africana, em menos de 80 km, por estrada e de uma forma não linear. O problema é que face a esta diversidade extrema, os sistemas de uso do solo pouco mudam, e, num contexto de alterações climáticas, em muitas áreas esses sistemas não estão em harmonia com as novas condições. Nessas condições de desequilíbrio, os pavorosos incêndios florestais vão lavrando e degradando os ecossistemas a um ritmo superior ao que aconteceria se os sistemas de uso do solo estivessem adaptados à variabilidade climática e às alterações globais que se fazem sentir.

 

 

E a tão polémica questão: afinal, porque é que ocorrem tantos incêndios em Portugal - seca, queimadas, mão criminosa, eucaliptos, terrenos ao abandono…?

É um pouco de tudo. Só por si, cada um destes fatores provavelmente pouco impacto teriam. Por um lado, o fogo é endémico das regiões de clima com influência climática mediterrânea. É um fenómeno natural, pelo que nunca se pode eliminar, apenas gerir. Por outro lado, os ecossistemas existentes em Portugal são o resultado de interações milenares entre o homem e o meio, pelo que o êxodo rural que aconteceu a partir da década de 50 e 60 do século passado, e que esteve na origem da primeira vaga de emigrantes para a Europa, fez com que essa relação entre o homem e o meio se perdesse, o que resultou num acumular de matéria orgânica. Por outro lado, a saída das pessoas teve como resultado uma diminuição da diversidade da paisagem, que se tornou predominantemente florestal, com enormes manchas contínuas de espécies sensíveis ao fogo, o que aumenta o risco. As queimadas, sobretudo feitas em períodos quentes e secos estão, na origem de muitos incêndios. Com efeito, se a maior parte das ignições são provocadas pelo homem, as resultantes da incúria são seguramente mais do que os casos criminosos. De realçar que a técnica do fogo controlado, cujas raízes assentam nas queimadas, são uma valiosa técnica de redução de combustíveis e de diversificação da paisagem, que resultam numa diminuição do risco de incêndio. Têm é que ser efetuadas nos períodos de final de outono, inverno e início da primavera. A seca geralmente afeta significativamente o número de incêndios e a área queimada. No entanto, considero que a principal razão foi a alteração decorrente da saída das populações, que tinham um modo de vida absolutamente espartano e foram á procura de melhores condições de vida, e, a partir daí as opções tomadas quanto à gestão do território, revelaram-se francamente propícias á proliferação dos incêndios e ao aumento da sua intensidade.

 

 

Isso quer dizer que, por si só, as queimadas não são o principal causador dos incêndios?

Neste caso, temos que distinguir duas situações:

1 - os fogos controlados, que são uma versão mais científica e tecnológica das antigas queimadas que os pastores faziam para melhorar o pasto para os rebanhos. O fogo controlado é efetuado durante a época húmida e quando bem feito, constitui uma excelente técnica de controlo da biomassa e de diversificação da paisagem, sem impactos significativos sobre a sustentabilidade dos ecossistemas.

2 - as queimadas durante a época seca, geralmente para queimar a biomassa resultante das atividades agrícolas, são proibidas, e dado o impacto sobre o número de incêndios, provavelmente deveriam ser mais penalizadas.

 

 

Na sua opinião, porque é que os incêndios do ano passado em Portugal foram os piores de sempre?

Foi a “tempestade perfeita”, uma conjugação de tudo o que podia correr mal. Para mim, existiram três momentos marcantes na última época de fogos, que me fez reflectir que temos que repensar o território de forma muito mais profunda. O primeiro foi o que aconteceu em Pedrógão. Uma tempestade de fogo, um episódio raro, em que se dá a formação de um cumulonimbo, uma nuvem de tempestade associada ao fogo, ainda durante a primavera, que provocou um incêndio de rara intensidade. Derreteu o vidro dos carros. Lembro-me de ver uma fotografia que me impressionou, uma pessoa que faleceu na estrada da morte nem sequer conseguiu deixar cair o braço no momento da morte. A violência deste incêndio e os relatos dos sobreviventes trazem-me à memória as imagens do inferno da catequese.

O segundo momento de preocupação pura foi quando ardeu o concelho de Mação, que conheço de há décadas, e que ardeu completamente, apesar de ser um caso de estudo pela positiva. Era um dos concelhos mais bem geridos em termos de ordenamento florestal e das medidas de prevenção de incêndios. A boa gestão permitiu salvaguardar a população, mas a floresta ardeu toda.

E depois, quando já nada o faria esperar, o longo período seco associado à passagem ao largo do furacão Ophelia (que dias antes se chegou a pensar que iria atingir o território Português e assim acabar com uma época de incêndios de má memória), passou ao largo, provocando ventos fortes e queimando em dois dias mais de 200 mil hectares. Se os 200 mil hectares tivessem ardido num ano, esse ano seria agora o 4º pior de sempre!, logo após os anos de 2017, 2003 e 2005. Os relatos, as imagens, o conhecimento de vários casos, permitem afirmar que o número de mortos poderia ter chegado às várias centenas de pessoas, não fosse o sangue frio e alguma sorte.

Em 30 anos de trabalho, nunca tinha visto tal - e o que aconteceu está muito além do pior cenário que poderia imaginar. Eu costumo dizer aos meus alunos que as alterações climáticas, numa fase inicial, se manifestarão por uma maior intensidade e frequência de episódios meteorológicos extremos. Foi o que aconteceu, e ficou demonstrado que somos extremamente vulneráveis. Convém, por isso, pensar bem como tornar a Região mais resiliente.

 

Entre as medidas para combater os incêndios que mencionou na EGU em Viena, está a colocação de geradores nas aldeias mais propícias aos fogos. Que ajuda podem esses geradores trazer?

Mesmo que as aldeias tenham reservatórios de água que possam servir para combater os incêndios (alguns foram mesmo construídos para esse efeito), os incêndios geralmente destroem a rede de distribuição de eletricidade. Assim, quando chegam perto das povoações, estas já não têm eletricidade para fazer funcionar quaisquer bombas de água que possam existir, e temos o espetáculo angustiante de ver pessoas a combater o fogo com baldes de água, com ramos de árvores ou com pequenas mangueiras com baixa pressão. Uma das primeiras baixas num incêndio violento é a eletricidade, deixando as populações particularmente desprotegidas.

 

 

Para terminar, o que é que cada um pode fazer individualmente para prevenir o risco de incêndios? Precisamos de mais campanhas de sensibilização, manifestações?  

Espero que depois do último ano haja uma assunção coletiva do que constitui comportamentos de risco. De qualquer forma, penso que este caso específico deveria ser ensinado às crianças e jovens nos diferentes ciclos de estudo do ensino básico e secundário. Tanto quanto sei, não existem módulos de ensino específicos sobre um assunto tão importante na sociedade Portuguesa.

A formação pode ser importante até para a própria sobrevivência das pessoas. Enquanto líder de uma equipa de jovens investigadores que costumam trabalhar em áreas florestais, costumo partilhar com eles a minha experiência pessoal sobre como detetar precocemente incêndios que estejam a lavrar nas proximidades, e o que devem fazer, mesmo em situações extremas para aumentar as hipóteses de sobrevivência.

Entrevista feita por Rita Guerreiro

21/06/2018

Foto: António Ferreira

Rita Guerreiro

Licenciada em Audiovisual e Multimedia pela ESCS – Escola Superior de Comunicação Social (Lisboa), chegou a Berlim em 2010. Depois de ter participado em vários projectos de voluntariado e iniciado o Shortcutz Berlim, juntou-se à nova equipa Berlinda em 2016 e desde então contribui com vários artigos e entrevistas para o magazine. 

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